Semanas atrás, Valery Gergiev possuía um status invejável no universo erudito. Diretor artístico do tradicional Teatro Mariinsky, de São Petersburgo, ele acumulava as funções de regente principal da Sinfônica de Rotterdam, na Holanda, e da Filarmônica de Munique, além de ter performances agendadas à frente da Filarmônica de Viena em Nova York e récitas no Scala de Milão.

Mas o mundo maravilhoso de Gergiev começou a ruir dia 24 de fevereiro, quando Vladimir Putin ordenou a invasão da Ucrânia. 

Instado a criticar a atitude bélica do político, de quem é amigo do peito, o maestro se omitiu – e foi cancelado. Os conjuntos sinfônicos da Holanda e da Alemanha o demitiram, o combo vienense o trocou por Yannick Nézet-Séguin, o Scala o tirou de suas produções e a agência europeia que o tinha sob contrato o liberou para procurar outro empresário.

O imbróglio de Gergiev é mais impressionante pelo seu desfecho do que propriamente pelo adesismo do maestro. 

Apesar de produzirem uma música, digamos, “elevada”, os artistas eruditos são tão humanos e suscetíveis a afagos quanto uma Blanche Dubois, aquela que vivia da bondade de estranhos. Os casos mais comuns são os de manifestações artísticas que vivem de verbas públicas. 

Os governos totalitários fazem uso de atores e músicos a fim de transmitir uma ideia de excelência artística ou de supremacia racial. Foi o que aconteceu na Alemanha de Hitler, onde os regentes eram obrigados a se filiar ao partido nazista. 

O alemão Hans Knappertsbusch se recusou a fazê-lo e foi alijado da função de diretor artístico das orquestras de seu país. Wilhelm Furtwangler e Herbert von Karajan, por seu turno, aderiram ao partido, mas tomaram atitudes diferentes. 

Furtwangler foi mais discreto – embora o vídeo dele regendo Beethoven para a cúpula do partido tenha se tornado lendário – enquanto Karajan abraçou a causa a ponto de se filiar duas vezes ao nazismo.

“Fiz o que era necessário, precisava do trabalho”, justificou aos amigos, entre eles o maestro judeu Daniel Barenboim. Outros eram mais entusiasmados: o austríaco Karl Bohm, embora nunca tenha se filiado, admirava Hitler – e, segundo alguns, fazia até a saudação típica do regime antes dos concertos. 

Com o fim do nazismo, Karajan e Bohm passaram por situações constrangedoras, mas Furtwangler levou a pior: foi destroçado pelo comitê de desnazificação, que afastou ex-simpatizantes de cargos políticos e culturais considerados chave pelas tropas aliadas.  Eles nunca perdoaram o tal vídeo.

O uso da cultura como sinal de supremacia foi utilizado à farta por Josef Stalin. O violinista David Oistrakh e o compositor Dmitri Shostakovich foram ‘convidados’ a excursionar por diversos países da Europa e Estados Unidos para mostrar a “excelência musical” da União Soviética. 

Shostakovich estava em dívida com o partido. Sua ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, de 1932, havia sido detonada pelo jornal do partido como uma música “ocidentalizada” e por trazer uma história escandalosa para a moral soviética. (Afinal, a personagem-título, casada com um homem muito mais velho, combina a morte deste com o amante e por fim também é traída por ele.) 

Para o compositor, não lhe restou outra opção senão criar sinfonias e trilhas de cinema que exaltassem Stalin.

O venezuelano Gustavo Dudamel é outro exemplo de um talento usado para propósitos políticos escusos. Cria do El Sistema, um programa de inclusão social através da música nascido em 1975, ele acumula o cargo de diretor artístico da Orquestra Jovem Simón Bolívar, da Filarmônica de Los Angeles e da Ópera de Paris. 

O Sistema seria, por princípio, apolítico e apartidário. Mas o governo Hugo Chávez aumentou tanto o orçamento da instituição que esta se viu forçada a apoiar as propagandas do chavismo: a Simón Bolívar tocou na inauguração da TV estatal venezuelana e utiliza os mesmos casacos coloridos dos executivos do governo daquele país. “Estamos a serviço do governo, temos de atender aos pedidos deles”, justificou Eduardo Mendez, diretor executivo de El Sistema. 

O grupo sinfônico não se limita a tocar em eventos do governo. Ele também faz vista grossa para atos pouco humanitários. 

Em 2014, durante uma das piores ondas de repressão do governo Nicolás Maduro – que sucedeu Chávez em 2013 –  o maestro se recusou a parar um concerto e dar guarida aos manifestantes, mesmo sabendo que havia pessoas feridas nas ruas. 

A omissão suscitou um protesto da pianista venezuelana Gabriela Montero, que reclamou da atitude de Dudamel e de seu mentor, o economista José de Abreu, criador de El Sistema. O regente mandou um comunicado seco a favor da paz. Em 2017, rompeu com o chavismo.

O maestro e compositor Heitor Villa-Lobos é o exemplo brasileiro mais conhecido de um artista a serviço da ditadura. No caso, a de Getúlio Vargas. 

Villa-Lobos foi recrutado em 1932 para criar um programa de educação musical nas escolas. O trabalho do maestro durou até 1945 e visava ensinar o canto orfeônico – uma espécie de coral – e divulgar os valores nacionais. O auge desse culto a Vargas se deu no dia 7 de setembro de 1940, quando um coral de 40 mil crianças se apresentou para o ditador no estádio de São Januário, no Rio.

No caso de Valery Gergiev, o agravante é que ele não só faz vista grossa aos desmandos de Putin, como também os apoia. 

Em 2012, ele fez campanha para o presidente russo. No ano seguinte, aplaudiu a prisão do Pussy Riot, a dupla punk que denunciava a homofobia do governo russo. Em 2014, apoiou a anexação da Criméia e dois anos mais tarde regeu um concerto em Palmira, na Síria, que havia sido devastada pelo governo do país – que tem apoio dos russos. 

O silêncio de Gergiev no caso da Ucrânia é quase uma admissão de culpa. Mas ainda há bastiões morais em meio à barbárie. O maestro Vasily Petrenko, titular da Filarmônica de Liverpool, se recusou a dar aulas na Academia Russa de Música enquanto a paz não for restaurada.