O livro Trump: The Art of the Deal é um relato autobiográfico da filosofia de negócios de Donald Trump, baseado em sua trajetória no mercado imobiliário de Nova York nas décadas de 1970 e 1980.
A obra retrata um negociador barulhento, decisivo e tolerante ao risco, cujo sucesso se deveu, em igual medida, a um estilo agressivo de negociação, à tomada de decisão instintiva e à autopromoção ostensiva.
Essas mesmas características são facilmente reconhecíveis em sua atuação como presidente dos Estados Unidos.
Seu modus operandi ao “negociar” desfechos políticos ou diplomáticos apoia-se fortemente em lances iniciais agressivos, alguns que se sustentam (por exemplo, o cessar-fogo entre Israel e Hamas), outros que são abandonados (como a retirada do NAFTA) e muitos que acabam sendo parcialmente revertidos, como os níveis tarifários após o “Liberation Day”, as iniciativas fiscais ligadas a investimentos em infraestrutura e à reforma de benefícios sociais, além das diversas ameaças de retenção de recursos federais.
Nesse sentido, é difícil não enxergar sob essa mesma lente a recente tentativa de estabelecer um limite máximo de 10% nas taxas de juros do cartão de crédito.
Trata-se de uma proposta audaciosa, que acende alertas legais e não parece fazer sentido econômico. Mesmo que estivesse dentro da alçada do governo, o preço está errado: os tomadores de melhor qualidade nos EUA já enfrentam hoje taxas de juros de cartão de crédito acima desse nível.
Ainda assim, com o tempo, a iniciativa pode acabar levando a concessões “voluntárias” por parte das emissoras de cartão, permitindo que a administração Trump declare vitória.
Se isso ocorrer, será consistente com um padrão bem definido. As tarifas de importação ficaram muito menores do que as anunciadas inicialmente, mas muito mais altas do que qualquer um imaginaria possível há dois anos.
As taxas de deportação em 2025 ficaram abaixo do prometido na campanha, e, ainda assim, a redução da imigração líquida já tem efeitos perceptíveis sobre o mercado de trabalho.
Esse tipo de estratégia de negociação, porém, tem limites, que ficam evidentes nos ataques recorrentes à independência do Federal Reserve.
Isso se deve à natureza específica da credibilidade de um banco central: a crença, por parte do setor privado, de que o Fed fará o que diz que fará, ou seja, perseguir uma inflação de 2% ao mesmo tempo em que busca manter o “máximo” emprego.
A credibilidade de um banco central é extremamente difícil de mensurar, e há uma vasta literatura acadêmica dedicada a analisar suas origens e consequências, mas um tema recorrente é que ela pode surgir e desaparecer de forma abrupta.
Em muitos casos, portanto, a credibilidade é um resultado binário. Nos EUA do início dos anos 1980, Paul Volcker levou a economia à recessão ao elevar a taxa de juros, provocando desemprego em larga escala – uma decisão que ancorou as expectativas de inflação de longo prazo e a credibilidade institucional por décadas.
Ganhos rápidos de credibilidade também ocorreram em diversas economias desenvolvidas nos anos 1990 — como Reino Unido, Canadá e Nova Zelândia — com a adoção de regimes de metas de inflação.
Na Europa, em 2012, o discurso do “whatever it takes” de Mario Draghi foi decisivo para ancorar as expectativas do setor privado e retirar a economia da zona do euro da beira do abismo.
Agentes de mercado em economias emergentes estão muito mais familiarizados com perdas súbitas de credibilidade, frequentemente como resultado do aumento da dominância fiscal, de pressões políticas ou de outras ameaças à independência dos bancos centrais.
Exemplos recentes de rupturas rápidas de credibilidade incluem a Argentina em 2010, 2017 e 2023; o Brasil em 2011; e a Turquia a partir de 2019.
Economias desenvolvidas também são vulneráveis a choques de credibilidade, com destaque para o Japão, onde, ao longo da última década, os mercados financeiros periodicamente perderam a confiança na capacidade do Banco do Japão de sustentar o programa de controle da curva de juros.
O episódio de dominância fiscal no Reino Unido em 2022 também merece menção honrosa.
A natureza binária da credibilidade dos bancos centrais explica bem por que as tentativas de Trump de mexer na composição do FOMC estão fadadas ao fracasso.
Diferentemente da credibilidade, a independência do banco central é um conceito graduado, com diferentes níveis que podem se fortalecer ou se enfraquecer de forma incremental.
No caso do Federal Reserve, a estrutura decisória do FOMC (um colegiado de 12 votantes), a independência de jure da instituição e a forte cultura de autonomia construída ao longo de um século provavelmente vêm sendo corroídas aos poucos pelos desafios explícitos e implícitos da administração Trump.
Mas a credibilidade, sem dúvida o fator mais relevante para a economia, é diferente. Uma perda total de credibilidade, caso ocorra, é um resultado indesejável.
Algumas pessoas na Casa Branca parecem considerar aceitável um resultado intermediário “negociado”, no qual a credibilidade seria preservada apesar de uma independência mais fraca e de uma política monetária ligeiramente mais acomodatícia em função de manobras políticas.
Mas, se a credibilidade for de fato binária, esse resultado é uma miragem: perder um pouco de credibilidade é perder toda credibilidade.
Benjamin Mandel foi economista do Fed e é co-fundador e head de research da Jubarte Capital.











