Os US$ 2,5 bilhões arrecadados nos leilões de primavera de Nova York não poderiam ter vindo em melhor hora para as principais casas, que há anos tentam espantar a crise que assolou o mercado global de arte.
A melhora no humor dos colecionadores é especialmente importante para a Sotheby’s, que viu suas dívidas se multiplicarem desde que foi comprada pelo empresário franco-israelense Patrick Drahi em 2019 e tem abusado da engenharia financeira para se manter em funcionamento.
A casa, que chegou a reter pagamentos de obras leiloadas por mais tempo que o acordado com os vendedores, nos últimos meses passou a oferecer juros aos clientes que aceitassem adiar o recebimento, disse o Financial Times.
Nos últimos meses, a Sotheby’s também vendeu equity, emitiu bonds e contratou empréstimos para tentar proteger seu fragilizado caixa.
O mercado de arte passou por maus bocados depois da pandemia, com conflitos geopolíticos, turbulências econômicas e um estoque baixo de obras de primeira linha atrapalhando as vendas – até que um Klimt foi arrematado por US$ 236 milhões no fim do ano passado e indicou que a maré poderia estar virando.

Os leilões de primavera eram essenciais para reforçar a narrativa de recuperação do mercado, e as grandes casas não pouparam esforços.
Além de conseguirem levar a leilão grandes coleções e obras-primas de Pollock, Rothko e Brancusi, as casas apostaram forte nos mecanismos de garantia de terceiros para garantir o sucesso dos certames, disse o New York Times.
Os vendedores de obras cobiçadas, por exemplo, receberam garantias de que seus itens seriam leiloados por um preço mínimo; enquanto os compradores que ofereceram tais garantias ganharam o direito de arrematar as obras com desconto ou de ser indenizados em caso de derrota no leilão.
Assim, as casas conseguiram arrecadar US$ 2,5 bilhões, próximo da estimativa máxima de US$ 2,6 bi, e deram um passo importante para superar a crise do setor.
Mas a Sotheby’s ainda tem um dever de casa a fazer.
Quando Drahi se alavancou para assumir o negócio, em 2019, a empresa já tinha quase US$ 1 bilhão em dívida – mas faturava alto com um mercado de arte em expansão.
Nos anos que se passaram, enquanto as vendas caíram a dívida da Sotheby’s dobrou, seu score de crédito mergulhou, e a empresa começou a atrasar os pagamentos de clientes devido ao seu baixo fluxo de caixa em certas épocas do ano, disse o FT.
A coisa chegou a ponto de um vendedor demorar oito meses para receber por itens leiloados, muito acima dos 45 dias praticados pelo mercado.
Drahi, um especialista em engenharia financeira, decidiu então oficializar o atraso e passou a oferecer aos clientes da casa uma opção de “pagamento com prazo estendido” no ano passado.
Segundo o jornal britânico, diversos vendedores foram abordados nos últimos meses. A um deles, que arrecadou mais de US$ 30 milhões em leilões na casa, foi oferecido um ágio de 8% para que deixasse a empresa reter seu dinheiro por seis meses.
A Sotheby’s também recorreu ao mercado. Em abril, levantou US$ 825 milhões com um bond de cinco anos a um yield de 8,5%; em fevereiro, conseguiu um empréstimo para antecipar o recebimento das taxas de corretagem devidas à empresa.
Drahi aceitou tomar até US$ 100 milhões da KKR com as próprias taxas como garantia – e estava pensando em utilizá-los para pagar alguns de seus vendedores, disse o FT. O empréstimo tem juros de 8% e vence em 2029.
Em 2024 Drahi já havia vendido uma participação minoritária da Sotheby’s a um dos fundos soberanos de Abu Dhabi, o ADQ, por US$ 1 bilhão.
Apuros financeiros à parte, a recuperação do mercado de arte já se fez sentir, e a Sotheby’s reportou um lucro antes de impostos de US$ 53 milhões no ano passado, revertendo o prejuízo de US$ 248 milhões de 2024.
As vendas também subiram, de US$ 6 bi para US$ 7,1 bi – e precisarão continuar em trajetória ascendente para a empresa conseguir respirar.
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