Na contramão da valorização da Bolsa, a ação do Grupo Pão de Açúcar já desaba 25% este ano.
O papel chegou a avançar 45% no ano passado, impulsionado pela expectativa de que novos acionistas pudessem dar novos rumos ao negócio e tirar a empresa do impasse financeiro.
Mas o otimismo passou: o GPA tem uma das maiores vendas a descoberto da Bolsa – o equivalente a 20% do capital.
O problema central do GPA é sua queima de caixa. Segundo um executivo próximo à companhia, faz 50 meses que a geração de caixa é insuficiente para pagar despesas diversas e os custos de uma dívida que somava R$ 4 bilhões no fim de setembro, o último tri reportado.
O fluxo de caixa livre operacional melhorou em 2025: chegou a R$ 744 milhões de janeiro a setembro, ante R$ 365 milhões nos nove meses anteriores. Mas o custo financeiro comeu tudo: ficou em R$ 806 milhões.
O fluxo de caixa também tem sido insuficiente para cobrir despesas que somaram R$ 718 milhões de janeiro a setembro, incluindo processos trabalhistas, acordos tributários, gastos com o fechamento de lojas e honorários de advogados.
Faltaram R$ 780 milhões para a conta fechar. Em 2024, o rombo havia sido de R$ 1 bilhão.
O GPA classifica a maior parte dessas despesas como “não recorrentes”, mas segundo outra pessoa com conhecimento do assunto, a maior parte desses desembolsos deve se repetir por anos.
A empresa passou por sucessivas mudanças no conselho no ano passado. Além disso, nos últimos quatro meses, teve três CEOs – o atual, Alexandre Santoro, assumiu no início de janeiro em substituição a Rafael Russowsky, o CFO que ocupou o cargo de forma interina desde a saída de Marcelo Pimentel em outubro.
Diversas pessoas que conhecem os números da empresa disseram ao Brazil Journal que a solução para equilibrar as contas passa necessariamente por um aumento de capital, entre R$ 500 e R$ 700 milhões (o GPA vale em torno de R$ 1,5 bilhão na Bolsa).
“Os cortes de custo ajudam, mas sem uma injeção de recursos o negócio não para de pé,” diz um executivo próximo à companhia.
Um aumento de capital também poderia diluir a participação do Casino – hoje o segundo maior acionista, com 22,5% do capital, e que busca um comprador para sua posição.
Mas a visão predominante no GPA hoje, segundo duas pessoas próximas à varejista, é de que um aumento de capital só deve ser discutido mais adiante, depois de mais ganhos operacionais que ainda podem ser obtidos.
“Ainda tem muito mato alto para cortar,” disse uma dessas fontes.
No ano passado, a companhia já cortou capex e opex e dobrou sua geração de caixa. “Há mais oportunidades. A empresa tem uma marca forte, ótimos pontos. Precisa melhorar a operação,” disse uma dessas fontes.
Parte das diretrizes do que poderia melhorar tem partido de André Coelho Diniz. A Coelho Diniz – a rede de supermercados que ele comanda com os quatro irmãos e tem 22 lojas em Minas Gerais – passou a ser o maior acionista do GPA em agosto, com 24,6% de participação.
“Obviamente o André entende de varejo, mas não dá para querer replicar algo que funciona em 22 lojas numa companhia que tem mais de 700 pontos,” disse um ex-membro do conselho.
Os fãs de Coelho dizem que ele está ajudando a construir “uma visão de médio prazo” para o Pão de Açúcar, o que inclui analisar as despesas linha a linha, cortar o que não faz sentido, melhorar o mix nas lojas e a relação com clientes e fornecedores.
Um executivo de dentro da companhia disse que os gastos com consultorias e tecnologia estão dimensionados para o GPA que existia antes da cisão do Assaí e da venda de outros negócios non-core – e que faturava mais que o triplo dos R$ 20 bi que fatura hoje.
“A companhia tem gastos impactantes com advogados e consultorias também porque carrega passivos de outras épocas. Ela tem de se adequar à nova realidade,” disse esta fonte.
Na operação, o diagnóstico é de que é preciso melhorar as lojas atuais em vez de abrir novas, e concentrar a operação em São Paulo, Rio e Brasília, onde o mercado é maior.
“O capex obviamente não pode ser zero. São necessários investimentos de sustentação para as lojas. Mas também está claro que é possível otimizar e ser mais disciplinado,” disse a fonte.
Esta é a missão do novo CFO, Pedro Albuquerque, um ex-Kraft Heinz e Rumo contratado no início de fevereiro. Ele e Santoro trabalharam juntos na velha ALL entre 2010 e 2014.
Outra missão de Albuquerque é rolar a dívida de R$ 1,5 bilhão que vence este ano – R$ 400 milhões em maio, nas mãos principalmente de debenturistas, R$ 800 milhões em junho e o restante até dezembro.
Além disso, o GPA precisa resolver passivos tributários que somam cerca de R$ 16 bilhões. Apenas R$ 2 bilhões estão provisionados, e existe uma dúvida sobre o que pode ser negociado.
Em 2024, a empresa fez um acordo com o governo de São Paulo para quitar débitos de ICMS: conseguiu um desconto de cerca de 80% para uma dívida de R$ 3,6 bilhões.
“Do jeito que está, ninguém consegue modelar quanto vale o Pão de Açúcar. Fica difícil atrair investidores,” disse um executivo.
Uma assembleia está marcada para o dia 27 de março, e uma das pautas é a eleição de um novo conselho.
Por enquanto, segundo duas pessoas próximas à varejista, o grupo Coelho Diniz, o Casino e Silvio Tini – o terceiro maior acionista, com cerca de 12% – estão alinhados e, continuando assim, devem ter a maioria das cadeiras.
“A empresa precisa de paz para focar na operação,” disse um dos acionistas.
Outra pauta da assembleia é a retirada do poison pill que prevê a realização de uma OPA pelo acionista que ultrapassar 25% do capital.
O GPA publica seu quarto tri de 2025 na próxima terça-feira.
A ação cai 12% no meio do pregão no que aparenta ser a zeragem de um pequeno acionista – sublinhando como a baixa liquidez do papel o expõe a este tipo de volatilidade.






