Os protestos, como era de se esperar, aconteceram: houve um “Fora Bozo” aqui e um “Fora Bolsonaro” acolá, que vez ou outra interromperam a tranquilidade da apresentação de Marisa Monte no Espaço das Américas, em São Paulo – parte da turnê Portas, o nome de seu mais novo álbum, o primeiro em 12 anos.

Mas ela só foi comentar sobre política depois de interpretar Comida, a canção-manifesto de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Brito que, no fundo, é sobre cidadania. Marisa lembrou à plateia que “votar para Presidente é importante”, mas eleger bons deputados e senadores é tão ou mais crítico. 

Sua atitude de não acompanhar entusiasticamente a fúria do público mostrou-se um acerto. Num país alquebrado, doente, faminto e insatisfeito, a mera excelência musical de Marisa já é o melhor manifesto que alguém poderia fazer.

Portas – que marca o retorno de Marisa aos palcos depois da épica turnê com Os Tribalistas entre julho de 2018 e março de 2019 – é composto por 32 canções (incluindo 10 do novo álbum), apresentadas por cerca de duas horas e percorrendo os 33 anos de sua carreira discográfica. 

O palco é uma caixa cênica criada por Claudio Torres, acrescido por efeitos visuais – brilhantes, aliás – que o diretor de arte Batman Zavareze desenvolveu a partir de Fundos, série da artista plástica Lucia Koch. Igualmente belos são os figurinos de Renata Correa para o show, exibidos em discretas trocas de roupa no palco ao longo da performance da intérprete de Maria de Verdade.

Na República de Marisa, claro, há um ministério da Música, formado por profissionais que possuem o domínio de sua função. Dadi Carvalho, há mais de 25 anos no posto de baixista, é o totem, a base: é a partir dele que a banda se movimenta, seja no balanço do samba, do rock, das baladas e das canções de acento soul. 

Dadi tem como companheiro direto Pupillo, ex-baterista da Nação Zumbi e um produtor badalado (acabou de trabalhar no mais recente lançamento de Erasmo Carlos), que coloca a pulsação certa no dedilhado de Dadi – e recorda as raízes pernambucanas ao tocar um tambor de alfaia em Magamalabares

Chico Brown, filho de Carlinhos e parceiro de Marisa, atua como um coringa, dividindo-se entre a guitarra (onde o solo de Déjà Vu o credencia ao posto de guitar hero), os teclados e o baixo; Pretinho da Serrinha traz o samba no cavaquinho e na percussão. O naipe de sopros formado pelo trombonista Antonio Neves (autor de um belo solo em Preciso me Encontrar, parceria de Cartola e Candeia), por Eduardo Santanna (trompete e flugelhorn) e Lessa (flauta e saxofone) se alterna em arranjos que variam entre o soul americano, a música africana e a brasileira gafieira. 

Davi Moraes está de volta, e enriquece o repertório com sua guitarra repleta de suingue e o solo de Eu Sei, no qual reforça sua ligação com os Novos Baianos – ele é filho de Moraes Moreira e discípulo de Pepeu Gomes. 

Na posição de bandleader, Marisa sabe delegar, mas prova que está sempre no comando – uma autoridade que não vem pela força, mas sim pelo respeito aos músicos que a acompanham. Cada um deles tem seu momento de brilho solo, antecipado por uma apresentação afetuosa.

O nacionalismo permeia o repertório de Portas. Mas ele está mais para o amor à pátria de um Policarpo Quaresma, o personagem de Lima Barreto, do que para o nacionalismo raivoso dos tempos atuais. 

É um Estado com “E” maiúsculo, que celebra as raízes da cultura popular pelo samba – a já citada Preciso Me Encontrar, de Cartola e Candeia, A Lenda das Sereias, Rainha do Mar, samba de enredo da Império Serrano, de autoria de Dinoel, Vicente Matos e Arlindo Veloso, e Elegante Amanhecer, parceria de Marisa com Pretinho da Serrinha. Uma terra que valoriza a natureza (as bucólicas Vilarejo, As Línguas dos Animais e Praia Vermelha) e os tesouros nacionais (Seu Zé). 

O amor, claro, se faz presente nesse território, sejam eles bem-sucedidos (Ainda Bem, Pelo Tempo que Durar) ou uma pequena decepção (O que Me Importa, de Cury, integrada ao repertório de Tim Maia, ou Ainda Lembro). 

Marisa é dona de uma técnica apurada, mas cada vez mais equilibra esse talento com uma interpretação à flor da pele. É um país perfeito? Não, mas pelo menos no universo da música seus problemas encontram uma solução rápida. Por vezes, a presença maciça dos metais ofusca alguns momentos da guitarra de Davi e bateria de Pupillo. Mas são problemas menores diante de uma nação satisfeita, que sai cantando Bem que se Quis, a versão de Nelson Motta para o hit do italiano Pino Daniele que apresentou Marisa ao público brasileiro.

Para as próximas performances, que o “fora este ou aquele” dê lugar ao “salve, Marisa.”