Já ficou evidente que Lula tem um “plano ambicioso para expandir o papel do governo” na economia brasileira, e isso preocupa os investidores internacionais, diz a consultoria Gavekal no relatório “Brazil’s Fiscal Test,” distribuído hoje aos clientes. 

Ainda assim, há boas razões para acreditar que os ativos brasileiros poderão ter um bom desempenho no próximo ano. A razão para o otimismo está na reabertura da China e na possível desvalorização global do dólar, dois fatores que deverão valorizar as commodities exportadas pelo Brasil, escrevem os analistas Udith Sikand e Tom Miller. 

De acordo com a consultoria, os investidores temem a retomada de “políticas intervencionistas – como o direcionamento estatal na alocação do crédito – que culminaram no estouro fiscal quando houve o crash nos preços das commodities em 2014-2015.” 

Para a Gavekal, Lula ainda precisa demonstrar ser capaz de construir uma “coalizão funcional” para aprovar suas políticas, e o balanço de poder depende das forças de centro-direita no Congresso.

Os analistas destacam como exemplo a decisão de limitar em um ano a autorização para que o Bolsa Família fique de fora do teto de gastos, apesar de o PT ter defendido que a exceção fosse permanente.   

Ainda segundo a Gavekal, o próximo governo tem “um mandato relativamente fraco” e deveria prestar atenção nas lições oferecidas por outros países comandados pela esquerda na região, onde os governos “rapidamente perderam apoio em razão da rigidez ideológica.” 

“A vitória da Argentina na Copa do Mundo não deverá ser suficiente para fazer a população esquecer a crise econômica, com a inflação em 90% em meio a uma montanha de dívida sendo usada para financiar subsídios insustentáveis,” Sikand e Miller dizem no documento. 

Os analistas citam também a baixa popularidade do chileno Gabriel Boric e a queda de Pedro Castillo no Peru. 

“O Brasil, apesar das divisões políticas, não está diante de um risco imediato de mergulhar no caos político ou conflitos sociais semelhantes aos vistos no Chile e no Peru,” dizem. “E apesar da dívida elevada, não há sinal de uma desvalorização ao estilo argentino.” 

A chave para analisar o cenário brasileiro é se as commodities vão continuar oferecendo um “vento de cauda” para a economia no próximo ano. 

Os preços da maior parte dessas mercadorias perderam força desde junho, em parte pelo temor de uma recessão global. Mas há razões para acreditar numa nova alta no próximo ano. 

Para a Gavekal, “os ainda subvalorizados ativos brasileiros – que performaram melhor que a maioria dos outros ativos neste ano – poderão repetir esse desempenho em 2023.”