Num mundo assombrado pelos demônios do negacionismo e pelas mistificações, os consensos científicos e os séculos de Iluminismo parecem não ser suficientes para dobrar os céticos prontos a embarcar em teorias conspiratórias ou acreditar piamente em notícias fajutas.
 
Para Steven Pinker – um dos principais cientistas cognitivos do mundo, ex-professor do MIT e hoje em Harvard – todos nascemos com intuições primitivas que um dia foram úteis nas sociedades tradicionais de outrora, mas hoje ficam anacrônicas num mundo cientificamente mais sofisticado. Ainda assim, demonizar as crenças dos grupos rivais pode render benefícios a algumas pessoas, mas causa prejuízo para a sociedade como um todo.
 
Pinker, que ganhou fama internacional com o best-seller “Como a mente funciona” (1998), volta à carga na defesa da evolução científica e do pensamento lógico em seu novo livro, “Racionalidade: O que é, por que parece estar em falta, por que é importante”, que acaba de ser editado pela Intrínseca no Brasil
 
No trecho abaixo, extraído do primeiro capítulo do livro, Pinker analisa a experiência do povo Sã, que vive no deserto do Kalahari, na região sul da África, um dos povos mais antigos e cuja sobrevivência ao longo dos séculos se deve a uma “mentalidade científica.” 
 
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Homo sapiens significa hominídeo sábio, e sob muitos aspectos nós fizemos por merecer o epíteto específico de nossa classificação binomial segundo Lineu. Nossa espécie datou a origem do Universo, sondou a natureza da matéria e da energia, decodificou os segredos da vida, desfez o emaranhado de circuitos da consciência e registrou nossa história e diversidade.

Aplicamos esse conhecimento ao aprimoramento de nosso bem-estar, neutralizando os flagelos que assolaram nossos ancestrais em grande parte de nossa existência. Adiamos nosso estimado encontro com a morte — dos 30 anos de idade para mais de 70 (oitenta em países desenvolvidos). Baixamos a pobreza extrema de 90% da humanidade para menos de 9%. Dividimos por vinte a incidência de mortes por guerras e por cem as mortes pela fome. 

Mesmo quando a antiga maldição da peste voltou a se erguer no século XXI, nós identificamos a causa em questão de dias, sequenciamos seu genoma em semanas e administramos vacinas no prazo de um ano, mantendo a mortalidade por essa causa uma fração em comparação com as de pandemias do passado.

Os recursos cognitivos para entender o mundo e moldá-lo para nosso proveito não são uma conquista da civilização ocidental — são patrimônio de nossa espécie. 

O povo Sã, do deserto do Kalahari, na região sul da África, pertence aos povos mais antigos do mundo, e seu estilo de vida, mantido até recentemente, proporciona um vislumbre de como os humanos passaram a maior parte de sua existência. Os caçadores-coletores não saem simplesmente arremessando lanças contra animais que vão passando, nem se servem de frutos e castanhas cultivados ao redor.

O cientista especialista em técnicas de rastreamento Louis Liebenberg, que trabalha há décadas com o povo Sã, descreveu como eles devem sua sobrevivência a uma mentalidade científica. 

A partir de dados fragmentados, eles encadeiam o pensamento até chegar a conclusões remotas com uma compreensão intuitiva da lógica, do pensamento crítico, do raciocínio estatístico, da correlação e causalidade, assim como da teoria dos jogos.

O povo Sã se dedica à caça de persistência, o que põe em uso nossas três características mais proeminentes: termos duas pernas, que nos permite correr com eficiência; sermos desprovidos de pelos, que permite que nos livremos do calor em climas quentes; e termos a cabeça grande, que nos capacita a sermos racionais.

O povo Sã aciona essa racionalidade para rastrear pegadas, emanações e dejetos de animais, e outras pistas, perseguindo-os até que desabem de exaustão e insolação. 

Às vezes o caçador Sã rastreia um animal a partir de seus trajetos, ou, quando a pista se perde, amplia sua busca em círculos crescentes ao redor das últimas pegadas. Mas geralmente os rastreiam raciocinando.

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Conseguem determinar o sexo dos animais a partir da configuração dos rastros e da localização da urina em relação às patas traseiras e aos excrementos. Usam essas categorias para fazer deduções silogísticas: os steenboks e os duikers podem ser abatidos na estação chuvosa porque a areia molhada força a abertura de seus cascos e enrijece suas articulações; já na estação seca é mais fácil abater os cudos e os elandes, porque se cansam com facilidade na areia solta. Estamos na estação seca, e o animal que deixou esse rastro é um cudo; logo, pode ser perseguido e caçado.

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Em desafio à balela de que povos pré-modernos não possuem o conceito de tempo, eles estimam a idade de um animal a partir do tamanho e da nitidez das marcas dos cascos, e podem datar a pista pelo frescor dos rastros, pela umidade da saliva ou dos excrementos, o ângulo do sol com relação a um local de descanso sombreado, além do palimpsesto de rastros sobrepostos provenientes de outros animais. A caça de persistência não poderia ter sucesso sem essas sutilezas lógicas. Um caçador não tem como rastrear qualquer órix entre os muitos que deixaram rastros, mas, sim, aquele que estiver perseguindo até a exaustão.

