O empresário João Adibe reuniu quase 1 milhão de seguidores no Instagram ostentando seu estilo de vida e viagens de jatinho — em postagens que invariavelmente terminam com a hashtag FlyNow.

Agora, Adibe está se preparando para “fly” bem mais alto: para a Estação Espacial Internacional, 400 quilômetros acima da superfície terrestre. 

A Cimed — a farmacêutica que seu pai fundou e que Adibe levou ao patamar de hoje como CEO — vai investir R$ 300 milhões nos próximos cinco anos em ‘experimentos espaciais’, um movimento que busca reposicionar a companhia brasileira como uma biotech capaz de competir com gigantes globais. 

Noves fora o marketing, é a primeira vez que uma farmacêutica brasileira investe em experimentos em laboratórios espaciais — uma prática comum entre multinacionais americanas como a Pfizer e a Merck. 

“A Cimed está saindo de uma pegada só de saúde e entrando mais forte nesse lado da ciência,” Adibe disse ao Brazil Journal. “Queremos que o mercado passe a entender a Cimed como uma empresa de biotech, usando o espaço para mostrar que temos tecnologia no nosso negócio.”

Feitos em microgravidade, os experimentos no espaço permitem acelerar muito o P&D, “o que vai garantir que a gente lance mais produtos, e produtos cada vez mais inovadores.”

Isso acontece porque “no espaço as coisas acontecem 10x mais rápido,” diz o CEO. “Além disso, você tem um ambiente de radioatividade muito maior no espaço, o que também é um fator externo muito bom para o desenvolvimento de fármacos.”

O primeiro experimento que a Cimed vai financiar é um estudo envolvendo a proteína Nucleocapsídeo (N) do coronavírus, que basicamente é responsável por conectar o vírus com as células do corpo humano. 

O experimento está sendo conduzido pelo Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), uma instituição do governo brasileiro, mas a Cimed está bancando tudo.  

O lançamento do foguete, que enviará amostras dessa proteína para a Estação Espacial Internacional (ISS), está previsto para o dia 21. Lá em cima, um astronauta vai executar o experimento com o objetivo de solidificar a proteína, transformando-a em cristais.

Isso é importante porque os cientistas ainda não conseguiram solidificar essa proteína na Terra, o que impossibilita o entendimento de sua estrutura.

A tese é que no espaço será possível fazer isso, “já que você tem um ambiente mais controlado e de microgravidade, o que elimina vários elementos que poluem a leitura de dados,” diz Lucas Fonseca, um engenheiro espacial que fundou a Airvantis, a empresa que fez a ponte entre a Cimed e a ISS. 

(Trivia: a ISS foi criada em 2011 como uma estação multinacional bancada por diversos países. Há alguns anos, ela se abriu para atividades privadas, permitindo que as empresas paguem um valor para ter acesso à estação e fazer experimentos. No caso da Cimed, ela fará os estudos no módulo japonês da ISS, que fica dentro da parte americana da estação). 

Se tiver sucesso na cristalização dessa proteína no espaço, o material será enviado de volta à Terra e analisado usando uma técnica chamada cristalografia. Na prática, essa análise é capaz de revelar a posição de cada um dos átomos que compõem a proteína para investigar a ação que ela tem no organismo e sua interação com princípios ativos candidatos a fármacos.

Em outras palavras, se o experimento for bem sucedido, ele pode ajudar no desenvolvimento de um remédio contra a covid. 

O segundo experimento da Cimed — previsto para meados do ano que vem e também viabilizado pela Airvantis — será feito com leveduras e usado para o desenvolvimento de vitaminas. A farmacêutica quer testar como funciona a absorção e o funcionamento de leveduras no ambiente espacial de microgravidade e maior radiação. 

A ideia é entender se com esses novos elementos (a microgravidade e a radiação) é possível tirar informações novas sobre as vitaminas. Outra ideia é trabalhar o conceito de longevidade: as vitaminas ajudam a combater radicais livres, diminuindo o processo de oxidação, que leva ao câncer. 

“Entendendo melhor as vitaminas e como elas interagem no corpo, você pode eventualmente retardar o risco das pessoas pegarem câncer,” diz Lucas.

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Os experimentos laboratoriais no espaço já acontecem desde os anos 80, mesmo antes da construção da ISS. (Antes, eles eram feitos em ônibus espaciais). 

Os estudos já renderam frutos importantes: foi um experimento no espaço que permitiu o desenvolvimento do Tamiflu, o medicamento usado no tratamento do H1N1. Os estudos também já ajudaram no desenvolvimento do Prolia — um dos principais medicamentos para osteoporose — e para um remédio usado no tratamento de câncer (o Keytruda).

No ambiente espacial, é possível replicar em laboratório a forma como a metástase do câncer acontece no corpo humano, obtendo insights importantes sobre o desenvolvimento da doença.

“Em Terra você não consegue fazer isso porque o achatamento da gravidade não permite que a metástase cresça no laboratório da mesma forma que acontece no corpo… no laboratório a gravidade faz ela crescer mais planificada,” diz Lucas.

Para a Cimed – além do marketing voluntário resultante dos experimentos – o investimento espacial faz parte de uma visão de ir além de seu negócio tradicional. Segundo Adibe, a empresa vai continuar desenvolvendo medicamentos genéricos, vitaminas e produtos de higiene e beleza, mas vai cada vez mais investir em ciência de ponta. 

Mas como competir nessa frente com laboratórios e empresas de biotecnologia gigantes e bem capitalizadas?

“O que provoca a gente são as coisas que são difíceis mesmo,” diz Adibe. “Quanto mais difícil, mais ficamos provocados para mostrar nossa competência.”

Talvez tenha chegado a hora de trocar a hashtag. 

#sciencenow