Neste episódio de The Business of Life, Nilton Bonder vai às montanhas de Minas Gerais entrevistar Renato Machado, criador do Ibiti Projeto — uma iniciativa socioambiental que combina regeneração florestal, arte, economia circular e hospitalidade premium de baixa intervenção.

Vizinho ao Parque Estadual do Ibitipoca, o projeto começou em 1982, quando Renato  —  da mineradora e construtora U&M  — comprou uma fazenda perto de Juiz de Fora com a intenção de criar uma reserva ambiental. Ao longo das décadas, novas aquisições formaram um buffer de aproximadamente 6 mil hectares  — 4 vezes maior que o próprio parque.

Com o tempo, o território evoluiu de refúgio pessoal para experimento civilizatório. O Ibiti opera sob a lógica do rewilding — regeneração com baixa intervenção humana. “Somos um projeto de dois mil anos. A gente só tira o boi, evita o fogo e deixa a floresta fazer o resto,” diz. Hoje, 96% da área está destinada à regeneração natural.

O diferencial do projeto é a utopia ecológica, em uma versão mais individualista, descentralizada  —  e otimista. “Eu sou um apaixonado pela nossa espécie,” diz. Economista de formação, Machado busca adaptar a buddhist economics aos tempos atuais  — ele cita Small Is Beautiful, de E.F. Schumacher, como o “guia” do projeto.

A dimensão artística do Ibiti é parte central da experiência. Uma das principais atrações é My Big Family, um conjunto de seis esculturas monumentais da artista americana Karen Cusolito, originalmente criado para o Burning Man. Foram 40 toneladas de ferro esculpidas ao longo de três anos. “Eu queria comprar duas; ela falou: ‘é uma família, eu não posso separar.’ Então eu falei: ‘tá, eu compro,” disse.

Nos 4% restantes do território, o projeto oferece hospedagem em três conceitos: a Village, integrada a um vilarejo de cerca de 20 moradores; a Engenho Lodge, instalada na primeira casa adquirida pelo projeto; e a Remote, voltada à imersão total na natureza. O território abriga 27 cachoeiras catalogadas e mais de 300 quilômetros de trilhas.

Apesar do diagnóstico duro sobre o futuro — “estamos flertando com a distopia” — Renato recusa o pessimismo. Seu plano inclui a inclusão gradual da comunidade local: “a ideia é fazer um fundo imobiliário, uma tokenização,” diz. No longo prazo, ele imagina a internacionalização do projeto: “O projeto vai ser doado, eventualmente, para uma fundação que vai tentar fazer daqui a Davos da regeneração do planeta,” diz.

Para Renato, o Ibiti é menos um destino turístico do que um ensaio sobre o futuro. Ele acredita que a espécie humana tem recursos para mudar de rumo — desde que aceite repensar rituais, narrativas e prioridades. “99% dos animais que já existiram se extinguiram,”diz. “Temos 1% de chance.”

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