Eduardo Guardia – que serviu ao País com distinção em alguns dos momentos mais turbulentos da República com tranquilidade, racionalidade e um sólido entendimento sobre os mercados e a economia real – morreu hoje em São Paulo depois de uma luta contra o câncer.

Ele tinha 56 anos.

Guardia – que era o Secretário Executivo do Ministério da Fazenda na gestão de Henrique Meirelles – assumiu o comando da pasta em 2018, quando seu chefe saiu para disputar a Presidência. 

“Ele não era um servidor de carreira, mas tinha um compromisso enorme com as contas públicas,” disse Ana Flor, que cuidou da comunicação de Guardia enquanto Ministro. “Ouvia muito a equipe e protegia as pessoas que trabalhavam com ele. Era uma pessoa simples, acessível, com conhecimento técnico profundo… Um ser humano espetacular.”

Ana se recorda que, no auge da campanha de 2018, Guardia tomou a iniciativa de convidar os economistas de todas as campanhas para reuniões individuais – em que lhes entregava um calhamaço contendo dados sobre a situação da economia – e colocou sua equipe à disposição de todos. 

Durante seu tempo na Fazenda, coube a Guardia negociar o fim da greve dos caminhoneiros, então (como hoje) furiosos com o preço do diesel. A solução encontrada foi criar um subsídio temporário, reduzindo – também temporariamente – alguns benefícios fiscais da Zona Franca de Manaus. 

“As pessoas não têm noção de como ele foi fundamental num momento tão difícil para o Brasil. Era um cara muito sério, muito cuidadoso e zeloso com a coisa pública,” disse Mansueto Almeida. “Como Ministro, ele lidava diariamente com os políticos e tinha que dizer ‘não’. Nunca procurou aparecer e ainda assim sempre foi muito admirado – até pelas pessoas a quem ele dizia ‘não’.”

Mansueto – hoje economista-chefe do BTG – era o Secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda quando Guardia se tornou Ministro e o convidou para assumir o Tesouro. 

“Eu não queria aceitar, achava que estava bom ali no meu canto, mas ele trabalhou muito para me convencer, dizendo que era uma chance única de servir ao País num cargo de muita visibilidade,” disse ele. “Muito da minha decisão de vir para o BTG foi por conta dele, para poder trabalhar de novo com ele.”

Guardia já havia servido ao País como secretário do Tesouro Nacional no final do governo Fernando Henrique, quando em dado momento o Tesouro quase não conseguiu rolar a dívida pública dada a tensão do mercado com a perspectiva de eleição de Lula. 

Depois do Governo FHC, serviu como Secretário da Fazenda do Estado de São Paulo no Governo Geraldo Alckmin. 

Sua passagem mais importante no setor privado foi na B3, onde foi CFO e diretor executivo de produtos entre 2010 e 2016.

Ao deixar o Governo Temer em 2018 e cumprir sua quarentena, Guardia tornou-se sócio do BTG Pactual, onde até agora era o CEO da BTG Asset Management. 

“Guardia foi um heroi no setor público e no privado,” disse André Esteves. “Uma pessoa que ajudou a construir o Brasil com a força do seu trabalho e da sua criatividade.”

Ele deixa a esposa, Maria Lúcia, a mãe e duas irmãs.