PORTO ALEGRE – O GLP-1 foi apontado como o Santo Graal das farmácias brasileiras.

Afinal, a popularização das canetas emagrecedoras aumentou assustadoramente o ticket médio das farmácias, levou fluxo para as lojas e abriu uma avenida de consumo em outras categorias – de suplementos a produtos de beleza.

Resultado: as ações das farmacêuticas dispararam. A Panvel, por exemplo, viu seu papel saltar 80% entre novembro de 2025 e março deste ano – e tudo indicava que continuariam a subir, especialmente com a entrada dos genéricos. 

Mas de lá pra cá, as farmácias passaram a apanhar na Bolsa. Desde o high do ano, a ação da Panvel cai quase 31%. 

O GLP-1 não deixou de crescer, mas as perguntas dos investidores mudaram: quanto dessa demanda vai ficar de fato nas redes, com que margem, e quanto continuará nas mãos do mercado informal?

É neste momento de ressaca – vitaminado por problemas macroeconômicos – que a Panvel está tentando convencer investidores de que é mais do que uma tese de canetas.

A companhia gaúcha – que tem 661 lojas, a imensa maioria delas no Sul – quer vender ao mercado uma história mais ampla: a de uma rede regional bem executada, com baixa alavancagem, marca forte, app relevante, marca própria e bastante espaço para crescer na Região Sul.

Mas o CEO Julio Mottin Neto entende que é impossível descolar a imagem das farmácias das canetas: hoje, praticamente 13% das vendas da Panvel vêm diretamente dos GLP-1.

“Nunca vi um fenômeno como esse, tamanha é a transformação que o GLP-1 está fazendo não só na vida e na saúde das pessoas, mas principalmente no negócio de farmácia,” Julio disse ao Brazil Journal

(Confira os principais trechos da entrevista no vídeo acima)

Os números comprovam isso. Um relatório recente do BTG mostra que o GLP-1 virou uma categoria estrutural de cuidado crônico: o mercado global deve passar de US$ 73 bilhões neste ano e chegar a US$ 250 bilhões em 2034. 

O banco não traz uma estimativa para o Brasil, mas os analistas dizem que a América Latina ainda é um mercado subpenetrado e com obesidade elevada. 

Agora o mercado está de olho na margem para as varejistas. Com a chegada do Ozivy, o similar do GLP-1 da EMS, investidores esperavam uma queda brutal dos preços e um aumento substancial das margens das farmácias – de cerca de 17% para 30%.

A parte do preço, de fato, aconteceu. O mesmo não se pode dizer das margens.

Um dos pontos é a informalidade. Estimativas das farmacêuticas apontam que os produtos trazidos irregularmente de fora (o popular “Mounjaro do Paraguai”) podem representar um mercado de duas a três vezes maior do que o formal. 

Para a Panvel, no entanto, essa informalidade também pode ser oportunidade.

A leitura da companhia é que a queda de preços e a entrada de concorrentes regulados podem trazer para dentro da farmácia clientes que antes não compravam o produto ou recorriam a canais sem controle. 

Julio diz que a chegada do produto mais barato da EMS já deu um “gostinho” desse mercado formalizado.

“A tese do preço se provou verdadeira,” disse ele. “Ela aumentou a base de consumo e, com isso, a categoria tomou outra proporção dentro da farmácia.”

O executivo também tenta afastar o debate sobre a crescente dependência do setor de apenas uma categoria de medicamentos. Para ele, a preocupação maior não é depender do GLP-1, e sim depender de poucos fornecedores.

A tese é que a chegada de mais produtos – similares e, principalmente, genéricos – aumentará o poder de negociação das farmácias. 

“Vamos ter uma proliferação de indústrias e com isso a dependência deixa de ser um problema, porque a gente começa a ter mais fornecedor para negociar, para fazer margem, para fazer parcerias,” disse. 

Além disso, o GLP-1 pode puxar outras categorias. A Panvel já vê venda cruzada em proteínas, suplementos e produtos para queda de cabelo – um dos efeitos colaterais relatados por usuários desses medicamentos.

O risco para o negócio, claro, é que no futuro o GLP-1 reduza o consumo de outros medicamentos, como remédios para colesterol ou insulina, que possuem margens maiores. Julio admite que isso pode acontecer, mas diz que ainda não apareceu nos números.

“A gente não está vendo nada deixar de crescer em detrimento do GLP,” disse. “Até porque o percentual de clientes que usa ainda é muito pequeno.”

É por isso que a Panvel não quer ser vista como uma empresa de um produto só.

A ambição ficou mais clara no Investor Day realizado em fevereiro, quando a Panvel apresentou seu plano para 2030. 

