Dois gestores estão deixando a SPX Capital, jogando luz sobre a cultura interna de uma das maiores gestoras independentes do país.

Estão deixando a casa: Sebastian Lewit, que tinha o maior percentual do risco do book de juros depois do fundador Rogério Xavier, e Marcio Albuquerque, dono do segundo maior percentual do risco do book de moedas depois do fundador Bruno Pandolfi.

A saída dos dois sócios — comunicada aos clientes pela própria gestora — fez o mercado especular sobre os motivos por trás das movimentações.

Clientes e insiders da SPX dizem que a cultura da gestora é marcada pela centralização de decisões, um ambiente ‘old school’ que beira o ‘bullying’ na cobrança de resultados, e pouca fluidez societária dos executivos.

De acordo com o formulário de referência disponível no site da SPX, os quatro sócios fundadores controlam 72,8% da gestora: Xavier tem 31,8%, Bruno Pandolfi tem 17,9%, Leonardo Linhares tem 12,6%, e Daniel Schneider tem 10,4%.  Os dados são de março de 2017, mas não houve mudanças substanciais desde então.

Quando abriram a SPX — depois de anos ganhando dinheiro para a tesouraria do Banco BBM — os fundadores diziam que sua participação combinada provavelmente cairia para 51% ao longo do tempo.  A SPX foi fundada há oito anos e tem cerca de R$ 40 bilhões sob gestão.

Por um lado, “ficou muito caro se tornar sócio de uma empresa de R$ 40 bi. A empresa se tornou tão grande e tão rentável que para comprar 1% você tem que ter vários milhões de reais,” diz um ex-funcionário.  Por outro lado, “ironicamente, essa queixa de que o time não consegue crescer a participação era a mesma que eles [os fundadores da SPX] faziam ao BBM,” diz um cliente.

Em tese, o farto capital da SPX possibilitaria que todos crescessem, mas, segundo insiders, Xavier concentra mais de 50% do risco da empresa na área de juros.  Sem uma alocação de risco mais equânime, é dificil para outras áreas gerarem resultados expressivos dentro da empresa.

E, quando as coisas vão mal, ainda tem o bullying:  inúmeras fontes descrevem uma cultura em que o tratamento entre chefes e subordinados chega a ser desrespeitoso. “Se você está perdendo dinheiro, sua vida é um inferno,” diz um ex-funcionário.

As críticas à SPX mostram os desafios culturais de um negócio que tem crescido exponencialmente, surfando como poucos a onda dos brasileiros que estão trocando os bancos pela gestão independente.

“A gente concentra de fato a decisão e o risco,” Xavier disse ao Brazil Journal. “No final das contas, as pessoas dão dinheiro para nós fazermos a gestão.  Há pessoas embaixo, mas quem toma a decisão são os gestores.”

Xavier disse que a SPX não tem distribuído participação mais amplamente por dois motivos.  Primeiro, porque está preservando o equity para seus planos de crescimento internacional. A gestora já abriu um escritório em Londres, está abrindo outro em Washington D.C., e ainda planeja ter uma presença na Ásia.  O segundo motivo:  “As pessoas têm que perceber para onde a empresa foi.  Uma coisa é ter 5% de um negócio de R$ 5 bi, outra é ter 5% de R$ 40 bi.”

A SPX tem 130 pessoas.  Xavier disse que “tem sempre gente saindo e gente entrando” e que o ‘turnover’ da firma “é muito baixo.”  Mas outras fontes próximas à gestora afirmam o contrário.  Só na área de Bolsa, comandada por Linhares, nove pessoas deixaram a empresa nos últimos dois anos.

As mudanças internas acontecem num momento em que a SPX sofreu uma reviravolta em sua performance.  Até o terceiro trimestre do ano passado, os principais fundos da empresa estavam em alta de 5% a 6%.  Mas nos últimos três meses de 2018, os fundos devolveram os ganhos ao fazer uma aposta errada na direção da taxa de juros americana.  Xavier tem dito a investidores que a liquidez secou subitamente, dificultando o desmonte da posição.

Não está claro se a reviravolta teve alguma influência nas mudanças de ontem, mas é normal em toda grande gestora haver um cabo de guerra para decidir a alocação dos resultados.

Sobre o ambiente muitas vezes hostil, “não vou dizer que as pessoas não se exaltem e falem mais alto, mas não há uma rotina das pessoas se xingarem todo dia,” disse Xavier. “Quando isso acontece, não é no sentido de humilhar, é pra fazer melhor.”  Ele descreveu o ambiente na firma como “competitivo mas leal”.

A SPX disse que a substituição Sebastian e Marcio será feita internamente, e aproveitou para anunciar outros movimentos internos: Bruno Mafra, gestor de commodities, “passará a ter função executiva, enquanto a equipe de quatro pessoas permanecem na gestão desta estratégia.”

Em outra mudança, o economista-chefe, Beny Parnes, vai montar a área de crédito global da SPX. Com isso, Gabriel Hartung passa a ser o head de macro Brasil e Daleep Singh será responsável pelo macro internacional. Finalmente, na área de ações internacionais, a SPX contratou Fernando Gonçalves, que acaba de deixar a Adam Capital.

“O volume de pessoas que quer entrar lá é infinitamente maior do que os que querem sair,” diz Xavier.