O presidente do Banco Central falou longamente hoje sobre como a autoridade monetária lidou com o Banco Master – e os ajustes na regulação e no funcionamento do BC que ele passou a ver como necessários.
Num evento da ABBC, a associação que reúne bancos de médio porte, Gabriel Galípolo disse que o problema do Master não era a gestão do passivo – o fato de o banco oferecer CDBs com retornos muito superiores à média de mercado.
“Não há nenhum tipo de regra que vede fazer captações a uma determinada taxa acima do CDI. Isso não configura, como muita gente achou que poderia configurar, um objeto para fazer qualquer tipo de atuação e liquidar o banco,” disse o presidente do BC.
O problema, segundo ele, foi o descasamento entre ativos e passivos – e por isso, o BC avalia como melhorar a legislação para “induzir com maior força” o casamento entre ativos e passivos.

Quando essa paridade existe e um banco passa a ter dificuldades de captar, isso afeta seu crescimento, não sua solvência.
No caso do Master, porém, as dificuldades para captar recursos em 2024 tiveram impacto na liquidez, o que levou o BC a agir.
Segundo Galípolo, no fim de 2024 a diretoria de fiscalização deu um prazo de seis meses para o Master endereçar os problemas de liquidez. O BC esperava que o banco vendesse ativos.
Em janeiro, a diretoria de fiscalização passou a ter dúvidas sobre as negociações de carteiras de crédito que estavam sendo criadas para serem vendidas.
“Se o banco está com dificuldade de liquidez, como é que está formando uma nova carteira? Foi isso que chamou a atenção do diretor de fiscalização, que, em fevereiro, constituiu um grupo específico para fazer uma diligência e analisar essas carteiras,” disse Galípolo.
Em março, segundo o presidente do BC, esse grupo apresentou a primeira versão de um estudo para a diretoria de fiscalização, que mostrava não haver evidências da existência dessas carteiras – o que foi comunicado ao Ministério Público e à Polícia Federal.
Nesse momento, o BRB propôs comprar o Master. “O perímetro da compra mudou várias vezes porque a documentação chegava de maneira incompleta,” afirmou.
A análise prosseguiu até que a compra foi vetada, e o banco liquidado em novembro.
Galípolo disse ainda que o processo foi coordenado com o FGC – que antecipou pagamentos que teria de fazer em caso de liquidação. Segundo ele, a captação líquida do Master coberta pelo FGC, caiu R$ 9,2 bilhões em 2025, e a não coberta diminuiu R$ 2 bilhões.
Galípolo disse ser difícil explicar a seus pares no exterior como um banco S3 – “como se fosse da terceira divisão do sistema financeiro” –, com menos de 0,5% dos ativos totais do mercado, causa “esse tipo de comoção”.
Liquidar o Nacional e o Econômico deve ter sido muito mais difícil, afirmou.
“Quando a gente entende que esse é um tema que transcende a questão simplesmente de regulação e estabilidade do sistema financeiro, entende que é importante fazer o que a legislação manda, que é colaborar com Polícia Federal e Ministério Público.”
Galípolo e Gilneu Vivan, o diretor de regulação do BC – que participou de outro painel no mesmo evento – falaram ainda sobre a necessidade de discutir o escopo de regulação do Banco Central e os recursos para isso.
“Houve um aumento muito grande de instituições que estão sob a supervisão do Banco Central e de instituições que surgiram e que não estão sob essa supervisão, com uma redução significativa de pessoal e recursos,” disse Galípolo.
Na sua visão, o BC poderia investir – como fazem outros países – em sistemas próprios que usam inteligência artificial para analisar dados e instituições de forma mais detalhada, e não por amostragem.











