Quando Hugo Chávez decidiu nacionalizar o setor de petróleo em 2007, a Chevron foi a única companhia que abaixou a cabeça e aceitou a nova realidade para se manter no jogo na Venezuela.

Enquanto a ExxonMobil e a ConocoPhillips saíram do país e iniciaram arbitragens contra Caracas, a Chevron aceitou reter uma participação minoritária em joint ventures com a PDVSA, a estatal venezuelana de petróleo. 

Agora, mais de 18 anos depois, essa decisão, de certa forma pragmática, pode finalmente render frutos à companhia. 

Com o ataque dos Estados Unidos à Venezuela e a captura do ditador Nicolás Maduro, a Chevron é a empresa mais bem posicionada do mundo para surfar uma potencial reabertura da indústria local — o que pode lhe render dividendos relevantes no médio e longo prazo.

Isso vai depender, é claro, do desenrolar das próximas semanas. Numa coletiva de imprensa no sábado, o Presidente dos Estados Unidos disse que seu país vai “administrar” a Venezuela até que seja possível fazer uma transição “criteriosa” para um líder democrático. 

Trump disse ainda que os EUA tem as “melhores companhias de petróleo do mundo” e vai estar “fortemente envolvido” na indústria de petróleo venezuelana daqui para frente. 

Não está claro, no entanto, como será esse período de transição, quanto tempo vai durar, nem quem será a nova liderança do país. 

Uma mudança radical na política — com um governo alinhado aos Estados Unidos e uma postura pró-negócios — naturalmente reanimaria um setor que encolheu drasticamente nas últimas décadas, por má gestão e sanções internacionais. 

Se isso acontecer, a Chevron é a candidata natural a liderar esse novo momento da indústria.

Com presença na Venezuela desde os anos 1920, a Chevron produz hoje entre 200 mil e 250 mil barris por dia no país, cerca de um quinto da produção total da Venezuela, mas menos de 10% da produção da companhia, que é de mais de 3 milhões de barris. 

Em termos de fluxo de caixa, a participação da Venezuela nos resultados da Chevron é ainda menor, “já que a Chevron não é proprietária direta das reservas venezuelanas e não pode monetizar livremente sua produção,” notou a Barron’s neste fim de semana.

“Os barris produzidos na Venezuela estão, na prática, presos a um mecanismo de recuperação de dívidas e de compliance, oferecendo pouca visibilidade quanto ao crescimento de lucros,” escreveu a revista. 

“Mesmo no melhor cenário político, seriam necessários anos de investimentos, clareza regulatória e reparos de infraestrutura antes que a Venezuela pudesse alterar de forma relevante o mix de produção ou a avaliação de mercado da Chevron.”

Sobre o impacto da prisão de Maduro em seus resultados, a Chevron se limitou a dizer num comunicado que continua focada na segurança e bem-estar de seus funcionários, e na integridade de seus ativos. “Continuamos a operar em total compliance com todas as leis e regulações relevantes,” disse a companhia. 

O potencial da indústria venezuelana de petróleo é gigantesco, mas extremamente subutilizado. A Venezuela está sentada sobre a maior reserva mundial de petróleo, estimada em mais de 300 bilhões de barris, mas produz hoje apenas 1 milhão de barris por dia, menos de 1% da produção global.

“A Venezuela já não tem a mesma relevância para os mercados de petróleo que teve no passado,” disse a Barron’s. “A produção caiu quase 70% desde o fim da década de 1990, quando o país extraia mais de 3,5 milhões de barris por dia. Hoje a Venezuela não possui capacidade para perturbar os fluxos globais de energia ou usar a oferta como instrumento de pressão, como conseguem fazer produtores maiores.”

Ao que tudo indica, isso pode estar prestes a mudar.

No pre-market trading domingo à noite, a ação da Chevron indicava uma alta de 11% sobre o fechamento de sexta-feira.  Empresas como Valero e ConocoPhillips apontam altas semelhantes.

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