A ação da Blackstone chegou a cair mais de 10% hoje depois que um dos principais fundos da gestora limitou os saques em meio a um aumento dos pedidos de resgate nos últimos meses. 

O fundo em questão é o Blackstone Real Estate Income Trust, um real estate investment trust (REIT) – a estrutura na qual os FIIs brasileiros se inspiram.

O fundo da Blackstone – batizado de BREIT – não é listado na Bolsa, foi distribuído no varejo, e tem mais de US$ 69 bilhões investidos em ativos logísticos e prédios residenciais na região do Sun Belt, como são conhecidos os estados na parte mais meridional dos EUA.  

Numa carta publicada hoje, o BREIT disse que os pedidos de resgate feitos em outubro excederam o limite mensal do fundo (2% de seu net asset value) e que o limite trimestral de 5% do NAV também já foi excedido.

Em outubro, o BREIT recebeu pedidos de resgate de US$ 1,8 bilhão ( 2,7% do NAV); em novembro, foram mais US$ 3 bi, mas o fundo só permitiu que 43% do total fosse efetivado. O fundo disse ainda que em dezembro só permitirá resgates equivalentes a 0,3% do NAV.

Os resgates não parecem ter a ver com o desempenho do fundo – que tem entregado retornos consistentes nos últimos anos. Desde janeiro, o BREIT deu um retorno líquido de 9,3%. Desde o início do fundo, em 2017, o retorno médio anual é de 13,1%. 

O problema parece ser mesmo a conjuntura macro – com o aumento das taxas de juros globais e o risco de uma recessão levando muitos investidores a fugir de ativos de risco. 

“Nosso negócio é construído com base em performance, e não no fluxo de recursos, e a performance está sólida como uma rocha,” um porta-voz da Blackstone disse ao The Wall Street Journal.

A Blackstone disse que os limites de resgate foram desenhados para impedir que o fundo se torne um ‘vendedor forçado’ de seus ativos. A companhia disse ainda que o BREIT tem US$ 9,3 bilhões em liquidez imediata e outros US$ 9 bi em títulos de dívida que poderiam ser vendidos caso fosse necessário. 

Em outro anúncio – conectado ou não à questão de liquidez – o BREIT disse que vai vender sua participação de 49,9% no MGM Grand Las Vegas e no Mandalay Bay para a Vici Properties, que já era dona dos outros 50,1%.

A transação avaliou os ativos em US$ 5,5 bilhões e vai gerar um lucro de US$ 700 milhões para os cotistas do fundo. Segundo a empresa, parte dos recursos poderá ser usada para fazer frente aos pedidos de resgate. 

O impacto dos resgates na ação da Blackstone tem a ver com a relevância que o BREIT ganhou no portfólio de fundos da gestora. 

Nos últimos anos, o BREIT se tornou o maior produto da Blackstone — tanto em termos de fees quanto em captação. Incluindo a alavancagem, os ativos totais do fundo chegam a US$ 125 bilhões.

O fundo atraiu para a Blackstone uma nova classe de clientes: investidores de alta renda, boa parte da Ásia, buscando acesso às mesmas oportunidades disponíveis aos investidores institucionais,. A Blackstone investiu o dinheiro principalmente em logística e imóveis residenciais multifamiliares nos EUA.

Segundo o Financial Times, o BREIT representa cerca de 10% dos ativos sob gestão da Blackstone que pagam fees, e cerca de um 20% dos fees totais da firma de Stephen Schwarzman. Ele também impacta no valuation da Blackstone. Como se trata de um fundo perpétuo, os analistas chegam a atribuir múltiplos de até 30 vezes as receitas de fees sobre os ativos do fundo.