O projeto de terras raras Colosso, em Poços de Caldas, está se tornando um exemplo vivo do apetite global pela nascente (e já bilionária) indústria de terras raras do Brasil – bem como dos interesses e dos riscos políticos em jogo no setor.
O empreendimento atraiu um aporte de equity da OneIM, fundada por ex-executivos do SoftBank e apoiada pelo Mubadala, e deve ser financiado por bancos de exportação do Canadá, Austrália e França, além de já ter um pré-acordo de venda da produção ao grupo belga Solvay.
Ao mesmo tempo, a Viridis, a empresa listada na Austrália que é responsável pelo projeto, mantém conversas com o BNDES, cultiva uma base de acionistas brasileiros (incluindo as gestoras Ore e Régia) e pretende investir em uma planta de processamento local.
Este tripé evidencia tanto a vontade de diversos países de construir uma indústria de terras raras no Ocidente quanto a estratégia da Viridis de obter apoio em Brasília (via BNDES) num momento em que o Congresso discute uma política de minerais críticos de claro viés nacionalista.

“A Solvay vai usar nossa produção em uma fábrica deles na França. Vamos ter equipamentos e alguns fornecedores do Canadá e da Austrália. Mas a maioria do capex vai ser com contratos e equipamentos no Brasil. E perto de 30% de nossos acionistas são brasileiros,” Rafael Moreno, o CEO da Viridis Mining, disse ao Brazil Journal.
“Estamos trazendo tecnologia para o País, essa é a diferença. Temos a maior planta de demonstração fora da China, já estamos avançando no downstream, como o Governo quer.”
O marco legal apoiado pelo Planalto, que pode ir a votação no Senado esta semana, propõe incentivos a uma cadeia local de processamento de minerais críticos, enquanto ameaça restringir a presença estrangeira com a criação de um conselho estatal que precisaria homologar todos os contratos de venda da produção futura (os chamados offtake agreements) e as fusões e aquisições de empresas no setor.
Ao defender a aprovação do projeto, em um vídeo na semana passada, o Presidente Lula disse que “tem muita gente estrangeira comprando aquilo que nós ainda nem regulamos.”
Para o CEO da Viridis, é positivo o esforço para estabelecer uma indústria local, mas restrições aos contratos de offtake e M&As poderiam afugentar investimentos e atrapalhar o Brasil na competição com outros países que também apostam nas terras raras.
Ter um offtake, inclusive, é uma condição para liberação de financiamentos aos projetos – a Viridis espera fechar seu acordo definitivo com a Solvay já em setembro e logo em seguida assinar com os bancos, disse o executivo.
“Tem que deixar a tecnologia e o capital virem e os offtakes acontecerem.”
Ele disse que no momento há poucas empresas no Ocidente capacitadas a fazer o processamento das terras raras, e portanto não faria sentido colocar qualquer restrição a exportações.
A construção de uma cadeia local apta a transformar a matéria-prima em um produto utilizável na indústria pode levar algo como seis ou sete anos, e o País não pode perder a oportunidade de participar do mercado enquanto isso não se concretiza, disse Moreno.
“Hoje, não há ninguém para quem você possa vender (terras raras) no País. Após alguns anos, uma parte disso poderá começar a ficar no Brasil, porque a tecnologia estará aqui.”
Como parte de seus planos de apoiar o desenvolvimento de uma cadeia nacional, a Viridis já opera uma planta de testes para separação de lantânio das terras raras em Poços de Caldas. Uma unidade definitiva será construída junto à sua mina, com apoio da Solvay, que deve ficar com a produção inicial.
A companhia inclusive acaba de anunciar a entrega de 5 quilos em carbonato de terras raras refinado localmente para um centro de tecnologia do SENAI em Minas Gerais.
A Viridis agora espera obter a licença de instalação para sua primeira mina e a planta de separação associada por volta de novembro. A produção é prevista para a partir de 2028.
No momento, a companhia emprega quase 100 pessoas, um time que deve crescer para entre 600 e 700 funcionários quando o projeto estiver concluído.
“E durante os dois anos de obras a expectativa é gerar dois mil empregos diretos,” disse Guilherme Lopes, o head de Capital Markets e Relações com Investidores.
Em materiais divulgados ao mercado, a Viridis disse que o investimento inicial no projeto Colosso terá um payback em cerca de 2,7 anos nas condições atuais do mercado de terras raras.
A estruturação financeira envolveu US$ 154 milhões em equity, garantindo caixa para o início das obras, e deve ser concluída com financiamentos de até US$ 314 milhões junto a bancos de apoio a exportação estrangeiros.











