Foi um dia tenso no mundo cripto – ou seja, praticamente um dia como outro qualquer.

Quando a poeira baixou, a FTX – uma exchange de criptomoedas que havia sido avaliada em US$ 32 bilhões há menos de um ano – terminou vendida para a Binance (uma exchange concorrente) em meio a resgates em massa que levaram a uma crise de liquidez.

O valor da transação não foi revelado, mas dada a situação, é provável que tenha ficado próximo de zero. A Binance chegou a dizer que, como ainda precisa fazer uma due diligence, tem liberdade para voltar atrás no negócio. 

A FTX sofreu com uma corrida repentina de seus clientes: apenas nas últimas 24 horas, a exchange teve resgates líquidos de quase US$ 1 bilhão, com grandes investidores institucionais optando por sacar quantias relevantes da plataforma, segundo o The Wall Street Journal.

A quebra de confiança começou com uma matéria do site CoinDesk na semana passada, mas foi potencializada por Changpeng Zhao, o “CZ”, o fundador da Binance.

A reportagem do CoinDesk dizia basicamente que o balanço da Alameda Research (uma companhia irmã da FTX que opera com trading de criptos) era composto basicamente de FTT, um token ilíquido criado pela FTX. (Antes do crash, o market cap do FTT era de apenas US$ 3 bilhões). 

No fim de semana, “CZ” jogou mais lenha na fogueira: disse num tweet que pretendia vender US$ 580 milhões em tokens FTT nos próximos meses. A Binance – um dos primeiros investidores da FTX – havia ganhado os tokens ao vender sua posição na empresa no ano passado. 

“Demos apoio lá atrás, mas não vamos fingir amor depois do divórcio,” tuitou CZ no domingo. “Não somos contra ninguém. Mas não vamos ajudar pessoas que fazem lobby contra outros players da indústria pelas suas costas.”

Já na segunda-feira, o fundador da FTX, Sam Bankman-Fried, respondeu dizendo que a Binance estava tentando “ir atrás de seu rival com falsos rumores.” 

Ele disse ainda que a FTX estava “bem” e tinha mais de US$ 1 bilhão em excesso de caixa para cobrir qualquer necessidade de liquidez. 

Os ‘rumores’ desencadearam uma onda de saques – e, aparentemente, o tal excesso de caixa nunca existiu. 

Fundada em 2019, a FTX é o filho mais conhecido de Bankman-Fried, o bilionário de 30 anos que fez fortuna com operações de arbitragem de criptomoedas na Alameda Research. 

SBF, como ele é conhecido, tem se posicionado como o “salvador” do mercado cripto. 

Em agosto, ele disse que a FTX havia separado US$ 1 bilhão – que ironia – para resgatar companhias de cripto passando por problemas de liquidez.  De lá para cá, SBF comprou participações relevantes em companhias como a BlockFi e a Voyager Digital.

Além de SBF, a FTX tem outros nomes de peso por trás. Numa rodada privada em janeiro, o Temasek e a Sequoia Capital injetaram US$ 400 milhões na companhia a um valuation (hoje cômico) de US$ 32 bilhões. 

A crise da FTX colocou fim a meses de relativa calmaria no mercado de criptomoedas, depois da quebra da Luna e da TerraUSD em maio. (LINK)

Todas as principais criptos despencaram hoje, com o bitcoin perdendo 11% de seu valor de mercado. Já o token da FTX, o FTT, perdeu quase um terço do valor, mas se recuperou um pouco depois do anúncio do resgate da Binance. 

Para CZ, a compra da FTX aumenta ainda mais sua dominância no mercado cripto, alargando o gap entre a Binance e concorrentes como a Coinbase. 

Já para SBF, a transação é um plot twist inesperado: de salvador do mercado cripto, ele virou o resgatado.