Certa vez, um expositor disse a Sebastião Salgado que “brasileiro não gosta de índio.”

Verdadeira ou falsa, simplista ou não, a frase ficou na cabeça do fotógrafo, e o motivou a gerar uma maior compreensão sobre os verdadeiros guardiões da floresta.

O resultado é Amazônia – a mostra que abre nesta terça no SESC de São Paulo e em julho no Museu do Amanhã, no Rio – e o objetivo é “celebrar o que ainda resta para proteger,”  Sebastião me disse semana passada durante a montagem da mostra.

Seguindo o sucesso de Gênesis (visto por mais de 1,5 milhão de pessoas no mundo), “Amazônia” conta com 205 fotografias inéditas no Brasil e ambientação sonora do pioneiro da música eletrônica, Jean-Michel Jarre, a partir dos sons da floresta. O projeto levou sete anos para ser concluído.

A curadoria é de Lélia Wanick Salgado, a grande mulher por trás do grande fotógrafo, com quem é casada há 58 anos. 

Artista e curadora moram em Paris há mais de meio século. Sebastião se formou em economia pela USP  e fez seu doutorado na Université de Paris, mas só virou fotógrafo em 1974, quando começou a documentar as condições dos índios da América Latina.

Em 1979, passou a fazer parte da Magnum, a célebre cooperativa de fotógrafos fundada por Robert Capa e Henri Cartier-Bresson, onde ficou por 15 anos até criar, com Lélia, a Amazonia Images e, mais tarde, o Instituto Terra, responsável pelo reflorestamento, cultivo de mudas em extinção e capacitação de jovens ecologistas. Este trabalho foi objeto do documentário O Sal da Terra, dirigido por Wim Wenders e pelo filho do fotógrafo, Juliano Salgado, e indicado ao Oscar em 2015.

Tião e Lela, como carinhosamente se tratam, mantêm uma comunhão profissional afinada. Muito já se sabe sobre ele, mas pouco se sabe sobre ela – sua sócia, curadora, editora, cenógrafa e produtora.

“Lélia é responsável pela idealização, conceito e apresentação do meu trabalho desde o começo da minha carreira,” disse o marido e cúmplice. “Ela é dona de um extremo bom gosto e capacidade de síntese, e participa de todas as etapas da criação. Com uma energia invejável para seus 75 anos, é muito bonita e plena.”

Lélia, que já produziu mais de 300 exposições pelo mundo, explica a cenografia enquanto decide o local onde ficarão os textos. “As pessoas não se dão conta do enorme trabalho envolvido,” desde a escolha das fotos dentre milhares, ao local da exposição, a música e o audiovisual que completam a mostra até a concepção dos livros – são muitos detalhes que demandam atenção. O conjunto da obra faz da curadoria um espetáculo à parte.

[Curiosidade: a edição de colecionador do livro Amazônia, editado pela Taschen, pesa 30 quilos e tem 1,40m de largura. Apelidado pela editora de “sumô”, o livro vem acompanhado de uma mesa desenhada pelo arquiteto Renzo Piano, que fez o Pompidou, em Paris.] 

Além do SESC, foi organizado um concerto especial da sinfonia “Floresta Amazônica”, de Villa-Lobos, com projeção de fotografias de Sebastião na Sala São Paulo e no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, previsto para o mês de maio.

Até lá os visitantes poderão aproveitar as duas salas do SESC com imagens acompanhadas da música Erosão, de Villa-Lobos, e outra sala por uma composição de Rodolfo Stroeter.

No final, pergunto a Lélia como um casal que vive e trabalha junto permanece tão harmônico depois de 58 anos. 

“Temos o mesmo objetivo na vida. Podemos discordar de algumas coisas menores pelo caminho, mas são os mesmos valores. Eu nasci militante, no sentido de querer convencer as pessoas de alguma coisa que eu acredito. Achei alguém igual a mim para viver.”