A Sanepar venceu uma disputa judicial de mais de 30 anos – mas não levou.

Agora, entrou na Justiça novamente.

O CEO Wilson Bley disse ao Brazil Journal que vai brigar até o fim para que a empresa embolse ao menos parte dos R$ 4 bilhões de um precatório recebido no ano passado, que a agência reguladora do Paraná decidiu reverter totalmente em descontos tarifários. 

Enquanto isso, porém, a estatal seguirá com seus investimentos e uma estratégia que passa por estudar negócios em outros Estados e até no exterior.

Bley disse que a Sanepar tem “uma saúde financeira invejável” mesmo sem o dinheiro do precatório – o que segundo ele explica por que o tema de uma eventual privatização está hoje totalmente fora do radar. 

09 09 Wilson Bley ok

“Acho que uma medida dessas precisa ser bem avaliada. E essa avaliação nos diz hoje que a empresa não precisa ser privatizada.”

Abaixo, trechos da conversa do CEO com o Brazil Journal.

PRECATÓRIO

“Esse precatório de R$ 4 bilhões foi uma expectativa pela qual nós lutamos por 32 anos. A esperança era muito pequena de receber, e conseguimos resolver. Aí, claro, tivemos uma frustração quando a agência mudou a interpretação da destinação do recurso. 

Até porque houve um entendimento, em uma nota técnica anterior, de que um pouco do recurso do precatório (25%) ficar para a empresa seria algo salutar para todos. Para o mercado, para a empresa, para o sócio majoritário.

Hoje a agência prevê 50% para modicidade tarifária e 50% para obras não reembolsáveis, que também levam à modicidade. Mas eu acho que podemos de alguma forma sensibilizá-los. Nossa luta continua, até por dever fiduciário com nossos 360 mil acionistas e o sócio majoritário que é o Estado do Paraná.

Tudo que podíamos fazer na questão administrativa nós já fizemos. Claro que estudamos aqui se há outras possibilidades, inclusive uma mediação. Mas não ficamos esperando só isso. Ingressamos, sim, com medidas judiciais.

Porém o precatório é um fator extraordinário. Ele não influencia no nosso programa de investimentos de R$ 13 bilhões, nos resultados da empresa. 

É bom falar sobre esse assunto, porque às vezes vejo gente no YouTube falando: ‘o CEO deu um prejuízo imenso.’ Que tivemos decréscimo de receita. Isso não é verdadeiro. Havia sido registrado um ingresso extraordinário desses recursos (no balanço), e agora tivemos um provisionamento pelo insucesso nos recursos administrativos.”  

PRIVATIZAÇÃO

“Está fora do radar, totalmente fora do radar. Eu tenho o compromisso do Governador (Ratinho Jr.) e meu compromisso pessoal de não fazer a privatização. Por quê? Acho que nós temos um alcance social muito forte e que precisa ser cumprido. E se trabalharmos visando apenas os resultados financeiros, talvez não consigamos isso. No futuro, quando eu não estiver aqui, talvez isso possa ser analisado pelo meu sucessor.

O Governador sempre fala em ‘metodologia e não ideologia’. E eu falo muito que ‘a cada doença, um remédio’.  Acho que o remédio aplicado na Copel (que foi privatizada) era necessário até para que houvesse novos investimentos. Existiam as questões das concessões. Na Sanepar estamos cumprindo nossos objetivos, com eficiência e com eficácia. Temos saúde financeira, temos resultados, estamos alcançando a universalização.”

Paraná Copel

LEILÕES FORA DO PARANÁ

“A meta principal é atender nossa região, o Paraná. Se não houver comprometimento disso, temos sim apetite, mas nunca de forma isolada. 

Na Copasa, conversamos com alguns parceiros. Teria uma participação que seria um pouco maior que a nossa capacidade, então refluímos dessa intenção. Mas é claro que estamos olhando. 

Em algumas opções mais próximas, com características semelhantes ao Paraná, ao sul do Brasil, para nós o olho brilha um pouco mais do que em outras regiões. 

Estamos com muitas conversas, temos um pipeline. Queremos ir com parceiros e participar com no máximo 49%.”

NEGÓCIOS NO EXTERIOR

“Nacionalizar e internacionalizar a empresa é um objetivo do nosso plano estratégico. Hoje já temos uma parceria com Honduras, estamos dando suporte técnico lá junto com GIZ (agência alemã), com o Itamaraty. 

E agora, na semana que vem vamos ao Paraguai tentar fazer uma parceria com eles, no sentido de levar conhecimento técnico e poder abrir novos horizontes. Essa internacionalização nesse primeiro momento é muito mais com a prestação de serviço, levar conhecimento.”

LEILÃO NA B3

“Vamos fazer um leilão de locação de ativos. É um pouco semelhante a uma PPP. Os parceiros privados vão fazer o capex, vão ganhar uma remuneração pelo capital investido ao longo dos 25 anos, e vão receber um fee.

Eles ficam com a responsabilidade da construção e vão fazer uma operação assistida conosco. Depois, a responsabilidade pela gestão integral do ativo é nossa. É como se fosse um leasing

Nossa expectativa é que os participantes sejam construtoras e executoras de obras públicas, consorciadas com o mercado financeiro, ou uma construtora muito capitalizada. Vai ter que ter um blend. É um capex forte (R$ 2 bilhões), e em dois anos tem que estar entregue essa obra.”