EXCLUSIVO: XP quer comprar a Icatu, que prepara IPO

A XP Investimentos demonstrou interesse em comprar a Icatu Seguros e fez uma abordagem junto à família Almeida Braga, dona da seguradora carioca.

Se os dois lados chegarem a um acordo, esta será a primeira aquisição da XP depois de vender parte de seu capital para o Itaú Unibanco.

A Icatu — uma marca forte no Rio mas menos conhecida em São Paulo — é a líder entre as seguradoras independentes (não ligadas a bancos de varejo) no mercado brasileiro de vida e previdência.

Se comprar a Icatu, a XP estaria levando 5,5 milhões de clientes e fundos que administram mais de R$ 15 bilhões. Em 2016, a Icatu faturou R$ 2,3 bilhões, o mesmo que no ano anterior. O lucro foi de R$ 266 milhões, 23% a mais que o de 2015.

O interesse da XP vem num momento em que a Icatu se encontra nos estágios iniciais de estruturação de seu IPO, e não está claro se a família Almeida Braga, que sempre foi refratária a vender o negócio ou mesmo a se associar a alguém, continua mantendo conversas com a XP.

Apesar de historicamente funcionar bem sem sócios externos, a Icatu se animou a ir para a Bolsa depois do sucesso do IPO do IRB. A ideia é levantar capital para que a empresa possa subscrever mais apólices e crescer em novos negócios como resseguro e seguro de performance. Assumindo que a Icatu mereça um múltiplo entre 15 e 20 vezes lucro, a empresa teria um valor de mercado entre R$ 3,9 bilhões e R$ 5,2 bilhões.

A Icatu também está sensível à transformação do mercado: a distribuição de produtos financeiros está saindo cada vez mais dos canais tradicionais, como as agências bancárias, e migrando para supermercados financeiros como a XP ou a Guide Investimentos. A própria XP já é um dos maiores distribuidores da Icatu.

Para a XP, comandada por Guilherme Benchimol, a lógica em adquirir o negócio é unir a marca Icatu com a força de distribuição da corretora. Além disso, nos últimas semanas, a perspectiva de que o Governo acabe com a vantagem fiscal dos fundos exclusivos — veículos de private banking hoje administrados por bancos e corretoras — tem levado diversas instituições a explorar a compra de seguradoras. Hoje, os fundos exclusivos não pagam imposto semestralmente, como acontece com fundos de varejo. “Se o Governo colocar o 'come-cotas' nos fundos exclusivos, a única saída para o investidor fugir do imposto vai ser aplicar em fundos de previdência”, que continuarão a ter a vantagem fiscal, diz uma fonte. “Muitos bancos querem ter uma seguradora para ter uma solução dentro de casa.”

Na visão da XP, segundo pessoas familiarizadas com o assunto, a Icatu tem perdido mercado em seguros de vida e está cada vez mais dependente de títulos de capitalização, um mercado que encolhe. Por outro lado, a XP vê a previdência privada como um mercado promissor, e acha que os produtos VGBL e PGBL da Icatu possuem sinergias significativas com sua plataforma de distribuição.

Em 2014, a Icatu era a sexta maior seguradora do ramo de 'pessoas', com uma receita de R$ 1,08 bi, o correspondente a 3,48% do faturamento total do segmento. No ano passado, caiu para a sétima posição, com uma fatia de 2,95%, ou R$ 1,01 bilhão.

O ranking é feito pelo Sindicato dos Corretores de Seguros de SP (Sincor-SP) com base em balanços e dados da Susep, a reguladora do setor, e inclui, além dos seguros de vida, apólices para cobertura em casos de acidente ou invalidez, e o chamado 'prestamista', que cobre dívidas em caso de morte ou desemprego.

Antes atrás apenas de grandes bancos, como Bradesco, BB, Itaú e Caixa, além da Zurich, a Icatu foi ultrapassada pela Prudential, que saiu da décima para a sexta posição, com R$ 1,36 bilhão em receitas, equivalentes a 4% de share nas vendas do ano.

Já o mercado de títulos de capitalização tem encolhido nos últimos anos. Segundo dados da Susep, compilados pela Confederação Nacional dos Seguros (CNSeg), em 2016 a arrecadação com títulos de capitalização foi de R$ 21,1 bilhões, o mesmo patamar de 2013.

Segundo ranking do Valor 1000, a Icatu é a sexta maior empresa de capitalização do país, com R$ 962 milhões em arrecadação em 2016, atrás apenas dos grandes bancos.

Na contramão, o mercado de planos de Previdência está voando. Em 2016, as vendas subiram 19,5%, para R$ 114,7 bilhões, com destaque para o VGBL, que avançou 21,9%, para R$ 105 bilhões. No ranking do Sincor-SP, no ano passado, a Icatu foi a sétima maior seguradora em VGBL, com 0,59% da arrecadação do ano, contra 0,68% em 2015.