Os investidores continuam tomando risco apesar da preocupação com a geopolítica global, e isso acontece porque ser defensivo demais tem um custo, Francisco Rosemberg, o head de wealth e family office para a América Latina na BlackRock, disse ao Brazil Journal.

“A instabilidade é justamente o que cria oportunidades para alocar capital em diferentes mercados, públicos e privados,” disse Rosemberg.
Para ele, a sofisticação da assessoria financeira está transformando o mercado de investimentos.
“Definitivamente há espaço para gestão ativa – mas de verdade, ou seja, aquela que gera desempenho acima do benchmark após taxas.”
Abaixo, os principais trechos da conversa:
Que alocação a BlackRock recomenda para family offices e investidores de alta renda?
Primeiro, é importante destacar a evolução na maneira como os portfólios de investimento vêm sendo construídos.
Nos últimos 15 anos – e acelerando nos últimos cinco – vimos uma profissionalização da gestão de patrimônio. Saímos de uma abordagem focada em produtos e classes de ativos isoladas para uma de portfólio.
E o papel do assessor mudou de “corretor” para “arquiteto de patrimônio”.
O diferencial não é mais acessar produtos, mas combiná-los de maneira eficiente, incluindo ativos nos mercados públicos e privados.
Tradicionalmente, falávamos muito do portfólio 60/40. Na América Latina, normalmente 60% em renda fixa e 40% em ações. Nos EUA, onde há maior tolerância a risco, o inverso.
Mas o modelo 60/40 tem sido bastante questionado, especialmente porque a renda fixa deixou de funcionar tão bem como forma de diversificação quando as taxas subiram.
Hoje se fala mais em algo como 50/30/20, sendo que 20% é a participação de alternativos – como private equity ou crédito privado.
Por que faz sentido investir mais em ativos alternativos?
Porque uma grande parcela das empresas está permanecendo privada por mais tempo. Então, se você não está investindo nesse universo, não está acessando todo o conjunto de oportunidades disponíveis.
Não é uma questão de precisar investir em private equity, crédito privado ou infraestrutura – mas é bom lembrar que são parcelas relevantes do universo de investimento.
Como está o apetite por risco dos investidores, em meio a um cenário externo cada vez mais complicado?
Os resultados da pesquisa periódica que fazemos com family offices mostrou que, em 2025, a geopolítica era uma das maiores preocupações — e, pelas conversas que tenho com clientes ao redor do mundo, isso continua.
O que é compreensível, já que o cenário não ficou mais simples.
Mas, apesar dessa preocupação, os investidores continuam assumindo risco.
De forma geral, estão aumentando a exposição a ações, diversificando para mercados emergentes e mantendo o interesse em ativos alternativos, especialmente crédito privado.
Também vemos um interesse crescente em infraestrutura, especialmente entre family offices da América Latina.
Existe uma certa desconexão entre a visão macro — menos construtiva — e as decisões de investimento.
O que explica essa desconexão?
A instabilidade geopolítica virou uma constante, e tornar os portfólios mais defensivos tem um custo.
Além disso, essa instabilidade é justamente o que cria oportunidades para alocar capital em diferentes mercados, públicos e privados.
O que mudou foi a composição: hoje, vemos maior exposição a ações globais, menor peso em títulos públicos longos e mais ativos privados.
Os problemas no mercado de crédito privado nos EUA não assustam?
Não estou dizendo que não devemos nos preocupar com alguns segmentos desse mercado, mas a verdadeira questão é que os ativos alternativos, especialmente o crédito privado, cresceram bastante nos portfólios dos investidores de wealth.
Tradicionalmente, os alternativos eram acessados por fundos de pensão, investidores institucionais e investidores mais sofisticados.
Nos últimos cinco anos, vimos a chamada “democratização”, impulsionada pela inovação em diferentes veículos, o que permitiu que investidores com menos capital passassem a acessar esses investimentos alternativos — que são, por natureza, ilíquidos.
Isso veio com estruturas como as evergreen, ou semi-líquidas, com datas e condições específicas para resgate. Os ativos subjacentes continuam sendo ilíquidos, mas o acesso foi ampliado.
Então, temos um novo grupo de investidores que não estava acostumado com esse tipo de veículo.
Se eu peço resgate e ninguém mais pede, consigo sair integralmente. Mas o que acontece quando todos querem resgatar ao mesmo tempo? Esse é o comportamento que vimos em alguns casos — e que gerou manchetes.
Houve um leve aumento de defaults, o que é uma realidade. Mas o efeito foi amplificado porque investidores de wealth começaram a pedir resgates .
Agora, o que é mais atraente como notícia? Um gestor que segue seu prospecto e aplica corretamente a regra – ou uma manchete dizendo: “Há um problema, grandes gestores não estão permitindo saques”?
