As fraudes e os desperdícios tiram R$ 12 de cada R$ 100 faturados pelas empresas de saúde suplementar no País – e parte do problema está na duplicidade de exames e de consultas.
Por exemplo, imagine um paciente que fez uma consulta particular, mas foi encaminhado ao SUS. Em seguida, precisou passar por uma operadora de saúde para cuidar de um problema específico. Em meio a essa jornada, na maioria das vezes os diferentes médicos envolvidos pedem para refazer os mesmos exames, inflando os custos do SUS e das operadoras.
O dr.consulta quer mudar este cenário – criando uma espécie de wallet para o setor de saúde.
A ideia é transformar o paciente no vetor da sua própria informação: ele carrega consigo o histórico clínico e decide com quem compartilha.
A wallet guardará o histórico de todos os exames, atendimentos, laudos, vacinas e outras informações da saúde do paciente, agregando informações com o passar do tempo. O paciente poderá apresentar os dados em qualquer outro serviço de saúde que escolher.

“A duplicidade, até triplicidade, que a gente tem de repetição de consultas e exames é um dos grandes problemas do setor de saúde,” o CEO Massanori Shibata Jr. disse ao Brazil Journal.
A ideia é bem similar ao que o Open Finance fez com o setor financeiro. O Ministério da Saúde ainda está construindo as regras do chamado Open Health para integrar informações entre clínicas, hospitais e operadoras, facilitando a portabilidade e agilizando diagnósticos. A wallet do dr. consulta tem os mesmos objetivos.
A wallet terá a tecnologia da Veri, o agente de AI do dr.consulta, integrado ao WhatsApp, que acompanha o paciente do agendamento ao pós-consulta.
Segundo o CTO Paulo Yoo, que acaba de assumir o posto, a Veri vai transformar dados em ação – lembrando o paciente de fazer um preventivo, alertando, por exemplo, que faz seis meses desde o último exame de colesterol, sugerindo uma consulta de retorno.
O projeto atraiu a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) – o órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação – que vai emprestar R$ 21 milhões para o projeto. O dr.consulta vai colocar outros R$ 9 milhões do próprio caixa.
O financiamento da FINEP terá uma carência de 18 meses – o tempo que o dr.consulta precisa para colocar o projeto de pé – e juros equivalentes a 50% do CDI.
Segundo Shibata Jr., a FINEP só financia projetos que possam fortalecer o SUS. Por isso, a wallet não será concebida apenas para os 4 milhões de pacientes do dr.consulta, e sim com a premissa de que qualquer tecnologia desenvolvida possa ser compartilhada com o governo.
A wallet é um dos projetos que marcam a nova fase do dr.consulta após o turnaround iniciado em 2023 – que coincidiu com a chegada de Shibata Jr e Paulo Yoo, executivos com passagens pela NotreDame Intermédica.
Em 2022, a healthtech levantou R$ 170 milhões em uma Série D liderada pela Kamaroopin – a gestora de Pedro Faria comprada pelo Pátria em 2023.
Foi nessa época que os investidores da companhia perceberam que o dr. consulta havia crescido rápido demais e que a casa estava bagunçada.
A pandemia forçou um ajuste brutal – a empresa fechou unidades e pivotou para telemedicina – mas não resolveu o problema estrutural.
Shibata Jr. e Yoo perceberam que o dr. consulta fazia muita coisa – e não as fazia bem. De lá para cá, a empresa saiu do negócio de telemedicina (fez uma parceria com a Conexa) e de prescrição eletrônica (passou a contratar a Mevo).
Em seguida, fez outras parcerias para oferecer tratamento oncológico (com a rede Croma, da Brad Saúde) e cirurgias com a Rede Américas.
A estratégia deu certo e a companhia conseguiu atingir o breakeven em abril de 2024. Com a casa em ordem, o dr. consulta está voltando a acelerar.
O plano é abrir até três unidades neste ano em São Paulo, onde já tem 30 clínicas, e quatro no Rio de Janeiro. “Não existe uma empresa hoje no Rio de Janeiro que faça esse tipo de tratamento completo com o que a gente faz,” disse o CEO.
Shibata Jr. disse que vê um mercado ainda pouco explorado, apesar do apogeu e queda de diversas clínicas populares no País nos últimos anos.
Para ele, esse mercado é “uma necessidade da população”, já que há mais de 100 milhões de brasileiros sem plano de saúde que, “quando sentem uma dor ou recebem um resultado de exame assustador, não esperam três semanas na fila do SUS. Eles pagam,” disse.
Segundo o CEO, isso acontece porque o dr.consulta consegue consultas com especialistas em até quatro dias – comparado a 15 dias na saúde suplementar e até 30 no SUS.
Agora, a empresa deve crescer com as próprias pernas e não está à procura de novos aportes.
“Podemos ter capital adicional? Sim,” disse Shibata Jr. “Mas não vou dizer que é algo mega necessário para nós hoje.”






