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A Aço Verde do Brasil (AVB) está apostando alto em um ativo para sustentar (e até aumentar) a sua competitividade global: a floresta.
A empresa, que acaba de completar dez anos de operação, vem trabalhando num modelo que conecta biotecnologia no campo, controle de insumos e estratégia industrial para produzir aço de baixa emissão de carbono.
Mas a AVB quer garantir ainda mais sua previsibilidade de custos – e ganho de margem.
Primeiro, é preciso entender a importância do biocarbono nessa cadeia. Na siderurgia tradicional, o aço é produzido com carvão mineral, um elemento altamente poluente.
Já no aço verde, esse carvão é substituído por biocarbono feito a partir de biomassa, como eucalipto, que captura carbono ao crescer.
Funciona assim: a planta cresce pela fotossíntese, absorvendo o CO₂ e, depois, a biomassa é convertida em biocarbono, emitindo de volta o carbono para a atmosfera – desta vez, um carbono verde chamado de biogênico.
Como o ciclo é contínuo e renovável, a partir da colheita, uma nova árvore será plantada com o mesmo fim. Isto elimina a emissão líquida de CO₂ das áreas florestais.
Mas se uma empresa como a AVB não controla a floresta, isso pode se tornar um grande problema operacional. Por isso, a AVB enxerga a floresta como uma espécie de hedge natural.
Segundo Ricardo Carvalho, acionista da AVB, o atual estoque florestal da companhia equivale a cerca de sete anos de consumo, o que dá flexibilidade para ajustar investimentos conforme o ciclo de mercado.
“Controlamos a base de fornecimento do biocarbono, o que nos dá sustentabilidade da cadeia, qualidade e competitividade de custos,” disse Ricardo Carvalho, acionista da AVB.
Esse modelo ajuda a explicar um dos principais diferenciais da companhia: a intensidade de carbono.
Enquanto a média global da siderurgia gira em torno de 1,89 tonelada de CO₂ por tonelada de aço bruto, a AVB opera com aproximadamente 0,02 tonelada – um nível que a coloca como benchmark global.
Esse resultado só foi possível por causa de um trabalho de anos no desenvolvimento de clones de eucalipto adaptados às condições regionais – e bem antes da AVB existir como siderúrgica.
Esse trabalho de melhoramento genético começou em 1997 dentro do Grupo Ferroeste, controlador da AVB, que já atuava em silvicultura e produção de ferro-gusa décadas antes da inauguração da usina em Açailândia.
Para escalar esse ganho, a AVB investiu na construção de um viveiro próprio – aportando R$ 50 milhões em um projeto de melhoramento genético, biotecnologia e infraestrutura florestal no sul do Maranhão.

Em 2024, produziu 1,5 milhão de mudas em fase de testes. No ano passado, esse número chegou a cerca de 6 milhões, com meta de atingir 12 milhões nos próximos anos.
Em paralelo, a empresa estruturou uma biofábrica de bioinsumos e iniciou um projeto piloto de irrigação com uso de água residual rica em nutrientes.
Segundo Carvalho, trata-se uma iniciativa que busca aumentar o rendimento florestal e reduzir o uso de fertilizantes e defensivos químicos.
Outro eixo relevante é a chamada “revolução industrial” na produção de biocarbono, que deve trazer ganhos de eficiência ao longo de toda a cadeia nos próximos dois anos.
“Temos convicção de que os próximos ganhos disruptivos virão dos projetos florestais em curso,” disse Carvalho.
O modelo também tem um componente social relevante. Hoje, cerca de 80% da força de trabalho do viveiro de mudas é formada por mulheres – uma meta voluntária da companhia voltada à inclusão e capacitação no setor.
A estratégia está mostrando resultados: a AVB avançou na certificação internacional de suas operações. No ano passado, obteve o selo PEFC para manejo florestal no Maranhão – uma certificação internacional que atesta que a floresta é manejada de forma socialmente e ambientalmente sustentável.
Atualmente, o selo cobre cerca de 60% das suas áreas no estado. A meta é chegar a 100% o mais rápido possível.
Embora o uso de base florestal na siderurgia seja uma característica típica do Brasil, Carvalho diz que o diferencial da AVB está em ter estruturado toda a sua operação a partir desse modelo desde a origem.
A decisão remonta a 2008, quando o Grupo Ferroeste optou por avançar na cadeia e construir uma usina já integrada.
A unidade foi inaugurada em 2015, em Açailândia, concebida para operar com biocarbono e reaproveitamento energético antes mesmo de a agenda climática ganhar centralidade global.
Hoje, a companhia entende que ainda há espaço relevante para ganhos adicionais dentro desse ecossistema.
“A prioridade é consolidar e expandir o modelo integrado que conecta floresta, biocarbono e siderurgia de baixa emissão”, disse Carvalho.
Num momento em que a transição energética pressiona custos e redefine padrões industriais, a aposta da AVB é que o diferencial competitivo não está apenas no aço — mas na origem dele.