Na prática, os veículos estão funcionando exatamente como deveriam.
Quando conversamos com clientes, alguns investidores de wealth estão um pouco preocupados por causa dessas manchetes. Já os investidores institucionais permanecem tranquilos e mantêm suas posições.
Não quero dizer que não há nenhum problema – há sim um pouco mais de estresse no mercado. Mas, mesmo com o aumento de defaults, ainda é possível gerar retornos positivos. E muitos investidores não estão vendo isso.
Estão mais focados nas manchetes — “não consigo resgatar” — sem entender como esses veículos funcionam.
Ainda há oportunidades em mercados emergentes?
Em nosso relatório mais recente, reforçamos nossa posição overweight tanto em ações dos Estados Unidos quanto nas bolsas de países emergentes.
Estamos bastante construtivos em relação aos EUA, especialmente por causa do ciclo de investimentos em inteligência artificial, à medida que começamos a ver alguma materialização de receitas em certas empresas.
Isso tem gerado um interesse renovado nesse tema. E, claro, também vemos valor em mercados emergentes e em alguns mercados específicos da América Latina do ponto de vista de valuation.
Acredito que a América Latina, neste momento, mostra resiliência, por ter recursos naturais que serão necessários para a infraestrutura ligada à inteligência artificial.
Mas, como sempre, o desafio da região é como transformar essa oportunidade — especialmente nesse contexto de reconfiguração das cadeias globais — em consistência, seja por meio de reformas ou de uma trajetória clara de mudanças.
Isso é essencial para que a América Latina seja vista como um destino de capital de longo prazo, de forma estrutural, e não apenas tática.
No caso do Brasil, esse investimento mais estrutural depende do resultado da eleição presidencial?
Mais importante que o governo de forma específica é a continuidade de políticas e a credibilidade. Investimentos — especialmente privados — têm horizonte de 20 anos ou mais.
O modelo fee-based de assessoria financeira – em que o investidor paga pelo serviço – vem ganhando espaço em países como o Brasil. Que mudanças isso já trouxe para o mercado?
A transição do modelo transacional (com o pagamento de comissões por cada investimento) para o fee-based é uma grande tendência no mercado de wealth – e vem transformando a construção de portfólios.
No passado, o modelo predominante era “vou te vender esse produto, vou comprar aquele produto para você”. Isso gerava uma série de ajustes táticos de curto prazo, muitas vezes feitos pelo próprio investidor, estimulado por essa oferta.
No sistema fee-based, a visão é mais orientada para o longo prazo e para a construção de uma estratégia de alocação.
Por isso, temos visto investidores de wealth se tornarem muito mais consistentes na forma como aplicar seus recursos.
Nos EUA, cerca de 65% da indústria já é fee-based. Na América Latina, estimamos 15%, com uma uma diferença importante: no segmento offshore, formado por clientes latino-americanos com custódia nos EUA, cerca de 35% dos recursos estão no modelo fee-based. Nos mercados locais, em torno de 5%.
Isso também ajuda a explicar o crescimento dos ETFs, inclusive no Brasil, onde esse mercado ainda é pequeno.
Sim. ETFs são extremamente eficientes em custo. No modelo fee-based, o gestor quer maximizar retorno, então precisa de instrumentos eficientes.
A BlackRock tem um grande negócio de carteiras-modelo. Em resumo, compartilhamos estratégias de alocação de ativos que os gestores de patrimônio podem implementar.
Nos Estados Unidos, esse era um mercado de US$ 5,4 trilhões no fim de 2024, últimos dados disponíveis. A expectativa é que o volume mais do que dobre até 2030.
Considerando a adoção de ETFs entre 2018 e 2021, para cada dólar que entrou na nossa plataforma de ETFs nos EUA, cerca de 3% vinha de carteiras-modelo da BlackRock. Nos últimos dois anos, esse número mais do que quintuplicou.
De forma ampla, considerando também outras instituições, estimamos que cerca de 25% dos fluxos para ETFs dos EUA no mercado offshore estejam vindo de carteiras-modelo.
Quando a gestão ativa vale a pena para o investidor?
Definitivamente há espaço para gestão ativa – mas de verdade, ou seja, aquela que gera desempenho acima do benchmark após taxas.
O veículo dessa gestão ativa pode ser um fundo mas também um ETF ativo, estratégia que vem crescendo bastante em diversos países (mas ainda é vetada no Brasil).
Então, a discussão não é mais ativo versus passivo. Gestores de patrimônio podem construir portfólios ativos usando instrumentos indexados.
E hoje a discussão evoluiu ainda mais: não é nem ativo versus passivo dentro do ETF — é sobre a eficiência do próprio veículo ETF.






