A Vesper, uma venture builder focada em biotecnologia, acaba de captar R$ 25 milhões com membros das famílias Lafer e Klabin e com as gestoras Rise Venture e ACNext. O objetivo é levantar mais R$ 50 milhões até o final do ano.
Com oito startups no portfólio – donas de 17 patentes internacionais – a Vesper já captou outros R$ 200 milhões com investidores privados e programas federais de fomento à inovação da Finep e Embrapii.
Fundada em 2018, a Vesper tipicamente fica com 30% a 35% de suas investidas – startups de biotech em saúde e agro – e atua na gestão dessas empresas; boa parte delas sequer tinha CNPJ quando a Vesper apostou nas pesquisas e nos cientistas.

“Não existe uma cultura de empreender entre os cientistas brasileiros, muitos nem sabem por onde começar,” Gabriel Bottós, o fundador e CEO da Vesper, disse ao Brazil Journal. “Nossa missão é encontrar, filtrar e selecionar ideias para criar empresas ao lado dos cientistas, a partir de pesquisas desenvolvidas ao longo de décadas dentro das universidades.”
Nesta nova rodada, os investidores se tornaram sócios da Vesper. Os fundadores – os irmãos Gabriel e Rafael Bottós, Julio Moura Neto, Pedro Moura e Jonas Sister – detêm 80% da holding.
Os investidores também podem aportar recursos diretamente nas startups quando elas abrem suas próprias rodadas de captação. Nesses casos, a Vesper atua na coordenação do processo.
A nova rodada – uma extensão da Série A da Vesper – vai financiar validações em campo das startups de agricultura e testes clínicos nas empresas de saúde humana.
A estratégia é ter resultados robustos em mãos para que a Vesper e suas startups sejam notadas pelos grandes VCs de biotecnologia.
“A gente quer preparar nosso portfólio para jogar na primeira liga,” disse Gabriel. “Com comprovações suficientes e testes clínicos avançados conseguimos ir atrás de grandes fundos internacionais, que são estratégicos tanto pela expertise como pelas conexões que têm.”
A Vesper espera que nos próximos cinco a sete anos consiga dar saída para as primeiras investidas do portfólio.
“Nosso foco é engenharia genética. Ao invés de programar computador, a gente quer reprogramar as células,” disse o CEO, um empreendedor serial de Santa Catarina que se interessou pela biotecnologia após uma sobrinha de quatro anos ser diagnosticada com neuroblastoma, um tipo de câncer comum em crianças.
A menina conseguiu entrar num teste clínico de uma droga em desenvolvimento na Espanha, e hoje, aos 10 anos, está curada.
Mas o drama familiar despertou em Gabriel e seu irmão gêmeo, Rafael, o interesse pela inovação radical que pode mudar os rumos da medicina – e criar empresas de bilhões de reais.
Entre as startups mais promissoras da Vesper está a Vyro, que tem entre seus fundadores a geneticista Mayana Zatz, da USP. A empresa surgiu a partir de pesquisas com o zika vírus e seu potencial de destruir células tumorais no cérebro.
Já a Aptah Bio desenvolve terapias a partir do RNA mensageiro para combater Alzheimer e o glioblastoma multiforme, um tumor cerebral agressivo. Testes in vitro realizados no Canadá demonstraram que a droga da startup foi capaz de “rejuvenescer” neurônios humanos.
“Estamos próximos de iniciar estudos clínicos tanto na Vyro como na Aptah. São pesquisas que podem gerar drogas com potencial de serem blockbusters globais,” disse Gabriel.
A Aptah acaba de receber um selo que pode abrir portas juntos aos investidores internacionais. Em fevereiro, a startup conseguiu da FDA o certificado Orphan Drug Designation, o ODD, que atesta que o medicamento em pesquisa é uma “droga órfã” e pode ser testada diretamente em doentes, dispensando outras fases dos estudos clínicos, uma vez que não há outra alternativa para esses pacientes.
Gabriel lembra que esse certificado do FDA é tão importante que há fundos que só investem em drogas que já receberam o ODD.
No agro, a Symbiomics, que produz fertilizantes biológicos, já levou a campo para teste vários microrganismos que substituem ou reduzem drasticamente a dependência de químicos. No ano passado, a gigante americana Corteva liderou um Série A na startup.
“Tem muita coisa sendo feita na área de fertilizantes biológicos no Brasil, mas são as mesmas cepas com nomes diferentes. Tem muito de ‘me-too technology’,” disse Gabriel. “A Symbiomics criou uma série de ferramentas com inteligência artificial para desenvolver e selecionar microrganismos, conseguindo assim resultados muito superiores aos das soluções atuais.”
A Vesper já analisou mais de 4500 projetos e planeja investir parte dos recursos captados em novas empresas, ampliando seu portfólio.
A ideia é que uma ou duas novas investidas sejam integradas a cada ano ao ecossistema da venture builder. O modelo de incorporação deve seguir o mesmo: as empresas são sediadas em Delaware, com operações no Brasil.
Além de capital, a Vesper fornece infraestrutura – como um hub de 3 mil metros quadrados em Florianópolis onde as empresas podem se instalar – e gestão para que pesquisas promissoras ganhem vida além dos laboratórios.

Essa busca pela inovação radical foi o que atraiu Tiago Lafer, filho do ex-ministro Celso Lafer e gestor da holding de investimentos da família. O family office se interessou pela tese da Vesper pelos resultados que as investidas têm alcançado.
“Nossa sensação como investidor é que as empresas do agro no portfólio reduzem o risco, enquanto as de ciências médicas podem gerar múltiplos incríveis,” disse Lafer, que já investiu no Nubank e na Omie, uma startup de gestão de software.
Se der certo, a Vesper não terá criado apenas startups bilionárias — terá ajudado a colocar o Brasil no mapa global da biotecnologia.






