A ArtRio deste ano mostrou um mercado mais ativo nas faixas intermediárias — enquanto museus internacionais ampliaram sua pesquisa sobre artistas brasileiros.
A leitura dos primeiros dias mostrou duas velocidades. De um lado, o mercado secundário de arte moderna brasileira permaneceu seletivo, com compradores negociando e escolhendo com cautela.
Do outro, o contemporâneo apresentou liquidez, sobretudo em obras de preços médios e em artistas cujas carreiras começam a ganhar maior tração institucional. Esse contraste também aparece no relatório da feira: a atividade no secundário foi mais medida, enquanto o contemporâneo teve uma resposta mais dinâmica.
Mais do que grandes cheques isolados, parte relevante do movimento veio de vendas entre US$ 10 mil e US$ 80 mil — uma faixa em que descoberta, trajetória institucional e capacidade de circulação internacional pesam cada vez mais.
Mas talvez o dado mais relevante desta edição tenha vindo de fora do caixa das galerias.
A visita da Sheikha Al-Mayassa bint Hamad bin Khalifa Al Thani, presidente do Qatar Museums, se somou à presença de Manuel Segade, o diretor do Museo Reina Sofía, além de profissionais ligados à Tate, Centre Pompidou, Turner Contemporary e Wexner Center for the Arts. O movimento reforçou o papel da feira como plataforma de aproximação entre a produção brasileira e redes institucionais internacionais.
No setor geral da feira, batizado de Panorama, um dos destaques históricos da Gustavo Rebello Arte foi um Gyula Kosice de 1947, Plans and Colors Released, com asking price de R$ 700 mil. A obra foi vendida a um executivo de um banco internacional que mantém uma coleção em Buenos Aires.
Na Galleria Continua, uma pintura monumental de Cristina Canale foi vendida por US$ 80 mil. Outro destaque foi um Manabu Mabe de 1969, reservado por US$ 110 mil, ambas provenientes da família de um importante banqueiro brasileiro. A galeria ainda mantinha em negociação uma obra de Anish Kapoor oferecida por cerca de US$ 1,4 milhão.
Na Pinakotheke Cultural, foram vendidas duas obras de José Pancetti por R$ 350 mil cada. A galeria de Max Perlingeiro também chamou atenção pela visita da Sheikha, que demonstrou interesse particular em Rubem Valentim.
Na Casa Triângulo, uma Sandra Cinto saiu por US$ 60 mil, e um assume vivid astro focus (avaf) por US$ 40 mil. Além disso, obras de cinco artistas da galeria entraram para a Jorge M. Pérez Collection / Espacio 23, em Miami: Lucas Simões, Luiza Gottschalk, Marina Hachem, Rafael Chavez e Zé Tepedino.
A Nara Roesler vendeu várias obras de Flávia Ventura, apresentada em um projeto solo, por entre R$ 40 mil e R$ 60 mil; um André Griffo por US$ 50 mil; e uma de Elian Almeida por US$ 25 mil.
No mercado secundário, a Galatea teve entre as maiores transações um óleo sobre tela de Burle Marx de 1981 de (112x147cm) por R$ 900 mil e uma pintura de Ione Saldanha de 1960, (45x54cm) por R$ 240 mil. No contemporâneo, Mucki foi um dos destaques, com cinco obras vendidas, entre US$ 30 mil e US$ 48 mil. Ygor Landarin e Guilherme Galle também tiveram todas as obras vendidas.
O stand da Vermelho ficou sold out já no primeiro dia do VIP, com obras sobre papel de Chiara Banfi vendidas entre R$ 25 mil e R$ 210 mil.
Na Almeida & Dale, trabalhos de Cassio Michalany, Marlene Almeida, Lidia Lisbôa, Nelson Felix e Laís Myrrha saíram na faixa de R$ 45 mil a R$ 70 mil, enquanto obras de Ana Elisa Egreja, Vivian Caccuri, Nuno Ramos e Alice Shintani ficaram entre R$ 100 mil e R$ 130 mil.
Na Yehudi Hollander-Pappi, um dos destaques foi Ana Raylander Mártis dos Anjos, após sua participação na 36ª Bienal de São Paulo com a instalação A casa de Bené. Na feira, a galeria vendeu os quatro últimos totens da série. Um importante colecionador peruano, patrono de diversos museus internacionais, adquiriu um dos totens e uma escultura em bronze em forma de cesta, com trabalhos na faixa de US$ 10 mil.
