Em 1983, o presidente francês François Mitterrand (1916-1996) lançou um concurso internacional para escolher o responsável pela construção do Grande Arche de la Défense, um dos marcos urbanísticos de sua administração.

Com liberdades ficcionais, o diretor Stéphane Demoustier recria a turbulenta execução do projeto no filme O Grande Arco de Paris, em cartaz nos cinemas. Erguido no centro financeiro da capital, o popular “Cubo” ocupa o prolongamento de um eixo que passa pelo Museu do Louvre, Praça da Concórdia, Avenida Champs-Élysées e Arco do Triunfo e foi inaugurado em 1989, no bicentenário da Revolução Francesa.  

O desconhecido arquiteto e professor dinamarquês Otto Von Spreckelsen (interpretado pelo ator Claes Bang), de 53 anos, venceu os mais de 400 concorrentes. No currículo, ele ostentava apenas a construção da própria casa e de duas igrejas locais, uma católica e outra protestante, e impressionou Mitterrand (representado por Michel Fau) pela criatividade e “pureza”.

Em dois mandatos, de 1981 a 1995, o político socialista deixou marcas arquitetônicas na cidade, como a pirâmide de vidro do Louvre, a Ópera da Bastilha e a nova Biblioteca Nacional, empreendimentos humanistas para contrastar com monumentos militares, a exemplo do Arco do Triunfo  

Mais que um apaixonado pela profissão, Otto Von Spreckelsen era um artista radical e, irredutível em seus pontos de vista, este foi o seu grande defeito. Pouco diplomático e exausto com as resistências que não soube administrar, ele abandonou o projeto em 1986 e, ressentido, morreu no ano seguinte sem ver a obra inaugurada.

São sobre estas questões que o cineasta Stéphane Demoustier se debruça em O Grande Arco de Paris. Até que ponto um artista tem pleno controle sobre a criação? O quanto precisa ceder para não ferir regras e vaidades, ainda não se tratando de um trabalho estatal? Para gerenciar centenas de pessoas e divergências políticas também é necessário talento?

Von Spreckelsen era um homem acostumado a uma rotina pacata, admirado por seus alunos e com uma experiência limitada que se envolveu em um projeto faraônico. Ele se inscreveu na concorrência de forma individual, sem o aval de um escritório e, como demonstra o longa, era ingênuo o bastante para não ter noção dos obstáculos que enfrentaria.

Só desenvolvia os desenhos manualmente, rejeitava qualquer cálculo em computador e desprezava os profissionais franceses escalados para auxiliá-lo. A personalidade do protagonista remete a uma mentalidade europeia arrogante e ultrapassada incapaz de se adaptar às propostas de um novo mundo.

O assessor direto de Mitterrand, Jean-Louis Subilon (vivido por Xavier Dolan), é o porta-voz das engrenagens e antagonista de Von Spreckelsen, a ponto de escalar um outro arquiteto e engenheiro, Paul Andreu (o ator Swann Arlaud), como gerente operacional do projeto. O governo confiou a ele a execução e o cumprimento de prazos ameaçados pela cabeça pouco prática do idealizador.   

Para dar mais coerência à trama, o diretor inseriu uma personagem fictícia, Liv Von Spreckelsen (a atriz Sidse Babett Knudsen), a mulher do arquiteto, que funciona como  racionalidade e apoio emocional em meio ao universo totalmente masculino. Decidida e empoderada, ela negocia valores, lê contratos e chama a atenção do marido, incapaz de reconhecer as concessões feitas aos seus caprichos.    

O Grande Arco de Paris pode frustrar os espectadores que esperam um contexto mais histórico e político ou até um enfoque técnico nas questões urbanísticas e encontram um protagonista excessivamente humano. Com a decisão de privilegiar o caráter psicológico e artístico de Von Spreckelsen, o longa perde boa parte do teor documental que poderia ter para se assumir como um drama existencial com tintas intimistas.

Desta forma, resulta em uma produção marcada por boas interpretações, uma eficiente reconstituição de época e a sempre encantadora paisagem da capital francesa. Desperdiça, porém, um aprofundamento informativo que faz falta no desfecho da trama.

O Grande Arco de Paris termina um tanto abrupto e pouco esclarecedor para o público que não conhece bem os fatos históricos da época e, principalmente, o caráter egocêntrico de alguns artistas.