O romance que abriu horizontes até então insuspeitos para a arte da ficção completa cem anos de publicação neste ano.

Em 2 de fevereiro de 1922, a livraria Shakespeare & Company, em Paris, exibia na vitrine o primeiro exemplar da obra-prima do irlandês James Joyce (1882-1941), que fazia aniversário naquele dia.

Para celebrar o segundo centenário desse monumento do modernismo, a Companhia das Letras relançou Ulysses (816 páginas), na excelente tradução de Caetano W. Galindo, que revisou o texto para esta edição especial. O volume traz ainda oito ensaios sobre o romance e ilustrações do artista americano Robert Motherwell.

O leitor talvez estranhe que acima se tenha falado no segundo centenário de um livro que tem só cem anos. Ocorre que Ulysses é esse raro livro que pode comemorar aniversário duas vezes.

Todos os eventos narrados no livro se passam em apenas um dia, e, desde os anos 1920, o mundo celebra a data em que se passa a história, 16 de junho de 1904. Joyce escolheu esse dia por uma razão afetiva: foi quando pela primeira vez ele passeou por Dublin na companhia de Nora Barnacle, que seria sua esposa e mãe de seus dois filhos.

O 16 de junho passou a ser conhecido como Bloomsday – o dia do herói de Ulysses, Leopold Bloom, um judeu cristianizado que trabalha agenciando anúncios para jornais. Eis um fato que desmente a reputação de leitura intransponível que foi se depositando sobre o livro: de Florianópolis a Tóquio, legiões de fãs mundo afora festejam o livro no Bloomsday. Em Dublin, a data está incorporada ao calendário turístico, e foi especialmente celebrada no seu centenário, em 2004. 

Em Ulysses, nenhum personagem percebe o 16 de junho como uma data que marcará a cultura irlandesa. Estão todos imersos em suas atividades comezinhas e cotidianas, andando pelas ruas, trabalhando, conversando, comendo, bebendo (muito), discutindo Shakespeare em uma biblioteca, pedindo dinheiro emprestado para amigos que estão eles mesmos endividados, acompanhando um funeral ou um parto.

Talvez nunca a movimentação de uma cidade tenha sido tão minuciosamente descrita em uma obra de ficção. Joyce passou a maior parte da vida adulta na Europa continental, mas parecia ter uma memória fotográfica do lugar onde nasceu. Ele dizia que, se um dia Dublin fosse arrasada, seria possível reconstruí-la usando Ulysses como um livro de instruções.

Nos primeiros três capítulos, o protagonista é o jovem escritor Stephen Dedalus, alter ego de Joyce que já aparecera em seu romance anterior, Retrato Do Artista Quando Jovem. É só no quarto capítulo que entra em cena o verdadeiro protagonista da história.

Ao longo do romance, Leopold Bloom será visto nas mais íntimas e constrangedoras situações. O leitor o acompanha até a privada e, algumas centenas de páginas depois, flagra o momento em que ele se masturba em uma praia.

Bloom também carrega a humilhante condição de homem traído: sua esposa, Molly – cuja voz ouvimos no famoso capítulo sem pontuação que encerra Ulysses –, tem naquele dia um encontro marcado com um amante, e Bloom sabe disso.

A despeito de o vermos nos momentos mais vergonhosos, Bloom desponta do livro como uma ilha de dignidade em meio a conterrâneos que tantas vezes lhe são hostis. Ele é afinal o Ulysses de que fala o título, o herói que depois de um dia de batalhas retorna ao lar – não sem antes recolher paternalmente o embriagado Dedalus – já na madrugada de 17 de junho.

As correspondências entre os eventos de Ulysses e episódios da Odisseia – a epopeia de Homero que narra o acidentado retorno de Odisseu (ou Ulisses, na forma latinizada) para seu lar, na ilha de Ítaca, depois da Guerra de Troia – constituem uma das alegadas dificuldades do livro de Joyce. Mas não é preciso pegar todas as referências e alusões ao mito grego para fruir a leitura.

Mais exigente é a linguagem de Joyce, que muda de técnica a cada capítulo – vai da paródia de açucarados romances para moças à narrativa em forma de peça de teatro.

A melhor estratégia para superar esses desafios é abraçá-los sem angústia. Em um dos ensaios da nova edição, muito apropriadamente intitulado “Em defesa da dificuldade”, Fabio Akcelrud Durão, professor de literatura da Unicamp, observa que Ulysses só é realmente intransponível para o leitor que, “imbuído de um desejo de controle”, almeja um impossível domínio total sobre a obra.

O crítico americano Edmund Wilson disse que Ulysses “cria a ilusão de um organismo social vivo” – uma cidade imaginária modelada sobre a Dublin real. A melhor maneira de conhecer essa cidade é perder-se nela.