O Grupo Elétron, que atua em comercialização de energia e geração renovável, acaba de entrar com um pedido de recuperação judicial listando mais de R$ 1,1 bilhão em dívidas, apurou o Brazil Journal.

A notícia vem após diversas tradings independentes de energia terem sofrido crises financeiras nos últimos dois anos, como a Gold Energia, America, Máxima e 2W Ecobank. Aqueles problemas respingaram em outras empresas e até reduziram a liquidez no mercado de eletricidade. 

Em seu pleito de proteção contra credores, a Elétron disse que “uma ‘tempestade perfeita’ no setor elétrico brasileiro tem gerado uma crise aguda em seus agentes”, citando nominalmente os players que pediram recuperação judicial ou extrajudicial nos últimos anos.

Os principais credores da mais recente vítima da volatilidade no mercado elétrico são a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), onde as pendências são de R$ 335 milhões, e a trading de energia do Banco ABC Brasil, com R$ 176 milhões. 

Também aparecem na lista o Banco do Nordeste do Brasil, com R$ 109 milhões a receber, a trading do BTG Pactual, com R$ 53 milhões, o Bradesco, com R$ 31 milhões, e a Cemig, com R$ 3,4 milhões, entre diversos outros nomes. 

Como principais razões para a crise financeira, a Elétron citou mudanças no cálculo dos preços no mercado de eletricidade em 2025, que passaram a “flutuar de modo muito diferente dos períodos históricos, além de sofrer um aumento brutal.”

Ela também citou cortes forçados de geração em usinas solares, o chamado curtailment, que afetaram a receita de ativos do próprio grupo e contratos de compra de energia de terceiros. 

“Fica claro que não se trata de um erro de gestão… mas de uma conjuntura que sofre todo o setor,” disse a Elétron no pedido de RJ, visto pelo Brazil Journal.

Rumores sobre a possível quebra da Elétron já rondavam o mercado há algumas semanas, e agentes do setor dizem que há mais empresas sob risco de naufrágio iminente, com os preços altos no mercado aumentando os riscos. 

Essas tensões nos bastidores têm, na prática, feito com que grandes grupos do setor restrinjam fortemente as operações com as tradings independentes, não ligadas a grandes grupos de energia ou bancos, segundo as fontes. 

Após as últimas quebras de comercializadoras, a notícia da crise na Elétron não traz impacto tão grande nos negócios, uma vez que ela não estava entre as maiores do mercado, disse um trader de energia.  “Mas preocupa principalmente pelo risco reputacional para o setor. Justo em um momento em que está para ter uma abertura do mercado livre de energia, acontece isso. Eles não tinham tanto trading, mas faziam a gestão de muitos consumidores, principalmente no Nordeste,” disse este operador.

O Governo conseguiu aprovar no Congresso no ano passado uma lei que prevê uma expansão gradual, nos próximos anos, do mercado livre de energia, um ambiente de atacado onde empresas podem negociar com comercializadoras e gestoras. 

Pela legislação, todo o comércio e indústria poderiam migrar para o mercado livre de energia em até 24 meses, e os residenciais em 36 meses. “As pessoas podem ficar com medo se tiver tanta empresa dando problema. Esse é o pior impacto,” disse uma fonte do setor.