Ontem à noite, o presidente e o vice do Senado falaram à imprensa. 

O recado:  o Senado não vai votar os projetos da cessão onerosa e da venda das distribuidoras da Eletrobras antes das eleições. 

É uma perda grande para o governo, que operou mal as negociações, e uma perda maior ainda para todos nós, contribuintes exaustos de cobrir rombos de estatais e pagar caro pela energia. 

Sem os PLs, a Eletrobras vai precisar de dinheiro do Tesouro mais cedo ou mais tarde, e o leilão da cessão onerosa significa uma agenda pró-emprego. 

Mas tudo vai ficar parado porque os senadores — enfiados em alianças regionais com partidos de esquerda — estão com medo dos termos “concessão” e “privatização”.  É curioso que, em nosso quinto ano consecutivo de déficit primário, e com um ajuste fiscal de R$ 300 bilhões ainda por fazer, ainda existam políticos preocupados com a popularidade dos temas “concessão” e “privatização”. 

O Governo havia aprovado as duas medidas na Câmara, o que teoricamente era o mais difícil, só para ver os projetos atolarem no Senado. 

Os senadores falaram em ‘pauta polêmica’. 

Como achar que é impopular um projeto que permite a privatização e concessão de distribuidoras que trazem um PREJUÍZO bilionário à Eletrobrás — além de contas caras para os consumidores? Já está na gaveta para o próximo ano uma capitalização de R$ 3,5 bilhões na Eletrobras para, entre outras coisas, cobrir o prejuízo da estatal com uma de suas subsidiárias, a Amazonas Energia. 

O ultraje da sociedade em torno das bolsas da CAPES — perfeitamente justificável — envolvia um corte de ‘apenas’ R$ 580 milhões, número muito inferior a essa capitalização da Eletrobras já planejada para 2019, e que pode até ser maior.  

 
Vou grifar o que vem por aí para o benefício dos senadores ruins de vista: Sem a privatização das distribuidoras programadas para ocorrer até o final deste ano estima-se que serão necessários mais de R$ 20 bilhões para a liquidação dessas empresas.

O Senado pode se esconder debaixo da mesa e fingir que o problema não existe, mas a conta da não privatização das distribuidoras é real:  ela vai redundar (literalmente) no corte de vários programas de políticas públicas. O corte da CAPES será formiguinha diante do que pode acontecer no primeiro ano de um governo que já começará tendo que cortar entre R$ 15 a R$ 20 bilhões para respeitar o teto dos gastos e ainda aprovar a reforma da previdência.

O Senado não está atrasando apenas a agenda deste governo “fraco”, como disse o senador Cássio Cunha Lima.  Também está indo contra os interesses do próximo Presidente, que poderia sentar na cadeira com uma situação de caixa menos dramática.

Sim, porque a cessão onerosa, por exemplo, assim que resolvida, abrirá espaço para um mega leilão de 9 bilhões de barris de petróleo, o que significa mais investimento e mais emprego. 

Se o Senado aprovasse a medida agora em agosto, ainda assim o Governo e Petrobras precisariam de uns cinco meses para terminar suas negociações, o que abriria a chance de um leilão no início de 2019.

No Brasil em que estatistas viram liberais à luz da conveniência política, outras metamorfoses bizarras estão em andamento: energia mais barata, uma Eletrobras mais lucrativa, e mais investimento e emprego no pré-sal se tornaram pautas ‘impopulares’.

O Governo tem sua culpa.  O legado de terra arrasada deixado pelo Governo Dilma Rousseff nunca foi suficientemente explicado à população.  O brasileiro médio, que não acompanha os números no detalhe, não sabe o quão quebrados estamos, uma realidade que vai durar os próximos muito anos, com um alto risco de que, mais uma vez, a conta seja paga com mais impostos disfarçados de “melhoria tributária”. 

O sinal dado ontem pelo Senado foi muito ruim para o final deste governo e o início do próximo. Os senadores fingem não entender os benefícios dos projetos e se mostram confortáveis com a agenda estatizante e protecionista do Brasil velho.

Ou será que estão criando moeda de troca com o próximo ocupante do Planalto?