Em 2017, Mario Mello estava num programa de mentoria para CEOs em Harvard quando um professor disse uma frase que mudou a vida do então CEO da PayPal na América Latina. 

The CEO must act to bring hope.

“Comecei a pensar que talvez a minha moeda tivesse mudado e a sentir uma vontade enorme de fazer algo altruísta, que realmente ajudasse a mudar o Brasil,” lembra Mello, que já passou pela Visa, Alelo, BankBoston e ABN AMRO.

No início deste ano, Mello lançou o Poder do Voto, um app para empoderar o eleitor, permitindo que ele fiscalize a atuação dos deputados e senadores.

No aplicativo, o usuário vota a favor ou contra os projetos de lei tramitando no Congresso e depois compara suas escolhas com a dos parlamentares que segue (tipicamente, aqueles em que votou). 

Ao longo do tempo, essas interações vão gerando uma espécie de índice de compatibilidade, que permite descobrir se suas convicções são parecidas com as do seu representante. 

A ferramenta funciona também como um instrumento de cobrança, já que os congressistas recebem um relatório com a opinião de sua base. 

“Precisamos participar mais, cobrar dos políticos e ficar sempre de olho. Nosso voto não termina no dia 7 de outubro,” Mello disse ao Brazil Journal.

O Poder do Voto deveria, mas ainda não viralizou. O app tem 54 mil usuários ativos (que participaram de pelo menos uma votação nos últimos 12 meses), centenas de milhares de downloads, e recebeu o apoio de 14 empresas, desde escritórios de advocacia até gigantes de tech como o Google, que liberou uma verba de US$ 10 mil por mês para anúncios no AdSense

Consultorias políticas como a Patri e a Arko e veículos de comunicação como a Folha fornecem informações sobre as votações e projetos de lei selecionados pela plataforma — que garimpa numa base de mais de 27 mil PLs cadastrados, aqueles que são mais relevantes para a população.

Em média, dois projetos de lei são incluídos por semana. 

Para financiar a iniciativa, Mello criou um endowmentque já arrecadou perto de R$ 1 milhão. Parte saiu de seu próprio bolso e parte de doações de 30 pessoas físicas. 

Antes de criar a plataforma, Mello e sua equipe foram conversar com deputados e senadores eleitos para apresentar o projeto e entender suas dores. 

“Quase todos falam que estão perdidos na gestão das redes sociais, que não conseguem saber se os seguidores são eleitores ou haters,” diz Mello. “O Poder do Voto pode ajudar eles a entender melhor o que os eleitores pensam.”

Hoje, a plataforma faz o acompanhamento apenas da esfera federal. Mello pensa em expandir para estados e municípios, mas sofre com uma barreira que ilustra bem o anacronismo chocante das repartições públicas brasileiras: apesar de serem digitalizadas, as assembléias e câmaras municipais não têm servidores que externalizam as informações — impedindo que o processo de coleta de dados seja feito com robôs. 

Em outras palavras: seria preciso um exército de pessoas para conseguir analisar todas as informações.

Agora, Mello quer incluir novas funcionalidades no app e ganhar escala, chegando a 2 milhões de usuários ativos nos próximos dois anos.

“Todo mundo fala que a tecnologia está colocando as pessoas em bolhas. Eu quero criar uma que consiga tirá-las da bolha.”