O Country Club do Rio de Janeiro é um dos recantos mais exclusivos da Cidade Maravilhosa. Fincado desde 1916 no coração de Ipanema, na alça de mira do Posto 10, o clube tem apenas 850 sócios e reúne boa parte da alta sociedade carioca. 

O rito de admissão é extremamente rigoroso — ainda que ninguém saiba ao certo os critérios que são levados em conta — e já deixou no meio do caminho um membro da família Marinho e até o rei do futebol. (Reza a lenda que Pelé certa vez tentou entrar para o clube, mas não passou pelo crivo dos conselheiros). 

Na semana passada, desafiando o zeitgeist conservador de algumas facções do País, o Country acolheu em suas hostes o casal Maria Geyer e Thais Araújo. 

A aprovação, unânime, marcou a primeira vez na história do clube que um casal gay foi aprovado como sócio — mostrando que, pelo menos na parte mais rarefeita da pirâmide social brasileira, as questões de gênero estão se tornando um non-issue

(O clube tem pelo menos mais um casal gay em seu quadro de sócios, mas eles não tiveram que passar juntos pelo processo de aprovação: o que já era sócio incluiu o marido depois do casamento.)

Maria — herdeira do clã que fundou a Unipar e ainda uma acionista importante da petroquímica — passou as últimas semanas ligando para os 22 conselheiros, fazendo uma apresentação formal como parte do processo de seleção para se tornar sócia do clube. 

O processo também incluiu a exposição, por dois meses, de uma foto de Maria e de sua mulher numa parede de pedra na sede do clube, junto com informações sobre a vida do casal, que está junto há 12 anos e tem um filho de 3 — um processo conhecido carinhosamente como “colocar a cara na pedra”. 

“Também tive que escolher três pessoas para serem meus padrinhos,” Maria disse ao Brazil Journal. “Esses sócios são aqueles que vão defender a sua indicação frente aos demais conselheiros.”

Depois de tudo isso, vem a reunião com o conselho, onde cada um dos 22 membros apresenta seus votos: bola preta (para vetar a indicação), bola branca (para se abster), e bola vermelha (para aprovar). 

Candidatos que sejam filhos de antigos sócios podem passar com até seis bolas pretas. Já aqueles que não têm vínculo histórico com o clube podem ter no máximo três.

Fundado por ingleses, a história do Country se confunde com a do tênis brasileiro: há seis quadras profissionais de saibro, além de um restaurante, uma varanda para descanso, piscina, sauna, e uma sala de cinema. (Jorge Paulo Lemann costumava treinar no clube, e uma das quadras ainda leva seu nome.) 

Apesar de só haver se tornado sócia agora, Maria passou quase toda sua vida dentro do clube. Seu pai, Paulo Geyer, comprou o título em 1960 (no mesmo ano em que Maria nasceu), o que permitia que ela frequentasse o local como dependente. 

“Desde pequena que eu frequento o clube para jogar tênis, ir na piscina e encontrar amigos”, disse ela. “Lá, tem muitas pessoas que eu conheço da minha vida inteira. Sempre que vou lá é uma celebração.” 

Em sociedade, diz o ditado, tudo se sabe, mas talvez poucos conheçam a experiência empresarial de Maria, que, em 2004, logo após a morte do pai, passou a fazer parte do conselho da petroquímica, onde ficou por mais de cinco anos. 

No board, ela diz que teve seu primeiro contato com o mundo dos negócios. Aprendeu sobre finanças, EBITDA… “termos que eu não fazia ideia do que eram antes…” disse ela. 

No final, o conselho do pai foi o que fez a maior diferença.

“Ele dizia que, no conselho, eu só precisava lembrar de uma coisa: ter bom senso.”