A companhia disse ao mercado que quer praticamente dobrar de tamanho nos próximos cinco anos: chegar a uma receita entre R$ 11,5 bilhões e R$ 12 bilhões, com 950 a 1.000 lojas e uma margem EBITDA entre 6,7% e 7%.

Essa expansão vai ser principalmente pela região Sul. 

A Panvel já é dominante no Rio Grande do Sul, com cerca de 22% de market share – e perto de 50% em Porto Alegre – mas ainda tem apenas cerca de 8% em SC e no PR. 

Para Julio, é justamente nestes dois mercados que está a maior avenida de crescimento da companhia nos próximos anos: redes locais que cresceram muito quando o juro estava baixo ficaram mais pressionadas com a alta da Selic, enquanto a Panvel chega com balanço mais sólido, capacidade de investir em estoque e uma marca já conhecida.  

“Uma das coisas principais na farmácia é encontrar o que você está procurando,” disse Julio. “Se eu não tiver dinheiro para ter estoque, o que adianta ficar abrindo um monte de lojas?” 

Outro fator que tem impactado as ações do setor é a chegada do Mercado Livre. Na semana retrasada, os papéis das varejistas despencaram após o anúncio que o MELI começou a vender GLP-1 no México.

Julio diz que marketplaces sempre puderam vender medicamentos – desde que abrissem uma farmácia regularizada e cumprissem a legislação. 

O desafio, segundo ele, não é simplesmente colocar a categoria dentro de uma plataforma: é operar uma farmácia de verdade, com farmacêutico, estoque regulado, controle de medicamentos, capilaridade e entrega rápida. 

“Não temos medo do Mercado Livre. Todos os desafios que a gente vive diariamente, eles também vão passar a ter,” disse. 

O executivo baseia sua confiança no crescimento das vendas online da Panvel. No primeiro tri, o digital representou 28,5% da receita bruta do varejo, com crescimento de 45,7% em relação ao ano anterior.

Um gestor resume a tese de forma simples: “A farmácia consegue entregar em 20 minutos algo que o Mercado Livre dificilmente conseguirá replicar com a mesma capilaridade”. 

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E, em saúde, o risco de falsificação ou procedência pesa mais na decisão do consumidor, disse o gestor. 

A Panvel quer se diferenciar exatamente por sua marca. Não à toa, seus produtos próprios representaram 7,8% das vendas totais do varejo e 19,1% da categoria de higiene e beleza, onde a empresa vê sua maior força. 

Julio diz que a marca própria sempre foi construída com foco em qualidade – não apenas preço – e virou um diferencial especialmente em beleza, skincare e maquiagem, categoria em que 70% das vendas já vêm da própria marca. 

“Não somos só uma empresa de varejo, mas também uma marca que entrega bastante margem,” disse o CEO. 

Por último, há outro eixo sempre especulado pelo mercado: uma eventual fusão com uma outra rede.

Segundo um gestor, a Panvel tem um perfil que naturalmente chama atenção: é regional, tem marca forte, baixa alavancagem e números limpos. 

Ao mesmo tempo, sua concentração no Sul a torna complementar a outros players, como Pague Menos e DPSP, o grupo originado da fusão entre as drogarias São Paulo e Pacheco.

Julio disse que o tema é tratado internamente de forma aberta e que a companhia tem boa relação tanto com a Pague Menos quanto com os acionistas da DPSP. Mas afirma que não há nenhuma conversa em andamento.

“Não é uma pauta que está sendo tratada atualmente, mas continuamos abertos. Se o plano da Panvel for se tornar uma empresa nacional, provavelmente será por um M&A,” disse o CEO.

Analistas do buy side e do sell side veem a Panvel como uma “noiva bonita”: balanço limpo, boa gestão, geração de caixa e baixa alavancagem – e um papel barato. “É uma mini RD,” disse um gestor.

Os múltiplos, no entanto, mostram que o mercado ainda está longe de comprar a tese da Panvel. 

Negociando a cerca de 7x o lucro do ano seguinte, a empresa tem um múltiplo baixo para um negócio de farmácia, que deveria ser mais resiliente que o varejo tradicional, disse um gestor que tem posição na rede.

A compressão é geral. No varejo, o range de múltiplos que antes ficava entre 12x e 20x lucro foi sendo rebaixado para 12x a 15x, depois para 10x a 13x, 8x a 10x, e agora para algo entre 5x e 8x – reflexo direto do juro real elevado no Brasil.

“Mas um business de farmácia negociar a 7x lucro não faz sentido,” disse outro gestor, que vê o lucro da Panvel crescendo 30% este ano. 

As ações da Panvel sobem 18% nos últimos doze meses. 

A empresa vale R$ 1,7 bilhão na Bolsa.