Ainda era madrugada em Londres quando um homem chamado Nigel Farage apareceu na televisão e cantou vitória: o Reino Unido estava fora da União Europeia, a construção político-econômico-cultural cujas origens remontam aos anos 50 e cuja forma atual existe desde 1993, com o Tratado de Maastricht.
 
A UE resistiu à hecatombe econômica de 2008, mas não ficou incólume à insegurança sentida por seus cidadãos, e os ingleses — curiosamente, os que tinham menos do que reclamar — foram os primeiros a roer a corda.
 
Quando a Grécia implodiu perante os olhos atônitos do mundo — obrigando Alemanha e França a matar no peito — ninguém apostaria que, menos de uma década depois, seria o UK que estaria fora da Europa, e não os países periféricos cuja fraqueza, dizia-se, ameaçava o projeto coletivo.
 
Num continente devastado por uma guerra da qual ainda há sobreviventes, a União Europeia é um monumento à civilização, à capacidade de culturas diversas conversarem e se coordenarem para o bem das pessoas, do comércio, do meio ambiente.  Sem dúvida, a construção do consenso entre 28 países — cada um deles, vassalo de suas circunstâncias e seu jogo político doméstico — sempre deu dor de cabeça, e Bruxelas é acusada de ser a capital da burocracia, a cidade onde as coisas não andam.
 
Mas estas críticas encolhem quando comparadas ao que se conquistou até aqui. O euro, que entrou em circulação em 1999, simplificou a vida dos europeus e do resto do mundo, e elevou o status e o ‘punch’ da UE.  Os Estados Unidos inventaram instituições que são hoje a inveja do mundo, mas a Europa fez experimentos ainda mais ousados em poucas décadas apenas.
 
A Brexit gera incertezas ainda inquantificáveis para o comércio (tratados complexos terão que ser renegociados) e questões de segurança e de fronteiras, entre outras. Estas incertezas devem inibir o investimento e jogar a economia em recessão, como George Soros alertou esta semana.
 
O Credit Suisse comparou a Brexit ao ‘fim da globalização’.  “Ainda que esta votação não represente um choque sistêmico para o mercado da magnitude de uma Lehman ou uma saída da Grécia do euro, trata-se de um ponto de inflexão poderoso. O Reino Unido deu um passo atrás significativo em relação à globalização.”
 
A contagem dos votos nem havia terminado quando os mercados se deram conta da besteira: a libra mergulhou para $1,34, seu nível mais baixo desde 1985, e o HSBC previu que ela pode chegar a $1,20 até o final do ano. As bolsas europeias desabaram até 10% na abertura, e o primeiro-ministro renunciou.
 
Há críticas sensatas à União Europeia, uma invenção política falha como tantas outras, mas que acena com uma avenida de estabilidade política e construção de consenso.  E haverá, também, aqueles que entendem os motivos dos ingleses — falaciosos ou reais — um dos quais é a ideia de que a Europa é um fardo em suas costas.
 
Mas o grande vencedor de ontem à noite não foi nem um nem outro argumento.
 
A Brexit foi a vitória da demagogia sobre a razão, da mistificação sobre os fatos — além de promover a ideia tosca de que qualquer coletivismo é para ‘losers’ e todo separatismo é ‘cool’, enquanto a complexidade do mundo e todas as evidências afirmam o contrário.
 
Que um conceito tão adolescente e de execução tão mal explicada tenha sido vitorioso num dos países mais ricos do mundo dá a medida exata do nível de frustração que envenena a política em ambos os lados do Atlântico. (Nestes gráficos do The Guardian, fica claro que a Brexit ganhou entre os menos educados e os de menor renda.)
 
Trata-se da mesma revolta que deu ao mundo a possibilidade de um President Trump, um homem que — reflexo de seu tempo — dirá qualquer coisa, não para ser eleito, mas para aparecer no jornal das oito. Na Inglaterra, eles gritam “we want our country back”, enquanto Trump quer “make America great again.”  Gimme a break.
 
Voltando a Nigel Farage, o homem do começo.  Na eleição passada, seu Partido da Independência — o maior defensor da Brexit — teve apenas 12% dos votos.  Ontem à noite, Farage comemorou a ‘vitória das pessoas reais, das pessoas comuns, das pessoas decentes.’ Até aí, frases que todo político diz.
 
O revelador foi o que ele disse em seguida:   “Lutamos contra as multinacionais, os grandes bancos de investimento e os grandes partidos, contra a mentira, a corrupção e o engodo.”
 
E aí está, ladies and gentlemen, mais um homem de respostas fáceis que vai custar caro ao mundo: o populista em sua melhor forma, o demagogo transbordando convicção, com o vento da História lhe soprando a favor.