A compra do chamado Polo de Alagoas pela Origem Energia – que acaba de ser concluída – é uma transação transformacional para uma empresa que nasceu há seis anos a partir de um apartamento e um carro de sua fundadora. 

O Polo de Alagoas, que pertencia à Petrobras, transforma a Origem no segundo maior produtor privado de gás natural em terra do País – atrás apenas da Eneva, que produz cerca de 6-8 milhões de m³ de gás por dia em seu campo de Parnaíba. 

Hoje controlada pela Prisma Capital, a Origem está pagando US$ 300 milhões pelo Polo e deve investir outros US$ 300 milhões nos próximos anos. O capex inclui a construção de uma termelétrica a gás e de soluções de armazenamento de gás usando reservatórios vazios. 

O Polo de Alagoas é composto por sete campos de produção de petróleo e gás: seis terrestres e um em águas rasas. O complexo todo tem mais de 600 poços e uma unidade de processamento de gás. 

A estimativa da Origem é que no primeiro ano de operação o Polo produza 1 milhão de metros cúbicos de gás natural e 2.000 barris de petróleo por dia. O montante representa um aumento substancial em relação ao que a Petrobras produz no campo: 450.000 m³ de gás/dia e 1.600 barris de petróleo.

Com essa produção, a Origem projeta uma receita de US$ 100 milhões para o primeiro ano, com boa parte disso vindo da venda do gás (70%). A companhia já fechou contratos para a venda de seu gás pelos próximos 3 a 5 anos, com um preço piso e teto que a protege da volatilidade da commodity.

Na venda do petróleo, a margem de segurança também é grande: os US$ 30 milhões de receita projetada são baseados no preço do Brent à época do leilão, quando o barril negociava a US$ 70. 

Luiz Felipe Coutinho, o CEO da Origem Energia, disse ao Brazil Journal que o grande atrativo que a empresa enxergou no Polo de Alagoas é sua infraestrutura integrada – uma rede de dutos com acesso direto a terminais de exportação e à malha da TAG.  

Essa infraestrutura vai permitir à Origem oferecer um gás natural com competitividade inédita na indústria, segundo ele. 

“Teremos preços super competitivos, alta flexibilidade para os momentos de maior ou menor demanda e baixa penalidade nos contratos de ‘take or pay’,” disse o CEO. 

Tipicamente, quando uma produtora de gás fecha um contrato com uma indústria, a indústria assume o compromisso de comprar determinada quantidade de gás por determinado período. O problema é que esses contratos obrigam a empresa a comprar pelo menos 90% do que ela se comprometeu, independente da demanda.  Como a penalidade pelo descumprimento é alta, “isso tira a competitividade do gás natural,” disse Luiz.

A Origem está propondo contratos de ‘take or pay’ mais flexíveis e que dividam o risco do negócio, na média, obrigando o cliente a comprar de 50% a 60% do combinado. 

Segundo Luiz, a Origem consegue esta flexibilidade por dois fatores. 

O primeiro é a infraestrutura integrada do Polo de Alagoas: caso um cliente reduza a compra, a empresa consegue destinar o gás para outros canais, como a termelétrica, e para a chamada venda de ‘small scale’, que envolve levar o gás liquefeito para municípios que não têm acesso ao gás natural. Outra opção ainda é armazenar o gás nos reservatórios que a empresa vai construir.

O segundo fator que dá flexibilidade à Origem é o fato do gás do Polo de Alagoas não ocorrer associado ao petróleo, diferentemente do que ocorre na maioria dos campos. 

Quando o mesmo poço produz petróleo e gás, para diminuir a produção de um é preciso parar a produção do outro, o que piora o economics do negócio.

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Fundada em 2016, a Origem é um caso raiz de empreendedorismo num setor que dificilmente abre espaço para novos entrantes.

A empresa surgiu da cabeça de Luna Viana, uma engenheira de petróleo pela UFRJ.  Para que a Origem pudesse cumprir os requisitos mínimos da ANP e participar de seu primeiro leilão, Luna só viu um jeito: colocar o patrimônio pessoal de seu pai (um Honda Civic 2014 e uma casa na Ilha do Governador, no Rio) para robustecer o balanço da empresa.

Na época, a Origem ganhou o leilão do campo de Garça Branca por R$ 30 mil, mas não tinha o dinheiro para cumprir o investimento mínimo de R$ 1 milhão previsto no contrato. 

Luna saiu à procura de investidores e, numa feira do setor, esbarrou com o pai de Luiz, que apresentou a empreendedora a seu filho e os ajudou a levantar o dinheiro necessário. 

Desde então, a Origem comprou outros oito campos – sete da União e um (o Tucano Sul) da Petrobras. Todos ainda estão em fase pré-operacional e, com exceção do Tucano Sul, são quase insignificantes em comparação ao tamanho do ativo comprado hoje.  

No ano passado, a Prisma Capital viabilizou o capital para o leilão e se tornou controladora da empresa. A Origem ainda tem dinheiro em caixa e pretende participar de mais leilões de campos da Petrobras.