Outras vendas incluíram trabalhos de Castiel Vitorino Brasileiro, adquirido por uma instituição sul-americana por cerca de R$ 40 mil, e Natalia Ivanov, na faixa de R$ 100 mil. Trabalhos de Luisa Alcântara e Stefania Lucchese também foram para coleções nos EUA.
Na A Gentil Carioca, as vendas incluíram obras de Renata Lucas, Rodrigo Torres e Maria Nepomuceno, enquanto Agrade Camíz ganhou atenção internacional com a exposição Nome Próprio na sede da galeria.
John Basnage de Beauval, membro do comitê de aquisições de arte africana da Tate Modern, destacou a artista como um nome a acompanhar de perto: “Acho que ela está em plena ascensão e que seu trabalho vem despertando um interesse crescente internacionalmente. Sou particularmente atraído pela maneira como ela se apropria da linguagem visual das periferias do Rio […] a transforma em algo que se situa entre figuração, geometria e abstração.”
A Galeria Estação vendeu três monotipias de Santídio Pereira por R$ 155 mil cada e um conjunto de 42 ex-votos por R$ 150 mil reunindo peças adquiridas de diferentes núcleos, incluindo de Giuseppe Baccaro nos anos 1990 formado a partir de peças recolhidas em igrejas do Nordeste nos anos 1970.
Na Athena, as vendas incluíram um Gustavo Prado por R$ 200 mil, Edu de Barros por R$ 55 mil, Jonas Arrabal por R$ 35 mil e Pandro Nobã por R$ 28 mil. Além das vendas, a galeria também entrou no radar institucional: Manuel Segade, diretor do Museo Reina Sofía, demonstrou interesse pelo trabalho de Ayla Tavares, artista que já integrou exposições internacionais como Several Eternities in a Day, no Hammer Museum, em Los Angeles.
Na Janaina Torres Galeria, uma das principais vendas foi a pintura monumental de Sandra Mazzini por cerca de US$ 50 mil. A galeria também vendeu várias pinturas de Manuela Navas por aproximadamente R$ 30 mil cada, artista que chamou a atenção de Jacintha Regoletta, cofundadora da MALA — Mujeres Artistas Latinoamericanas — que participou da programação internacional da Latitude.
Na Galeria Inox, o cubano Jorge Mayet teve obras vendidas na faixa de US$ 24 mil a US$ 30 mil. Em 2026, a galeria também fará sua estreia na Untitled Art Miami com uma apresentação solo do artista.
No setor Solo Duo, a galeria Cave destacou a venda de 11 fotografias de Jane Batista, vencedora do Prêmio PIPA 2026 — incluindo a série completa de cinco obras, adquirida por R$ 35 mil, além de seis fotografias avulsas. A galeria também doou obras de Gi Monteiro e Bárbara Banida ao MAR – Museu de Arte do Rio, enquanto outra escultura de Banida foi adquirida por uma colecionadora privada. Bárbara Banida também participa do 39º Panorama da Arte Brasileira, no MAM São Paulo.
A Mazzucchelli Cardoso, inaugurada em maio deste ano em São Paulo, vendeu obras de Luísa Matsushita e Romulo Barros entre US$ 5 mil e US$ 45 mil, para colecionadores da América Latina, Estados Unidos, Europa e Brasil.
No eixo institucional, a ArtRio doou ao MAM Rio Emi, de Nádia Taquary, da Portas Vilaseca. A escolha foi feita por Raquel Barreto, a curadora-chefe do museu, e Maria Luz Bridger, a diretora artística da feira.
Entre as vozes internacionais, três curadoras trouxeram um olhar feminino particularmente pertinente sobre a cena brasileira: Rebecca Lowery, do Wexner Center, destacou práticas ligadas à natureza e a contextos indígenas e amazônicos; Melissa Blanchflower, do Turner Contemporary, chamou atenção para novas leituras de paisagem, citando Juliana dos Santos e Wallace Pato; e Jacintha Regoletta, da MALA, ressaltou Pamela Castro e Manuela Navas, além da força das narrativas afro-brasileiras e indígenas.
A ArtRio deste ano demonstra uma vez que o impacto de uma feira vai muito além das vendas imediatas. Os encontros são importantes, e as relações mais profundas se constroem ao longo do tempo – por meio de aquisições institucionais, residências, pesquisa curatorial, encomendas e exposições internacionais desenvolvidas ao longo de vários anos.
Sophie Su Art Advisory é uma consultoria de arte independente, com atuação no mercado secundário internacional e foco especial no Brasil e na América Latina. Você pode acessar o conteúdo completo aqui.











