LISBOA — Ao ser eleito deputado pela primeira vez em 2019, André Ventura tinha acabado de criar o partido ultraconservador Chega. Na campanha, o então candidato disse que em oito anos seu partido se tornaria a maior força política de Portugal.
Não errou por muito.
Com 60 deputados, o Chega tem hoje a segunda maior bancada na Assembleia (a Câmara dos Deputados de Portugal), e agora Ventura se prepara para disputar o segundo turno da eleição presidencial deste domingo contra António José Seguro, do Partido Socialista (PS).
Se eleito, Ventura garante que “não será o presidente de todos os portugueses,” apenas dos “cidadãos de bem”.
Este tipo de discurso rachou a direita nas duas margens do Tejo — e, se as pesquisas estiverem certas, Ventura vai naufragar antes de chegar à praia.

Se por um lado sua retórica contra os imigrantes e de endurecimento nas leis de segurança pública atrai cada vez mais eleitores conservadores e insatisfeitos com o “sistema”, por outro ela ainda é rejeitada pela centro-direita liderada pelo Partido Social Democrata (PSD), a sigla do primeiro-ministro Luís Montenegro que controla a maior base eleitoral do país.
Caciques do PSD preferiram apoiar publicamente o candidato do PS — um partido de esquerda considerado ultrapassado até pelos progressistas — em vez de se associar a Ventura, sob o argumento de que há certas linhas que não devem ser cruzadas.
Isso quer dizer que, no curto prazo, as forças de centro devem conseguir impedir que Ventura chegue à presidência e ganhe o poder de vetar leis e dissolver o Parlamento.
Mas, no longo prazo, ainda não está claro onde o Chega pode chegar.
“Se Ventura obtiver no segundo turno mais que os 32% que o primeiro-ministro Luís Montenegro conseguiu nas eleições parlamentares do ano passado, ele poderá se declarar o verdadeiro líder da direita portuguesa,” António Costa Pinto, um cientista político do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, disse ao site Politico.
O Chega já canibalizou, por exemplo, o partido democrata-cristão Centro Democrático Social – Partido Popular (CDS-PP), um dos mais tradicionais do país.
Além disso, a união dos moderados contra Ventura tende a fortalecer seu discurso antissistema, disse Costa Pinto, ainda que o mesmo não condiga com a sua história.
Nascido em 1983 na cidade de Sintra, a 30 quilômetros de Lisboa, André Ventura é filho de um comerciante e de uma auxiliar administrativa.
Ainda jovem, interessou-se pelo catolicismo e pela política. Cursou um ano de seminário “antes de se apaixonar” por uma mulher e ingressou na militância do PSD, partido do qual só saiu para fundar o Chega.
Depois de rejeitar a batina, o jovem cursou Direito na Universidade Nova de Lisboa e se tornou doutor em Direito Público pela Universidade de Cork, na Irlanda.
Em sua tese de doutorado, analisou o fenômeno do “populismo penal”, que classificou como um mecanismo em que os políticos “utilizam uma vontade generalizada de punição do público em benefício próprio”, algo semelhante ao que pratica hoje em dia.
Ainda na área do direito, Ventura foi professor em duas universidades de Lisboa — mas sua fama não veio daí.
O político ganhou notoriedade ao se tornar comentarista do popularesco canal de televisão CMTV, onde falava com desenvoltura e linguagem simples — algo raro para a TV portuguesa — sobre política, justiça e, principalmente, futebol.
Nas tertúlias esportivas da CMTV, Ventura defendia ardentemente as cores do Benfica, tendo até faltado a um debate para comentar um jogo do clube. Foi como “a voz dos benfiquistas” que ele estabeleceu sua persona de homem do povo e outsider que diz “as verdades inconvenientes”.
Em 2017, candidatou-se pelo PSD à presidência da Câmara Municipal de Loures, na Grande Lisboa. Perdeu, mas chamou a atenção do eleitorado ultraconservador com falas discriminatórias contra a comunidade cigana.
Na época, até chegou a rejeitar o apoio da extrema-direita. No entanto, sem receber o destaque que sentia merecer no PSD, deixou o partido em 2018 e fundou o Chega, abraçando a pauta “conservadora nos costumes e liberal na economia” que dominava o Ocidente.
Depois de ser o único deputado eleito pelo partido nas eleições de 2019, Ventura emplacou 60 parlamentares em 2025, construindo o segundo maior bloco da Assembleia portuguesa atrás do PSD.
Desde a sua fundação, a principal bandeira do Chega é o discurso anti-imigração, ecoando uma onda que varre vários países do hemisfério norte e ignorando que os estrangeiros são hoje uma parte essencial da força de trabalho em Portugal.
Imigrantes de países como Bangladesh são alvos contumazes de Ventura e companhia, que desejam estabelecer programas de deportação, cotas migratórias e já falaram até em criar “planos de confinamento” para comunidades específicas.
O Chega também já defendeu, no âmbito da segurança pública, uma revisão constitucional que permita a aplicação de penas como trabalho obrigatório para presos condenados por “crimes graves”; e castração química (ou até física) em casos de estupro.
Na economia, o partido se diz a favor de aumentar aposentadorias e pensões e de acabar com o escalonamento do imposto de renda.
Se eleito presidente, Ventura promete ampliar os poderes executivos do cargo (ou até abolir a figura do primeiro-ministro), vetar leis que vão contra os “portugueses de bem”, e reduzir o número de deputados de 230 para 100.
Ventura diz renegar António Salazar, o ditador que ficou quase 40 anos no poder em Portugal. Na prática, adotou o lema “Deus, Pátria e Família” de Salazar, acrescentando a palavra “trabalho”.
Além de suas visões progressivamente conservadoras e do passado televisivo, Ventura, que é casado e não tem filhos, também é conhecido por sua curiosa produção bibliográfica.
Em 2009, antes de ingressar na política, escreveu o romance A Última Madrugada do Islã, no qual ecoa a teoria da conspiração de que o ex-líder da Palestina Yasser Arafat era gay e morreu de AIDS.
Já em 2016, publica 50 razões para mudar para o Sport Lisboa e Benfica, um livro em coautoria com uma taróloga chamada Maya em que explica por que os leitores devem adotar o seu time de coração.











