O repórter Seymour Hersh, então com 32 anos, encaminhava-se para uma entrevista no Pentágono quando cruzou com um coronel que conhecera tempos atrás. O militar falou ao jornalista um nome, William L. Calley Jr., que, ligado a informações apuradas anteriormente por Hershey, se encaixavam naquilo que o jornalista buscava.
O fato: na manhã de 16 de março de 1968, helicópteros da Companhia Charlie pousaram em um pequeno vilarejo vietnamita, My Lai. A suspeita era de que o local abrigasse combatentes vietcongues. A ordem era atacar. Em pouco mais de três horas, a tarefa foi cumprida. Entre as vítimas, no final, nenhum combatente – e sim mulheres, idosos, crianças, alguns bebês, “pouco maiores do que um joelho adulto”, comparou o coronel.
Calley era o desvairado militar à frente daquela missão e, naquele período, final de 1969, estava sendo formalmente indiciado pelo assassinato de 109 civis vietnamitas. Com as informações colhidas, Seymour Hersh foi o único a ter o panorama completo do que havia acontecido. E também o único a publicar a história, em novembro de 1969, 60 dias depois de ter montado o quebra-cabeça e quase 20 meses depois do massacre.
Veiculada simultaneamente em 35 jornais (entre eles The Washington Post, The Boston Globe, Miami Herald, Chicago Sun-Times e The Seattle Times), a reportagem, em um primeiro momento, foi desmentida pelo Exército.
Mas o raciocínio de Hersh estava tão bem amparado que suas matérias posteriores apenas confirmariam o que os militares não tinham mais condições de negar.
A partir daí o cenário se alteraria.
As revelações de Hersh colocaram os horrores do Vietnã na sala dos americanos. A guerra, então, começaria a se encaminhar para um final melancólico e trágico para os Estados Unidos. Mesmo sem ter pisado em Saigon, Hersh descreveu o que ninguém tinha direito de duvidar. O esforço lhe rendeu pressões, traumas – e um Pulitzer.
Esta e outras histórias não menos impactantes que envolvem o núcleo de poder nos EUA estão no centro de Seymour Hersh: Em Busca da Verdade (Cover Up, 2025), um documentário dirigido por Laura Poitras e Mark Obenhaus e disponível na Netflix.
Quando abordou Hersh com a ideia de filmá-lo, em 2005, Laura, à época com 41 anos, estava envolvida com My Country, My Country, um filme sobre a ocupação norte-americana no Iraque.
Seu maior mérito foi superar a eterna desconfiança do jornalista com tudo e com todos.
Depois de muita paciência e insistência, o que a documentarista capta é o cotidiano de um dos jornalistas mais confiáveis e importantes do mundo e que, aos 88 anos, goza de prestígio e reconhecimento por sua luta constante, obstinada e muitas vezes solitária. Uma vitória da insistência sobre o comodismo.
Seymour Myron “Cy” Hersh nasceu em Chicago, em 1937, numa família de judeus lituanos que emigraram para os Estados Unidos no começo do século passado. Começou sua carreira como repórter policial no City News Bureau em 1959. Quatro anos depois, tornou-se correspondente da Associated Press em Chicago e Washington.
Na capital americana, aproximou-se de Isidor Feinstein Stone, o lendário jornalista independente, fundador e dínamo do I. F. Stone’s Weekly, de quem Hersh assimilou estilo e conhecimentos para enfrentar a máquina burocrática.
A premissa compreendida pelos dois é de que qualquer governo tudo faz para mascarar verdades incômodas. Governos mentem.
Desconfiado, Hersh começou a notar discrepâncias entre o que apurava e o que era divulgado oficialmente. O modus operandi para driblar essas adversidades é deixar os demais colegas anotando as versões narradas em longas, previsíveis e enfadonhas coletivas, e ir atrás das informações que ninguém tem.
A recompensa talvez não seja imediata, mas o que muitos repórteres e editores foram se dar conta anos depois Hersh já havia revelado no calor dos acontecimentos.
O Vietnã, para ele, não foi um caso isolado. Depois de My Lai, ele ainda escarafunchou assuntos escabrosos como a crise de Watergate, as artimanhas de Henry Kissinger, a renúncia de Richard Nixon, o golpe no Chile, a captura e morte de Osama Bin Laden e a constante atuação da CIA.
Em 2004, Hersh voltou a ter repercussão mundial quando denunciou as torturas e abusos de prisioneiros em Abu Ghraib após a invasão do Iraque pelos Estados Unidos.
Laura flagra ainda o habitat natural de Hersh: seus papeis acumulados, suas anotações aparentemente caóticas, suas constantes conversas ao telefone, suas informações que só ele sabe encontrar. Seu método de trabalho é solitário – talvez não por opção, apenas pela crença de que dessa maneira sua atividade possa render melhor.
Mas apesar da admiração pelo objeto de estudo, Laura não fez um filme chapa-branca. Em certo momento, Hersh se irrita quando ela revela detalhes de suas investigações e chega perto de identificar fontes. Laura investiga o investigador. Traz revelações. Os papéis se invertem. Hersh luta para proteger seus informantes.
É um dos momentos cruciais do documentário. As identidades não podem ser escancaradas porque as informações vieram sob condição de anonimato. E para Hersh o compromisso não se estanca com o fim da reportagem. É para sempre.
Na construção do documentário, Laura age de forma similar a Hersh. Investiga, compara, deduz, conclui. Ele se mostra desconfortável porque sabe que ao repórter cabe mais ouvir do que falar.
Para Hersh, a confiança nas fontes é inegociável, e quase sem a necessidade de pensar no off, até porque é obrigação de quem divulga bancar a veracidade das informações. Quem tem credibilidade e é conhecido por cumprir acordos consegue se cercar dos melhores relatos e comprovar qualquer fato.
Um dos momentos mais significativos de Cover Up se dá com a reprodução da conversa do ex-presidente Richard Nixon com Kissinger, seu secretário de Estado. Na conversa, eles classificam Hersh como “aquele filho da puta, que sempre está certo”.
Melhor reconhecimento, impossível.











