A presença de mulheres nos conselhos de administração de empresas listadas aumentou de 11,5% para 14% ao longo do último ano.

Mas um grupo de empresas e instituições acha que o ritmo ainda é de tartaruga – e que as companhias listadas precisam fazer (muito) mais para mudar de fato a situação. 

“Se continuarmos com esse ritmo vamos demorar literalmente 30 anos para conseguir chegar na equidade de gênero nos conselhos de administração,” Adriana Muratore, a coordenadora do Programa Diversidade em Conselho (PDeC) e conselheira da Positivo e de outras empresas, disse ao Brazil Journal. 

“Isso vem sendo demandado por todo o mercado, grandes gestoras estão provocando, exigindo o aumento da diversidade, mas o ritmo no Brasil está muito aquém do necessário.”

Para tentar criar uma onda positiva, a PDeC – que é mantida por empresas como B3, IBGC, IFC, WCD e SpencerStuart – acaba de publicar uma carta aberta exortando os controladores e conselheiros de empresas listadas a aumentar o número de mulheres em seu board. 

O timing é estratégico. Em abril, começam as assembleias de acionistas que vão definir os novos conselheiros de boa parte das empresas. 

Segundo Adriana, as companhias deveriam estabelecer o aumento da diversidade nos conselhos como um compromisso formal, com metas que possam ser metrificadas, e não apenas como uma intenção. 

“O conselho precisa espelhar onde a organização e a sociedade estão,” disse ela. “Isso é fundamental para a performance e até para a longevidade das empresas.” 

No ano passado, o PDeC já havia publicado uma outra carta com o mesmo tom.  

Além da pressão pública, o programa também atua na formação de conselheiras. O projeto promove um curso anual de formação voltado para executivas, com aulas de mercado de capitais, governança corporativa e ESG. Há ainda uma etapa de mentoria, na qual conselheiros como Luiz Carlos Trabuco e Ronaldo Iabrudi fazem seis encontros de uma hora com as mentoradas.

O PDeC já formou 139 mulheres, e 63% delas estão em algum conselho de administração – seja de empresas listadas na Bolsa ou privadas. 

A iniciativa do PDeC vai na mesma direção de outros projetos como o 30% Club, que também quer aumentar o número de mulheres em conselhos, e o FIN4SHE, focado no aumento da diversidade de gênero no mercado financeiro como um todo. 

Abaixo, a íntegra da carta que acaba de ser publicada:

Prezados e prezadas presidentes de conselho, conselheiros e conselheiras

São muitos os estudos que apontam o impacto positivo da diversidade no desempenho das empresas. Uma companhia com equipe diversa pode amplificar os potenciais analíticos e promover melhor gestão de risco, proporcionar maior capacidade de inovação para os negócios, resultados sustentáveis no longo prazo, entre outros atributos. Além disso, a diversidade tem sido cada vez mais associada à inclusão e equidade, características que devem ser almejadas por qualquer companhia. As demandas de nossa sociedade exigem respostas que somente a perspectiva de uma liderança corporativa diversa pode trazer.

Por isso, neste período em que profissionais começam a ser selecionados para conselhos de administração, incentivamos que considerem aumentar a diversidade nas companhias em que atuam. 

É fundamental, nesse momento, uma revisão dos conselhos das empresas, abertas ou fechadas, com a escolha de mais mulheres em sua composição. Existem muitas profissionais capacitadas e prontas para assumirem esses cargos, e acreditamos que a renovação dos conselhos é a oportunidade de acelerar essa agenda, considerando a importância da diversidade nas suas companhias.

Pesquisa do Brasil Board Index, da SpencerStuart, aponta que apenas 14% das cadeiras de conselhos no Brasil são ocupadas por mulheres nas empresas de capital aberto. É um índice maior que o registrado em anos anteriores, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido para melhor equilibrar esse indicador. 

Nós, do Programa Diversidade em Conselho (PDeC), estamos à disposição para ajudar na busca por mulheres com o perfil desejado para as posições a serem preenchidas, disponibilizando os bancos de conselheiras do PDeC e da WDC (WomenCorporateDirectors) e o banco de profissionais do IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), que contam com centenas de conselheiras e profissionais preparadas e com grande variedade de perfis e experiências. O PDeC é uma iniciativa conjunta entre B3, IBGC, International Finance Corporation (IFC), Spencer Stuart e WDC para ampliar a diversidade em conselhos.

No ano passado, já enviamos um comunicado com um convite para que todos os conselheiros, investidores e tomadores de decisão se juntassem a nós. Nesse ano, seguimos firmes na missão de ressaltar a importância de aumentar a diversidade nesses colegiados.

Acreditamos que as mudanças efetivas em relação a esse tema acontecerão apenas com a soma de esforços entre todos os atores envolvidos. Contar com perfis diversos será fundamental para garantir a longevidade, a inovação e o valor das empresas, já que esse critério será responsável por promover discussões de alto nível e com diferentes pontos de vista e experiências. As empresas que não considerarem a diversidade em suas cadeiras podem cometer erros estratégicos, já que essa será uma exigência cada vez mais considerada pelos mais diferentes públicos, inclusive investidores.

Você é uma pessoa chave no ecossistema de conselhos. Por isso, o convidamos a olhar para esse assunto tão importante para a governança das organizações e para a sociedade na formação dos conselhos nessa próxima assembleia.

Atenciosamente,

Programa Diversidade em Conselho (PDeC)