Quase dois anos depois das enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul, a reconstrução ainda está longe de terminar para a maior parte dos pequenos negócios gaúchos.
O pior: novas tragédias podem (e devem) acontecer no estado, que tem sido um dos mais atingidos por desastres climáticos – e as PMEs gaúchas não estão preparadas para novos sustos.
Ou seja, ao que tudo indica, pelo caminhar do planeta a ajuda aos empreendedores precisará acontecer de maneira mais recorrente.
É por isso que o fundo de impacto Estímulo está lançando uma nova fase do Fundo Retomada RS.
O fundo levantou R$ 30 milhões para emprestar a PMEs com juros reduzidos nos próximos seis meses – incluindo um aporte de R$ 5 milhões do Instituto Helda Gerdau, liderado por Beatriz Johannpeter.
A principal mudança é de conceito: em vez de apenas reconstruir empresas depois de uma tragédia, o fundo quer ajudá-las a se preparar antes que a próxima aconteça.
“Normalmente olhamos para a emergência: depois que acontece o problema, remediamos,” Lucas Conrado, o CEO do Estímulo, disse ao Brazil Journal. “O Rio Grande do Sul precisa de uma infraestrutura permanente para proteger pequenos negócios diante de crises climáticas.”
O risco de um Super El Niño, por exemplo, já está no radar do Estímulo – num momento em que os empreendedores ainda tentam se reerguer das enchentes de 2024.
Uma pesquisa do Fundo de Impacto Estímulo com 300 empreendedores que receberam crédito depois da tragédia mostra que 66% deles não retomaram o patamar anterior às enchentes. Para piorar, 77% dizem não estar plenamente preparados para uma nova tragédia.
Na primeira fase, o Retomada RS emprestou R$ 68 milhões a 976 empreendedores em 142 municípios, – o que ajudou a preservar mais de 12 mil empregos, segundo Conrado.
Agora, os R$ 30 milhões serão oferecidos a taxas entre 0,99% e 1,99% ao mês, sem garantias reais, com prazo de 36 meses e seis meses de carência.
Podem solicitar o crédito empresas gaúchas com pelo menos dois anos de CNPJ e faturamento mensal entre R$ 10 mil e R$ 400 mil.
Mas o dinheiro virá acompanhado de capacitação.
O Estímulo quer ajudar os empresários a identificar vulnerabilidades e criar planos de contingência: saber se estão numa área de risco, proteger equipamentos e estoques, contratar seguros, criar reservas financeiras, digitalizar processos e diversificar clientes e fornecedores.
Conrado cita o caso de uma escola de idiomas que não foi inundada, mas teve o faturamento derrubado porque seu principal cliente era o aeroporto de Porto Alegre, que passou meses fechado.
A família Gerdau está envolvida no fundo desde a primeira fase.
Depois das enchentes, Beatriz Johannpeter ajudou a criar o Regenera RS, que reuniu R$ 40 milhões da família Gerdau e de outros parceiros para atuar em educação, habitação, soluções urbanas e pequenos empreendedores.
“Com a tragédia de 2024, vimos que precisávamos pensar em alguma estrutura mais duradoura do que só aquela ajuda momentânea,” disse Beatriz.
O Instituto Helda Gerdau é financiado pela família e tem no empreendedorismo uma de suas principais frentes, especialmente como instrumento de inclusão econômica.
Beatriz diz ser uma entusiasta do blended finance – o modelo que mistura recursos filantrópicos e capital de investidores para reduzir o risco e baratear o crédito.
“Perto da emergência, há uma disponibilidade muito maior de recursos filantrópicos,” disse Beatriz. “Conforme esses negócios vão tendo mais condições, não precisa mais tanto do recurso filantrópico e o fundo pode passar a ser mais um negócio.”
O modelo é uma evolução da própria história do Estímulo, que nasceu durante a pandemia como um relief fund para evitar a quebra de pequenos negócios.
Desde 2020, o fundo já desembolsou R$ 435 milhões para mais de 6,7 mil empreendedores, e hoje tem R$ 150 milhões sob gestão.
Agora, Conrado estuda replicar o modelo de resiliência climática em outras regiões do Brasil.
“Não estamos mais falando de tragédias eventuais seguidas de uma volta à normalidade. As tragédias estão se tornando um problema sistêmico,” disse Conrado. “Precisamos estar preparados.”
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