Todo início de ano, a Eurasia Group — uma das maiores consultorias políticas do mundo — lista os 10 maiores riscos geopolíticos para o ano que está começando.

Em 2021, o maior risco, naturalmente, era uma covid mais longa — uma previsão que acabou se provando certeira. Neste ano, a Eurasia ainda está preocupada com a covid, mas diz que, pelo menos nos países desenvolvidos, ela “está próxima do fim.”

Abaixo, os 10 maiores riscos para 2022, segundo Ian Bremmer, o fundador da Eurasia, e Cliff Kupchan, o chairman da companhia.

FIM DA COVID? DEPENDE DO CEP

A Eurasia diz que o fim da covid vai depender de onde você mora. Para os países ricos, o fim da pandemia vai chegar em breve na medida em que o vírus vai colidir com populações altamente vacinadas e tratamentos que previnem mortes. 

“Mas a maioria dos países, e particularmente a China, vai ter dificuldade para chegar lá,” escreveram os analistas. “A política de ‘zero covid’ da China, que pareceu incrivelmente bem sucedida em 2020, está enfrentando agora uma variante muito mais transmissível com vacinas que são marginalmente eficazes.”

Para a Eurasia, a política da China vai falhar e levar a surtos maiores da doença, lockdowns mais severos e disrupções grandes numa economia que tem sido por anos o principal motor de crescimento do mundo. 

O MUNDO ‘TECHNOPOLAR’

O conflito entre os governos e as Big Techs sobre quem vai definir as regras do mundo digital deve se intensificar neste ano — com impactos gigantescos para toda a sociedade.

Segundo a Eurasia, os governos devem aumentar os esforços para regular as empresas de tecnologia, mas elas vão continuar dando as cartas no mundo digital. 

O problema disso é que essas empresas ainda não sabem como ‘governar’ as ferramentas que estão criando e os mercados que estão criando, o que deve gerar custos para a sociedade e os negócios. A Eurasia acha, por exemplo, que a desinformação tende a piorar em 2022 às vésperas das ‘midterm elections’ nos EUA, minando ainda mais a crença dos americanos no processo democrático.  

Ela acredita ainda que a falta de coordenação entre companhias de tech e governos em torno da gestão da privacidade de dados, do uso ético e seguro da inteligência artificial e da cibersegurança vai contribuir para aumentar as tensões entre EUA e China.

POLARIZAÇÃO NOS EUA

As ‘midterm elections’ nos EUA devem piorar — ainda mais — a polarização do país.

A Eurasia acha que os Republicanos devem retomar o controle da Câmara dos Deputados (e talvez do Senado), o que terá diversas implicações.  

“Se isso acontecer, os Democratas verão o controle dos Republicanos como o resultado ilegítimo de uma campanha de supressão de votos, enquanto os Republicanos verão a vitória como mais uma prova da fraude da eleição presidencial,” escrevem Bremmer e Kupchan. “A confiança do público nas instituições americanas vai sofrer um golpe ainda maior.”

O FATOR “XI”

As políticas do Presidente Xi Jinping, incluindo a de “zero covid,” vão aumentar o risco de estagnação num momento em que a economia chinesa já está sofrendo. 

A Eurasia diz que Beijing vai enfrentar inúmeros desafios neste ano: os pushbacks do Ocidente, a exaustão de seu modelo de crescimento, a alavancagem em excesso da economia e o rápido envelhecimento de sua população. 

Esse cenário será piorado pelas políticas de Xi. “A ênfase de Xi em objetivos políticos na alocação de recursos vai minar o crescimento da produtividade e a desalavancagem quando elas são mais necessárias — já que o modelo atual de crescimento do país está ficando sem gás.”

A RÚSSIA BELIGERANTE

Para a Eurasia, as relações entre os EUA e a Rússia estão “no fio da navalha”.

“O que começou com um aumento das tropas perto da Ucrânia no ano passado se transformou em uma demanda russa mais ampla pela reestruturação da arquitetura de segurança europeia,” diz a consultoria. 

Isso, combinado com as preocupações constantes sobre interferência eleitoral e operações cibernéticas dos russos, pode significar que a Rússia está prestes a precipitar uma crise internacional.

UM IRÃ NUCLEAR

O programa nuclear do Irã está avançando rapidamente — fazendo com que o Irã e os EUA entrem em 2022 à beira de uma crise. 

Os EUA têm buscado uma estratégia alternativa para restringir o Irã e aplacar os crescentes apelos israelenses por uma ação agressiva — mas o Governo Biden tem opções limitadas.

A Eurasia acha que Israel cada vez mais vai agir por conta própria — eventualmente atacando as instalações nucleares iranianas. Todas essas pressões vão deixar os estados da região nervosos, aumentando o risco de um conflito.

ENERGIA VERDE OU BARATA?

A Eurasia acredita que as metas de descarbonização de longo prazo vão acabar colidindo com as necessidades de energia de curto prazo — potencialmente atrapalhando o processo de transição energética. 

“A pressão sobre os custos de energia [que vimos em 2021] vai se intensificar em 2022, obrigando os governos a fazer uma escolha desagradável: apaziguar os eleitores ansiosos com políticas que atrasam as metas climáticas, ou resistir em um ambiente de mercado de energia hostil e imprevisível.”

QUEM POLICIA O MUNDO?

A Casa Branca não está mais interessada em desempenhar o papel de ‘polícia global’, a China não quer assumir o posto, e a União Européia, o Reino Unido e o Japão são incapazes de preencher esse vácuo de poder.

O resultado disso: muitos países pobres vão sofrer as consequências, ficando imersos em crises gigantescas não administradas. 

O exemplo mais óbvio é o Afeganistão, que desde o colapso de seu governo no ano passado está nas mãos de um Talebã extremista, desorganizado e inexperiente.

Mas há outros. O risco de terrorismo continua alto no Sahel; as guerras civis tendem a aumentar no Iêmen, Mianmar e Etiópia; e a Venezuela e o Haiti correm o risco de que suas crises de refugiados piorem.

O DILEMA DAS CORPORAÇÕES

Segundo a Eurasia, os consumidores e funcionários — empoderados pela “cultura do cancelamento” e pelas redes sociais — vão pressionar cada vez mais as corporações multinacionais e os governos que as regulam. 

Isso fará com que as multinacionais “tenham que gastar muito mais tempo e dinheiro navegando os campos minados do meio ambiente, da cultura, do social e da política.” 

A situação será ainda mais complicada para empresas que operam no Ocidente e na China.

“Se elas se posicionarem contra o trabalho forçado na China, elas vão enfrentar a fúria dos reguladores e consumidores chineses. Mas se elas não se posicionarem, vão enfrentar a reação negativa dos reguladores e consumidores dos EUA, Canadá, Reino Unido e da União Europeia.”

TENSÃO NA TURQUIA

O desemprego e a inflação estão extremamente altos na Turquia, e a lira turca está cada vez mais desvalorizada e volátil. 

Ainda assim, o presidente Recep Tayyip Erdogan tem rejeitado políticas econômicas ortodoxas, levando a situação a piorar este ano.

Há ainda o fator eleição: com a corrida presidencial da Turquia marcada para 2023, Erdogan vai tentar de todas as formas aumentar sua popularidade junto aos eleitores, o que provavelmente fará a economia afundar ainda mais.