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Em abril de 2013, aos 76 anos, o rei Harald V da Noruega trocou o palácio por uma rede na Amazônia.
Durante quatro dias, viveu na comunidade Yanomami de Demini, em Watoriki, próximo à fronteira com a Venezuela. Comeu caça com beiju, conheceu as roças, ouviu os anciãos e conversou com Davi Kopenawa sobre a floresta e o futuro de seu povo.
Não se tratava de uma visita de Estado nem de uma oportunidade protocolar. Era a realização de um sonho que Harald cultivava desde a infância: conhecer a Amazônia e seus povos originários. Segundo a Casa Real norueguesa, ele foi o primeiro chefe de Estado estrangeiro a visitar o território Yanomami.
Na despedida, Harald ofereceu a Kopenawa um álbum pessoal com fotografias de sua vida na Noruega. Recebeu dele um bracelete tradicional, símbolo da beleza e da força de um líder. Meses depois, o encontro teria um segundo capítulo: Kopenawa foi recebido pelo rei no Palácio Real, em Oslo.
Essa passagem pouco conhecida de sua vida talvez seja das que melhor revelam quem foi Harald, que morreu hoje aos 89 anos depois de 35 no trono: um homem curioso, capaz de escutar e disposto a atravessar não só grandes distâncias geográficas, mas também os abismos simbólicos que separam um chefe de Estado daqueles que vivem longe dos centros de poder.
Harald V será lembrado por ter conduzido a monarquia norueguesa à modernidade sem romper com o sentido de continuidade que constitui sua razão de existir. Seu reinado foi marcado pela defesa da tolerância, o respeito às diferenças e uma forma de liderança que raramente precisava elevar a voz para ser ouvida.
Sua relação com o Brasil, porém, antecedeu em muitas décadas aquela viagem à Amazônia.
Em março de 1964, ainda príncipe herdeiro, Harald visitou o país. Quatro anos depois, ele e Sonja escolheram o Rio de Janeiro como destino de sua lua de mel. Havia também um vínculo familiar: sua irmã, a princesa Ragnhild, viveu no Brasil por décadas com o marido, o empresário norueguês Erling Lorentzen, fundador da Aracruz Celulose.
Quando Harald e Sonja voltaram em 2003 para uma visita de Estado, portanto, não desembarcaram em território inteiramente estrangeiro. Em um discurso no Copacabana Palace, o rei falou da relação especial do casal com o Rio e lembrou que os laços comerciais entre os dois países remontavam a 1842, quando a escuna norueguesa Nordstjernen chegou à cidade carregada de bacalhau e regressou à Europa com café.
A comitiva de 2003, com cerca de 150 integrantes, era a maior e mais diversificada delegação norueguesa daquele tipo até então. Além de Brasília, São Paulo e Rio, Harald visitou Jaguariaíva, no Paraná, onde uma empresa norueguesa havia realizado um dos maiores investimentos do país no Brasil. Em seus discursos, destacou o que as duas nações tinham em comum: grandes extensões costeiras, conhecimento marítimo, produção de energia e experiência na exploração offshore.
Não era apenas diplomacia cerimonial. A visita ajudava a desenhar uma parceria que se tornaria econômica e estrategicamente relevante. Hoje mais de 230 empresas norueguesas fazem negócios no Brasil, o mais importante mercado de investimento para as companhias do país depois da Europa e dos Estados Unidos. Energia, petróleo e gás, navegação, pesca, tecnologia e transição verde formam uma agenda bilateral que se tornou muito mais ampla do que o comércio que começou com bacalhau e café.
Mas foi na Amazônia que essa relação ganhou sua dimensão mais profunda.
Desde 2008, Brasil e Noruega construíram uma das mais importantes parcerias internacionais de preservação florestal. A Noruega tornou-se o primeiro e maior doador do Fundo Amazônia, com mais de R$ 3,8 bilhões em recursos internalizados até maio deste ano. O mecanismo, administrado pelo BNDES, vinculou parte do apoio aos resultados brasileiros na redução do desmatamento — combinando cooperação ambiental, metas mensuráveis e uma visão necessariamente de longo prazo.
Harald V não governava nem definia diretamente a política externa norueguesa. Numa monarquia constitucional, esse não era seu papel. Mas um chefe de Estado também comunica prioridades pela atenção que escolhe dedicar a determinados lugares e pessoas. Ao passar quatro dias entre os Yanomami, ele deu expressão humana aos valores que seu país buscava projetar no mundo.
Dois anos depois, em visita ao Brasil, seu filho Haakon – agora King Haakon VIII – recordou que o pai continuava falando com carinho sobre aquela experiência, e resumiu a relação entre os países com uma frase que poderia definir também a visão de Harald: “Somos parceiros de longo prazo e pretendemos continuar assim.”
Essa ideia talvez seja a parte mais contemporânea de seu legado. Num mundo empresarial e político cada vez mais condicionado pelo resultado trimestral, pela eleição seguinte e pela reação instantânea, Harald representou a força silenciosa da continuidade.
Compreendia que confiança se constrói ao longo de décadas; que instituições só preservam sua relevância quando evoluem; e que tradição não precisa significar imobilidade.
Entre Oslo, Rio e Watoriki, sua história com o Brasil atravessou o afeto, os negócios, o meio ambiente e a defesa da dignidade. A Noruega perdeu seu rei. O Brasil perdeu um amigo antigo — um homem que compreendeu cedo que as alianças mais importantes não são construídas para produzir resultados imediatos, mas para resistir ao tempo.
Carolina Parisi é a country chair da Global Dignity em Luxemburgo.











