A Polícia Federal deflagrou hoje a segunda fase da Operação Compliance Zero, que investiga a prática de crimes de organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição financeira, manipulação de mercado e lavagem de capitais.

Entre os alvos da operação de busca e apreensão estão: Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, preso na primeira fase da Compliance Zero; seu cunhado Fabiano Zettel, fundador da Moriah Asset; João Carlos Mansur, o ex-dono da Reag, alvo da Operação Quasar da PF em agosto de 2025, que investiga a relação do PCC com o setor de combustíveis e o mercado financeiro; e o empresário Nelson Tanure.

Daniel VorcaroNum relatório enviado ao TCU, o Banco Central disse que parte das fraudes atribuídas ao Master envolveria fundos administrados pela Reag.

Em maio de 2025, a Polícia Federal abriu um inquérito para investigar se Tanure é controlador oculto do Master, após pedido do Ministério Público Federal que recebeu denúncia da gestora Esh Capital, de Vladimir Timerman. Tanure sempre negou deter qualquer participação no Master e processou Timerman mais de 10 vezes. 

Segundo a denúncia, por meio do fundo Estocolmo, Tanure financiou em 2022 quatro aportes no Master, que somaram mais de R$ 700 milhões, através da compra de debêntures conversíveis emitidas pela Banvox, de Maurício Quadrado. Em 2022, o Master tinha três acionistas: Vorcaro, Augusto Ferreira Lima e a 133 Investimentos Participações, de Quadrado. 

A inclusão no inquérito do Master é a mais recente dor de cabeça para um empresário que, nos últimos anos, havia se tornado um comprador serial, envolvendo-se em múltiplos setores – da petroquímica à saúde, da infraestrutura ao varejo – e sempre usando alavancagem.

“Não havia um M&A que o Tanure não gostasse e não quisesse ser comprador,” disse um banqueiro de investimentos. Entre as empresas que lhe escaparam estão a Braskem, que os bancos credores mantiveram, e a Amil, adquirida por José Seripieri Filho.

Nelson Tanure ok

Ainda assim, Tanure hoje tem investimento em 10 companhias abertas – a maioria deles realizados a partir de 2022 e em parceria com o Master ou com fundos ou gestores ligados ao banco, como por exemplo a WNT.

As empresas são Alliança Saúde, Oncoclínicas, Light, TC, Veste, Meliuz, Ambipar e Westwing. Antes de 2022, Tanure investiu na petroleira Prio – de longe seu maior sucesso – e na Gafisa. 

O empresário tem uma carreira marcada pela compra de participações em empresas em dificuldades e por ser agressivo na negociação com credores e acionistas minoritários. 

Ele tipicamente entra no capital das companhias por meio de uma cadeia de fundos, o que dificulta a identificação do tamanho de sua participação. 

Nesse sentido, um dos exemplos mais conhecidos no mercado envolve a participação na Prio (ex-PetroRio), em 2013. No ano seguinte, a Prio começou a comprar ações da Oi, o que gerou questionamentos da CVM sobre o interesse de uma petroleira numa empresa de telecomunicações. A CVM multou o empresário em R$ 1,5 milhão por ter omitido por dois anos que exercia o controle indireto da Prio. 

Outro caso polêmico é mais recente e envolve a Ambipar. A área técnica da CVM apontou que fundos ligados a Tanure, ao Master e ao fundador da empresa, Tércio Borlenghi Jr, compraram ações da Ambipar inflando as cotações para usar os papéis como garantia na compra da EMAE por Tanure e Borlenghi.

Os técnicos da autarquia também pediram uma OPA por aumento de participação, que foi rejeitada em decisão também polêmica do colegiado do regulador.  Existe um processo em curso na CVM que investiga os três acionistas por manipulação de mercado. 

Depois que o BC determinou a liquidação do Master, em setembro, ficaram públicos os investimentos de Oncoclínicas e EMAE em CDBs do Master; a rede Dia, outra investida de Tanure, também perdeu dinheiro com CDBs do banco de Vorcaro. 

Em outubro, Tanure perdeu a participação na EMAE para a Sabesp. Ele deixou de pagar juros de debêntures utilizadas para financiar a compra da EMAE e a XP executou a garantia, ficando com as ações da EMAE, que vendeu para a Sabesp.  

A PF cumpriu 42 mandados de busca e apreensão (em São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro) expedidos pelo Ministro Dias Toffoli, do STF, além de medidas de sequestro e bloqueio de bens e valores que superam R$ 5,7 bilhões.

A PF encontrou Tanure no aeroporto do Galeão antes de pegar um voo para Curitiba. Ele teve o celular apreendido. 

O advogado de Tanure, Pablo Naves Testoni, disse que o empresário “jamais enfrentou qualquer processo criminal em razão de suposta prática delitiva no contexto das empresas em que é ou foi acionista”. 

Segundo a nota do advogado, Tanure não tem “qualquer relação de natureza societária” com o Master, “do qual foi cliente nos últimos anos, nas mesmas condições em que é igualmente atendido por outras instituições financeiras”.

Disse também que a “única medida imposta” a Tanure foi a apreensão do telefone celular. Com isso, o empresário “tem certeza de que no decorrer das apurações promovidas pelo STF restará definitivamente demonstrada a inexistência de qualquer prática ilícita”.

O cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, chegou a ser detido brevemente no aeroporto de Guarulhos, onde embarcaria para Dubai. Ele também teve o celular apreendido. 

Ontem, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que o caso Master pode ser a “maior fraude bancária” da história brasileira.