O Fórum Econômico Mundial e a Fundação Schwab reconheceram hoje cedo o brasileiro Celso Athayde como o Empreendedor de Impacto Social do ano. 

Celso Athayde tem 58 anos e foi criado na favela do Sapo, na zona oeste do Rio de Janeiro. Até os 16 anos, já havia morado em três favelas, em abrigos públicos e na rua. E foi na rua, em meio à comunidade, que ele entendeu que “o morro não tem vez” – mas tem enorme potencial. 

Celso enfrentou os incontáveis preconceitos contra os favelados e os negros, e foi capaz de identificar o que poucos viam: na favela havia uma força que, devidamente canalizada, seria capaz de transformar a vida de milhões de brasileiros.

Mas era preciso mais que vontade, era necessário usar de criatividade e fazer parcerias. A criatividade, Celso percebeu nos campos da cultura e do esporte, em especial na música de rua das favelas brasileiras. 

Estimulado pelos músicos populares, especialmente o pessoal do hip-hop, ele começou a juntar gente boa ao seu redor e a criar instituições que hoje são reconhecidas pelo mundo.

Junto com companheiras como Tamires Sampaio, líder da Frente Nacional Antirracista e de companheiros como Preto Zezé, Celso fundou a Central Única das Favelas (CUFA), com o objetivo de conscientizar a população das favelas – especialmente os jovens – sobre os problemas sociais e estimulá-los a empreender na busca de soluções para as dores de todos.

Não ficaram nisso. Há quase 10 anos, o mesmo grupo, Celso Athayde à frente, fundou a Favela Holding, um consórcio de 24 companhias voltadas à inclusão social e ao empoderamento econômico da população que vive em favelas.

Celso jamais se conformou com a simplificação grosseira que faz parecer que as favelas são áreas carentes que se definem exclusivamente pelo que não têm.

Essa visão pressupõe que alguém de fora dela será capaz e responsável pela inclusão dessa população. 

As lideranças da CUFA enxergam o potencial e repetem os versos do poeta Zé Keti, também ele um homem de favela: “o morro não tem vez, mas o que ele fez já foi demais, e olhem bem vocês, se derem vez ao morro toda a cidade vai dançar.”

O prêmio concedido hoje mostra que o mundo percebe que as lideranças da Central Única das Favelas estão certas e reconhece que favela não é só carência, é também potência –  uma frase cunhada pelo Celso. 

E nós brasileiros, seus concidadãos, o que achamos disso?

Nosso consenso, infelizmente, ainda não vai além de reconhecer que a desigualdade e a pobreza são os mais graves problemas do Brasil.

Olhamos envergonhados e sem saber explicar como um País com enormes potenciais não consegue melhorar a vida da maioria da população.

O Fórum Econômico Mundial está nos chamando atenção para caminhos que já estão sendo desbravados por alguns dos nossos. As ações da CUFA e da Favela Holding já alcançam mais de 15 milhões de pessoas em vários estados brasileiros.

Como poderíamos usar esse exemplo para enfrentar nossa vergonhosa desigualdade social e combater a endêmica pobreza?

A primeira lição é que nada poderá ser feito de cima para baixo, ignorando a existência de iniciativas sociais da cidadania como a CUFA, a Favela Holding e tantos outros excelentes exemplos que temos no País.

Segunda lição: os vários organismos de estado, em todos os seus níveis, devem adotar políticas sociais baseadas em evidências, com recursos adequados e metas associadas para resolver esses problemas.

O populismo não resolve essas mazelas e, pior, delas se alimenta. Por essa razão, temos que apreender a construir respeitosas alianças e parcerias entre os movimentos sociais, o poder público e a iniciativa privada, como mecanismo de solução dessa intolerável realidade de discriminação e descaso.

Os prêmios e reconhecimentos públicos têm uma importância que vai bem além da justa homenagem a pessoas que fazem enorme diferença. Eles nos chamam atenção para quem está, de fato, mudando o Brasil para melhor.

Milton Seligman é professor do Insper, Global Fellow do Woodrow Wilson Center’s Brazil Institute e ex-ministro da Justiça.