O povo Sã também recorre ao pensamento crítico. Eles sabem desconfiar das primeiras impressões e reconhecem os perigos de ver o que querem ver. Também não aceitam argumentos de posições de autoridade: qualquer um, mesmo um jovem novato, pode derrubar uma conjectura ou apresentar a própria até que surja um consenso a partir do debate. 

Embora sejam principalmente os homens os que caçam, as mulheres são tão competentes quanto eles na interpretação de pistas; e Liebenberg relata que uma jovem, Nasi, “fazia os homens passarem vergonha”.

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Outra faculdade importantíssima exercida pelo povo Sã consiste em distinguir causalidade de correlação.

Liebenberg recorda: “Um rastreador, Borohxao, me disse que, quando a [cotovia] canta, ela seca o solo, tornando as raízes boas para serem consumidas. Mais tarde, Nate e Uase me disseram que Borohxao estava enganado — não é o pássaro quem seca o solo; é o sol que seca o solo. O pássaro está somente lhes dizendo que o solo se ressecará nos meses seguintes e que essa é a época do ano em que as raízes são boas para serem consumidas.”

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No entanto, apesar de toda a eficácia mortal da tecnologia do povo Sã, eles sobrevivem num deserto implacável há mais de cem mil anos sem exterminar os animais dos quais dependem. Eles se antecipam a uma seca pensando no que aconteceria se matassem a última planta ou o último animal de uma espécie e poupam as espécies ameaçadas.

Adaptam seus planos de conservação às diferentes vulnerabilidades das plantas — que não podem migrar, mas se recuperam rápido quando volta a chover — e dos animais — que podem sobreviver a uma seca, mas cujos números somente se restabelecem aos poucos.

E praticam esses esforços conservacionistas fazendo frente à constante tentação da caça predatória (alguns poderiam achar que se eles não o fizerem, todos os outros o farão), com uma extensão das normas de reciprocidade e bem-estar coletivo que governam todos os seus recursos.

É inconcebível para um caçador Sã não compartilhar carne com um companheiro de mãos vazias, ou rejeitar um bando vizinho forçado a sair do próprio território assolado pela seca, porque eles sabem que as pessoas não esquecem, e um dia a sorte pode estar com o outro lado.

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A sapiência do povo Sã acentua o paradoxo da racionalidade humana. Apesar de nossa antiga capacidade de raciocinar, atualmente somos atacados por todos os lados por lembretes das falácias e tolices de nossos próximos. 

Pessoas jogam e apostam na loteria, na qual a perda é garantida, e deixam de investir na própria aposentadoria, na qual é garantido que sairão ganhando. Três quartos dos norte-americanos acreditam pelo menos num fenômeno que desafia as leis da ciência, o que inclui a cura paranormal (55%), a percepção extrassensorial (41%), casas mal-assombradas (37%) e fantasmas (32%) — o que também indica que algumas pessoas acreditam em casas assombradas por fantasmas sem acreditar em fantasmas. 

Nas mídias sociais, fake news (como “Joe Biden Chama os Simpatizantes de Trump de ‘escória da sociedade’” e “Homem da Flórida Preso por Sedar e Estuprar Jacarés nos Everglades”) são mais difundidas e com maior rapidez do que a verdade; e é provável que seres humanos as espalhem mais do que robôs.

Tornou-se corriqueiro concluir que os seres humanos são simplesmente irracionais — mais Homer Simpson do que Mr. Spock; mais Alfred E. Neuman, o rosto da capa da revista Mad, do que John von Neumann, um dos matemáticos importantes do século XX. 

E, prosseguem os cínicos, que mais se poderia esperar dos descendentes de caçadores-coletores cuja mente foi selecionada para evitar virar almoço de leopardos?

Contudo, os psicólogos evolutivos, conscientes da engenhosidade dos povos coletores, insistem em que os humanos evoluíram para ocupar o “nicho cognitivo”: a capacidade de superar a natureza com a linguagem, a sociabilidade e o know-how. Se os humanos contemporâneos parecem irracionais, não culpem os caçadores-coletores.

Então, como podemos entender essa coisa chamada racionalidade, que poderíamos considerar nosso direito inato, mas que é desprezada de modo tão flagrante e com tanta frequência?

O ponto de partida consiste em entender que a racionalidade não é um poder que um agente tem ou não tem, como a visão de raio-X do Superman. Ela é um jogo de ferramentas cognitivas que podem atingir objetivos específicos em mundos específicos. Para entender o que a racionalidade é, por que ela parece estar em falta, e por que isso é importante, precisamos começar com as verdades básicas da racionalidade em si: as formas pelas quais um agente inteligente deveria raciocinar, considerando-se seus objetivos e o mundo em que vive. 

Esses modelos “normativos” provêm da lógica, da filosofia, da matemática e da inteligência artificial; e eles correspondem ao nosso melhor entendimento da solução “correta” para um problema e de como chegar a ela. Eles servem como uma aspiração para aqueles que querem ser racionais, o que deveria significar todos nós. Um grande objetivo deste livro é o de explicar as ferramentas normativas da razão de aplicabilidade mais ampla.