Era uma quarta-feira calma no mercado. As árvores balançavam ao sabor do vento e crianças passeavam tranquilamente na pracinha, até que… mais um meteoro retórico do Presidente Lula atingiu a Faria Lima, com o impacto de sempre.

Falando a 500 sindicalistas num evento em Brasilia, o Presidente falou em corrigir o salário mínimo de acordo com o crescimento do PIB e em isentar do imposto de renda quem ganha até R$ 5.000 — uma de suas promessas de campanha.

As intenções podem ser as melhores possíveis, mas as declarações assustaram porque as duas medidas aumentariam o déficit fiscal em mais de R$ 100 bilhões, nas contas de um grande banco. A fala de Lula também é mais um ‘fogo amigo’ contra o Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que busca encontrar formas de fazer as contas públicas fecharem. 

“O Lula está boicotando o trabalho do seu próprio Ministro,” disse um economista.

Muita gente dentro do PT gosta de dizer que o mercado “precisa” observar a distância entre a retórica e os atos presidenciais – e que Lula sempre fará discursos que se adequam à sua audiência. 

Mas como as pessoas não mudam nunca – nem Lula, nem os participantes do mercado – o estrago aparece no preço dos ativos, gerando volatilidade na economia e encarecendo a vida do brasileiro comum.  Para este, o silêncio presidencial muitas vezes valeria ouro. 

Enquanto Lula falava, o DI para 2027 pulou de 12,24% às 11 horas para 12,45% nas duas horas seguintes. O DI 2029 seguiu a mesma trajetória, de 12,33% no início da manhã para 12,57% no final do dia.

Já o dólar, que namorava uma mínima de R$ 5,06, fechou a quarta-feira 10 centavos acima, a R$ 5,16 — uma alta de quase 2%.

Em sua fala, o próprio Lula deixou claro que o tema da isenção do IR não é consenso nem dentro do próprio PT. 

“Meus companheiros sabem que tenho uma briga com economistas do PT porque eles dizem que, se fizer isso [isentar trabalhadores que ganham até R$ 5 mil], cai 60% de arrecadação. Então vamos mudar a lógica, diminuir para o pobre e aumentar para o rico. É necessária uma briga? É necessário,” disse ele.

Não bastassem as declarações de hoje cedo, Lula foi à GloboNews no final do dia questionar o último bastião de estabilidade do mercado: o Banco Central independente. 

“Neste País, se brigou muito para ter um Banco Central independente, achando que ia melhorar,” Lula começou a filosofar. “Eu posso te dizer, com a minha experiência, é uma bobagem achar que um presidente do BC independente vai fazer mais do que quando o presidente era quem indicava.”

Lula criticou ainda a atuação do BC nos últimos anos, especialmente na definição da meta de inflação.

“Por que o Banco Central é independente e a inflação, os juros estão do jeito que estão? Você estabeleceu uma meta de inflação de 3,7%. Quando você faz isso, é obrigado a ‘arrochar’ mais a economia para atingir a meta. Por que precisava atingir os 3,7%? Por que não fazia 4,5% como nós fizemos?”

Fernando, conta pra ele.