A Goldman Sachs cortou sua projeção para o S&P 500 de 4.300 para 3.600 pontos, um pouco abaixo do patamar atual.

A revisão ocorreu depois de o Federal Reserve indicar que os juros vão subir acima do que o mercado esperava, elevando as chances de uma recessão nos Estados Unidos.

Global WatchO aumento dos juros vai castigar os emergentes. O Brasil, entretanto, aparece entre os poucos mercados que poderá resistir ao aperto monetário internacional. O Goldman tem como alvo o Ibovespa em 116 000 pontos até o fim do ano, com uma valorização implícita de 6% em relação ao valor atual.

O real também poderá se fortalecer, afirma Caesar Massry, estrategista-chefe para mercados emergentes e mercados globais do Goldman, em conversa com o Brazil Journal. Em um movimento contrário ao que ocorre na maior parte do mundo, a cotação da moeda americana poderá recuar para R$ 5 nos próximos doze meses.

“O ciclo macro no Brasil está bem isolado no curto prazo, porque o BC, em comparação com outros bancos centrais, agiu mais cedo, elevou as taxas de forma agressiva e adequada,” diz Maasry. “O BC brasileiro merece elogios por estar à frente do jogo.”

“Entre os emergentes, nossos mercados de ações favoritos são Brasil, Índia e Indonésia,” afirma o estrategista do Goldman.

A seguir, os principais trechos da entrevista.  

Como a decisão do Federal Reserve, na última semana, impactou as projeções do Goldman para os juros americanos?

O Fed ressaltou a importância de apertar as condições financeiras para controlar a inflação. O presidente Jerome Powell deixou bem claro que eles vão combater o descontrole inflacionário. Haverá mais aperto. Revisamos nossa previsão para os juros, com altas um pouco mais agressivas do que tínhamos estimado anteriormente. Esperamos agora 0,75 ponto percentual em novembro, 0,50 em dezembro e depois mais 0,25 no primeiro trimestre do próximo ano.

A sequência de aumentos, portanto, não deve mais terminar ao final deste ano, como imaginávamos.

A verdade é que as pressões do núcleo de inflação ainda estão muito aquecidas. Houve maior rigidez, e o Fed precisou ser mais hawkish do que as pessoas imaginavam.

Ainda assim, há muitas apostas de que o Fed começará a cortar os juros logo no primeiro semestre de 2023, por causa do risco de recessão. Qual a probabilidade desse cenário?   

Caesar MaasryTeria cuidado ao olhar para os preços de mercado. Os investidores estão sempre muito interessados ​​no risco de cauda e, obviamente, como a inflação permanece aquecida e o Fed deve apertar mais os juros, aumenta as probabilidades de um risco de cauda que se chama hard landing [pouso forçado da economia].

Ainda não acreditamos que a recessão seja algo certo. Vemos um caminho para o soft landing, mas obviamente os riscos de um hard landing aumentaram.

Qual a estratégia para o portfólio em mercados emergentes?

Optamos por uma gestão defensiva, com poucas posições compradas. As moedas emergentes parecem mais baratas hoje do que nas mínimas de 2016. Infelizmente, não temos o catalisador para fazer o pivô e reverter isso até que o mercado esteja um pouco mais convencido de que o Fed esteja no fim de seu ciclo de ajuste dos juros.  

Achamos que as ações podem cair um pouco mais de valor. Queremos estar posicionados defensivamente. Mas em alguns mercados pode haver alguma resiliência, e o Brasil é um deles.

Enxerga uma valorização de ativos brasileiros depois das eleições?

A resposta curta é sim, vejo a possibilidade disso.

Temos o dólar a R$ 5 em 12 meses, parte da visão de que o dólar enfraquece em relação a algumas moedas. O real brasileiro parece bastante barato.

Sobre o mercado de ações, há um ciclo macro e há um ciclo político.

O ciclo macro no Brasil está bem isolado no curto prazo, porque o BC, em comparação com outros bancos centrais, agiu mais cedo, elevou as taxas de forma agressiva e adequada. O BC brasileiro merece elogios por estar à frente do jogo.

No que se refere às ações, há uma relação muito clara entre os preços e as taxas de juros. Se você olhar para as taxas de juros brasileiras de cinco anos, elas estão basicamente no mesmo nível que estavam no início de dezembro do ano passado.

A taxas subiram em quase todos os outros países, subiram bastante. Mais uma vez, acho que é por causa do momento do ciclo de aumento da taxa. A continuidade da estabilidade da inflação no Brasil e uma menor volatilidade nos juros dos EUA permitiriam uma maior compressão do diferencial entre as taxas brasileiras e americanas e, consequentemente, um melhor desempenho do mercado de ações no Brasil.

Temos uma meta de 116 mil pontos ao final do ano para o Ibovespa. É um cenário muito menos negativo do que você vê em outros lugares.

A chave para alguém ser otimista em ações brasileiras é o diferencial de taxas e a dinâmica da inflação.

Sobre as eleições, os investidores estrangeiros parecem estar confortáveis ​​com o que as pesquisas indicam.

Quais outros mercados emergentes devem ser menos afetados pelo aperto monetário internacional?

Índia e Indonésia parecem atraentes taticamente, porque o quadro de inflação permanece benigno. Entre os emergentes, nossos mercados de ações favoritos são Brasil, Índia e Indonésia.

Coréia, Taiwan e, provavelmente, México estão mais expostos a mais perdas na demanda dos EUA.

Nos Estados Unidos, os juros das hipotecas voltaram aos níveis anteriores à crise de 2008. Os juros de alguns vencimentos dos títulos públicos também. O novo “novo normal” será o retorno ao antigo normal?

O que é diferente hoje do que antes da crise financeira é que a inflação é muito mais alta. O Fed provavelmente precisa apertar as condições financeiras muito mais do que você viu nos últimos 20 ou 30 anos.

O mercado está cético de que seja possível reduzir a inflação sem causar uma recessão, e essa é a tensão do momento. Acreditamos que o mercado vai precificar maiores chances de recessão, e é por isso que queremos ser uma tática defensiva.

Já tivemos uma correção de 23% no S&P 500, o que é bastante típico de um ciclo recessivo, então pode-se dizer que a volatilidade do mercado já é semelhante a recessões de curta duração.

Portanto, já estamos lidando com um hard landing de uma perspectiva de mercado.