Macunaíma nasceu “no fundo do mato-virgem”, em um momento no qual a floresta estava em completo silêncio ouvindo o rumor do rio Uraricoera. “Era preto retinto e filho do medo da noite”, lemos no primeiro parágrafo da obra maior do paulista Mário de Andrade (1893-1945). 

As origens humildes desse “herói de nossa gente” confundem-se com a estreia modesta do livro que leva seu nome por título, lançado em 1928 em edição de 800 exemplares, paga pelo autor. 

A segunda edição, revisada por Mário, que cortou uma passagem escandalosa em que seu herói “brincava” (fazia sexo) com três normalistas, foi um passo importante para consolidar a obra como um marco da cultura brasileira. Saiu em 1937 pela José Olympio, a casa editorial que, fundada em 1931, rapidamente se colocou entre as mais prestigiosas do País.

No espírito das celebrações do centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, a José Olympio, hoje parte do grupo editorial Record, acaba de relançar Macunaíma, com o texto e a capa da edição de 1937, ilustrada pelo artista Thomaz Santa Rosa. A escritora Veronica Stigger, que adaptou o clássico modernista para a montagem teatral dirigida por Bia Lessa em 2019, assina o prefácio dessa reedição.   

O personagem, que Mário adaptou de lendas indígenas recolhidas pelo antropólogo alemão Theodor Koch-Grünberg no norte da Amazônia, acabou se convertendo em uma espécie de encarnação da identidade nacional – ou da “entidade brasileira”, como o autor preferia dizer. Era essa a ambição de Mário? Ele próprio não conseguia se decidir a respeito.

Nos prefácios não-publicados que deixou para Macunaíma, Mário advertia que seu herói não deveria ser tomado como um “símbolo” do brasileiro. Mas também dizia que a obra era fruto de sua “preocupação brasileira, profundamente pura.”

O subtítulo do livro anuncia que o protagonista é “o herói sem nenhum caráter”. No sentido moral da expressão, Macunaíma é de fato um sujeito sem caráter – lascivo, ardiloso e indolente (“Ai! Que preguiça!” é o seu bordão) – que passa a perna até em seus irmãos, Jiguê e Maanape, para conseguir comida, dinheiro ou mulher. 

Mas Mário pensava também em um elusivo “caráter nacional.” O Brasil, avaliava o escritor, carecia de uma “entidade psíquica permanente,” pois não possuía “nem civilização própria nem consciência tradicional.” 

Com Macunaíma, Mário propõe-se sondar a ainda jovem e indecisa alma brasileira. Muito apropriadamente, ele chamou a obra de “rapsódia”, gênero literário ou musical (Mário foi professor do Conservatório de São Paulo) que coleta livremente temas do folclore.

A história começa e acaba no mato-virgem da Amazônia, mas Macunaíma, depois de se tornar branco lavando-se nas águas mágicas acumuladas na pegada gigante de Sumé (São Tomé, que, segundo lendas dos tempos coloniais, teria pregado o Evangelho no Brasil), passa uma longa temporada na pauliceia desvairada, em busca da perdida muiraquitã, pedra mágica que ganhou de Ci, a Mãe do Mato. 

A geografia do livro é fluida, elástica: quando foge de inimigos como Venceslau Pietro Pietra, o gigante comedor de gente que roubou a Muiraquitã, Macunaíma pode ir num átimo de Minas Gerais para o Tocantins, ou das margens do São Francisco para o Chuí. 

Com muita liberdade, Mário amalgamou contos e lendas populares das mais variadas origens no cadinho de sua rapsódia. Pena que a ambição de unificar a cultura brasileira fosse demais para seu limitado talento como escritor: o livro soçobra sob o peso acumulado de tantas historietas folclóricas. Ao longo da leitura, vão se tornando rebarbativas as longas enumerações que o autor faz de elementos nacionais pitorescos – frutas, pratos típicos, aves da Amazônia… 

Macunaíma tem páginas antológicas. A macumba de que o herói participa no Rio de Janeiro é descrita em cores vivas e vibrantes. O capítulo “Carta pras icamiabas”, no qual Macunaíma relata em prosa muito empolada suas impressões da vida em São Paulo, é uma paródia impagável do estilo bacharelesco contra o qual os modernistas se levantaram em 1922. No conjunto, porém, o livro é irregular.

A releitura de Macunaíma, com todas suas limitações, vale por oferecer ao leitor uma ideia de nação espiritualmente eclética e sexualmente libertária. Esse ingênuo país de sonhos faz um contraste escandaloso com o patriotismo estreito e intolerante que temos visto tomar a cena política nacional. “Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são,” proclamava Macunaíma. O país vem convivendo com males piores.