Caso você não saiba o que é um Non-Fungible Token, aqui vai um pequeno apanhado: NFT é um identificador, um token, que representa a escritura de uma mídia digital qualquer.

Ao contrário de moedas como o dólar, real ou euro, o token não pode ser copiado ou dividido em partes menores, nem pode ser substituído por outro de igual valor ou espécie, o que o torna “não fungível”. 

Para garantir que os registros de propriedade estejam sempre corretos e atualizados, eles são armazenados em milhares de computadores em todo o mundo, o tal blockchain. Dessa forma, ninguém poderia falsificar a propriedade do ativo. Para tornar o token único, indivisível e impossível de copiar, os computadores da blockchain precisam criar e resolver quebra-cabeças matemáticos suficientemente difíceis. Não há muito mais do que isso.

Os NFTs, geralmente, 96%, estão associados ao ato de colecionar arte digital ou ativos digitais como acessórios em games, músicas, filmes, ingressos para eventos e até um trecho de 5 segundos de um jogo de basquete. Os outros 4% são aplicados à escrituração de ativos físicos como imóveis ou itens de luxo: Rimowa e Louis Vuitton já utilizam o expediente.

O grupo dos 96% dos NFTs são exatamente o tipo de barulho ao qual nossa indústria não consegue resistir. Sedução infantil, tecnologia obscura e sensação viral –  você consegue entender a obsessão atual por NFTs lembrando dos seus ancestrais: realidade aumentada, Pokemon Go ou Second Life. 

Há algo no DNA dos marketeiros que os torna especialmente deslumbrados por esse tipo de “tendência”. 

Obviamente, trata-se de um novo potencial gerador de receita. Se dá pra vender, tem relação direta com marketing. Mas recomendo refletir sobre um punhado de vulnerabilidades.

O que se está comprando, realmente?

Não vale comparar uma pintura a óleo original com uma impressão, onde as cópias são claramente diferentes do original. A arte tokenizada é exatamente a mesma que todas as cópias já feitas dela e todas as cópias ainda a serem feitas. Você não tem uma versão única que só você pode desfrutar. A única coisa que você tem é o direito de se gabar. 

Ter um NFT não lhe dá uso, posse ou propriedade exclusivos de uma obra. Não adiciona nenhuma melhoria a ela. Ele não confere nada além de si mesmo e do direito de vendê-lo – veja bem, vender o NFT, não a obra.

Um comprador ingênuo de NFT pode presumir que comprou o conteúdo a ele associado, quando na realidade o criador original ainda é o detentor dos direitos autorais e dos direitos de copiar, distribuir, modificar, executar e exibir publicamente o referido conteúdo. NFTs não são amparadas por nenhuma lei que mude essa equação hoje. É a escritura não copiável de algo que todo mundo pode copiar! 

Mas enquanto isso, promoveu-se exaustivamente a ideia de que os NFTs são bons para os artistas e criadores, pois permitem que eles sejam pagos por seu trabalho de forma descentralizada e escalável. 

Ironicamente, o fato é que a imensa maioria dos artistas não está ganhando nenhum centavo. Não há nada que impeça as pessoas de simplesmente tokenizar o trabalho de outras pessoas, reivindicar e lucrar com isso. Na verdade, já está acontecendo. 

Um dos maiores marketplaces de NFT do mundo, o OpenSea, publicou no dia 28 de janeiro que mais de 80% dos NFTs são de trabalhos de outros ou de obras plagiadas, de coleções falsas ou simplesmente spam. Existe até uma conta no Twitter que tokenizará qualquer tweet para você, independentemente de você mesmo o ter escrito ou não.

Saindo do mundo da arte e pensando no território de games, é realmente difícil ver como os jogadores podem se beneficiar dessa mudança. A maioria esmagadora dos jogos já faz uso de microtransações oferecendo uma variedade de itens virtuais e produtos no jogo, enquanto marketplaces como o Steam há muito permitem que os jogadores negociem diretamente entre eles. Ou seja, o que um NFT acrescenta para essa comunidade?

Outro problema com NFTs é seu impacto ambiental.  Eles dependem fortemente da mineração, que usa grandes quantidades de poder computacional. A rede Ethereum por exemplo, usa tanta eletricidade quanto a Líbia, e uma única transação com Bitcoin consome mais eletricidade do que um milhão de transações da Mastercard. 

Claro, os NFTs podem não causar diretamente o aumento das emissões de carbono, mas apoiá-lo é ampliar ainda mais o uso da infraestrutura de criptomoedas, que por si só já emite quantidades assustadoras de carbono.

Ainda não acabou: Para que um ativo tenha algum valor no futuro, que é seu único propósito, o método de armazenamento usado precisa funcionar por tempo suficiente para que o ativo seja apreciado.

Isso não é um problema para carros, vinhos ou esculturas. Mas qual é a idade média das plataformas NFT? 2 anos? Por quanto tempo elas estarão no mercado antes que seus negócios fechem, como acontece com tantas startups? Se o castelo de cartas tremer não restará nada dessa “reserva de valor,” além de uma singela página de erro 404.

Mesmo que essas empresas consigam sobreviver por mais de uma década, seus sistemas muitas vezes ainda dependem da internet pré-blockchain, na qual um token pode desaparecer repentinamente.

A tecnologia é tão frágil que a maioria dos NFTs não reside permanentemente em uma blockchain. O conteúdo e os metadados ficam armazenados separadamente do próprio contrato inteligente NFT. Além disso, os arquivos digitais se tornam instáveis ao longo do tempo, pois novos sistemas operacionais e plug-ins geram incompatibilidades e mensagens de erro recorrentemente. Seria um milagre com a arquitetura atual de funcionamento se 50% dos NFTs sobrevivessem após 2025.

NFTs são o capitalismo enlouquecido. São o resultado feio do desejo de possuir coisas que não precisam ser possuídas, puramente por possuí-las.  São o puro ego digitalizado e monetizado.

Isso significa que muitas pessoas estão tratando os NFTs não como uma forma útil de tecnologia – dado que a tokenização é uma evolução importante (com significado social e econômico) que o blockchain pode nos oferecer com criptomoedas e contratos inteligentes – mas tão somente como um mecanismo de lucro especulativo.

Resumindo: os conceitos por trás dos NFTs fazem pouco sentido prático e filosófico, não têm respaldo legal, não atendem ao hype comercializado, seus custos são proibitivos ecologicamente, há vulnerabilidade técnica de segurança e você não tem lastro e garantia de que ele funcione ou tenha valor comercial em 5 anos.

Tendo isso em vista, temo que a principal razão pela qual as pessoas passaram a usar os NFTs tenha sido que não havia nada melhor para fazer. Não é surpresa que a quantidade de atenção dada ao assunto tenha explodido durante a pandemia, e não quando a tecnologia foi apresentada ao público em 2016: pessoas entediadas não tinham mais onde colocar seu dinheiro enquanto estavam isoladas.

À medida que a economia reabre, estamos vendo o preço da maioria dos NFTs sendo reduzido quase pela metade. Coincidência? Eu acho que não.

Igor Puga é o chief marketing officer do Santander Brasil. Este artigo foi publicado originalmente no Meio&Mensagem.