Todo o quadro social e econômico do País – a inflação em alta, o desemprego pós-pandemia e o crescimento pífio, sem falar nos erros e aberrações do Presidente atual – parece favorecer a volta do ex-Presidente Lula ao Poder.

Se isto realmente acontecer, será a prova definitiva sobre a circularidade da Terra – ela realmente dá voltas – bem como um comentário sobre o humor pendular do eleitorado e o triunfo da História sobre as análises de curto prazo.  

Lula está longe de ser a melhor resposta para os desafios do Brasil. Mas entre o “fim horroroso” que sua volta pode representar e o “horror sem fim” que tem sido o Governo Bolsonaro, as pesquisas indicam que o País prefere o primeiro, por enquanto com ampla vantagem.

Assim, ainda que seja cedo para prever resultados, empresários e investidores começam a desenhar cenários para um terceiro Governo Lula e suas consequências para o Brasil. Este tem sido o grande debate a portas fechadas — até porque ninguém quer passar a impressão de que a eleição seja um fato consumado.

A questão central para o País é: qual Lula subiria a rampa?

Se o ex-Presidente voltar com uma agenda pessoal de acerto de contas e ideias retrógradas, o País não precisará esperar o início do próximo Governo para sofrer as consequências:  o ano que vem já será marcado pelo caos nos mercados – e ainda que boa parte da chamada ‘esquerda’ não compreenda isso, este caos tem reflexo direto nos preços do supermercado e no nível de empregos.

Mas, se Lula voltar com uma agenda construtiva, calcada no pragmatismo que marcou seu primeiro mandato, o País terá pelo menos a chance de retomar sua paz institucional e um crescimento minimamente aceitável, corrigir distorções em seu regime tributário, restaurar seu status internacional e criar um clima mais convidativo ao investimento externo.

O histórico do PT não é encorajador — para sermos educados.  O partido sempre acreditou deter o monopólio da Virtude e da Verdade, e sempre manifestou horror aos dados e às evidências técnicas antes de formar posições na economia. Afinal, para quê usar uma visão 2021 se o manual dos anos 70 ainda está novinho…?

Além de todo o histórico de corrupção do PT — que não pode e não deve ser esquecido — a equipe econômica do segundo mandato e dos Governos Dilma conseguiu produzir a maior recessão do País desde 1929, com políticas que, se já eram incompatíveis com o País de então, são absolutamente inaceitáveis no Brasil de hoje: juros subsidiados, campeões nacionais, contabilidade criativa.  A Argentina está aí para provar onde este tango termina.

Lula voltará assessorado por nomes que só têm expressão dentro do PT? Por cabeças jurássicas, ideológicas e incompetentes que semearam e colheram o caos?  Não é à toa que a rejeição ao PT nas pesquisas é muito maior que a rejeição ao candidato. 

Quanto a isto, talvez haja consolo no fato de Lula ser maior que o PT, como os criadores costumam ser maiores que as criaturas.  E, ao contrário de um político fundamentalmente ideológico, já provou que pode ser pragmático.  

Dada a polarização atual, no entanto, não bastará ao País um Lula em pele de Mandela. Se eleito, terá que ter alma de Mandela: um Presidente sem rancor, que converse com a oposição e construa um arco de governabilidade. Um Lula 5G, não um Lula analógico.

O ex-Presidente – que conhece exemplos como o Pacto de Moncloa – tem a biografia e a perspectiva histórica para compreender tudo isso. Uma economia ‘fraca’ em 2022 interessa ao petista, mas uma economia ‘caótica’ aumenta os desafios de um Presidente Lula em 2023. Qualquer pragmático sabe disso.

O fato é que até agora o ex-Presidente não deu sinais de que, se eleito, governaria no Centro. A suposta escolha de Geraldo Alckmin como companheiro de chapa é uma dica preciosa, mas longe de ser suficiente.  

Num jantar recente na casa do Senador Eunicio Oliveira, em Brasília, um convidado perguntou a Lula se ele voltaria “vingativo, com a cabeça em Curitiba.” Segundo uma pessoa presente, o petista respondeu que “se for para fazer este papel, eu não serei candidato.” 

Tomara.

Em meados de 2002, com o mercado ardendo com medo de sua eleição, Lula escreveu a Carta ao Povo Brasileiro, garantindo que honraria contratos. 

A carta começava assim: “O Brasil quer mudar. Mudar para crescer, incluir, pacificar. Mudar para conquistar o desenvolvimento econômico que hoje não temos e a justiça social que tanto almejamos.” 

Vinte anos depois, o Brasil continua querendo a mesma coisa.  Um Lula com ideias sensatas e focado no futuro teria alguma chance de entregar.  Um Lula obcecado pelo retrovisor, jamais.