Quem já teve conta conjunta conhece a dor de cabeça: ou você não pode fazer nada sem a autorização do outro titular ou, no extremo oposto, a conta libera tudo (e, depois de uma briga, o primeiro que fizer o Pix fica com o dinheiro).

Problemas dessa natureza fizeram com que a conta conjunta nunca deslanchasse no Brasil: elas respondem por menos de 1% do total de contas bancárias, e o Banco Central parou há alguns anos de reportar os números, de tão insignificante que a participação se tornou.

Agora, uma nova startup está tentando ressuscitar o conceito de conta conjunta — apostando numa terceira via.

Fundada no ano passado, a Cumbuca está trazendo para o Brasil o modelo conhecido como “multiplayer banking”: cada um dos usuários tem uma conta individual, mas todos podem habilitar permissões coletivas.

Para ilustrar: imagine que uma pessoa coloque R$ 1.000 numa conta da Cumbuca e outra pessoa coloque R$ 1.000 na mesma conta. Inicialmente, cada uma das pessoas só poderá movimentar os R$ 1.000 que colocou, mas, se quiser, uma poderá habilitar a outra a movimentar os seus R$ 1.000.

“Os usuários podem personalizar tudo,” Daniel Ruhman, o fundador, disse ao Brazil Journal. “Podem habilitar para que o uso do seu dinheiro fique limitado a gastos de alimentação, por exemplo, ou liberar apenas uma parte do dinheiro que colocou.” 

Para financiar os planos, a startup acaba de levantar uma rodada de seed money com um grupo de investidores-anjo e fundos que inclui a Verve Capital, um dos primeiros investidores do Rei do Pitaco; Renato Freitas, um dos fundadores da 99; Fernando Gadotti, fundador do DogHero; e Pedro Sirotsky, da Barrah/B1. 

Alguns meses antes, a Cumbuca já tinha conseguido um cheque de US$ 125 mil com o Y Combinator. 

O modelo da Cumbuca só é possível por conta do open finance, que desde outubro criou a figura do ‘iniciador de pagamentos’, permitindo que os usuários deem permissões para outras pessoas ou empresas mexerem na sua conta. 

“Na prática, o iniciador de pagamentos vai ser uma forma de você se conectar na conta bancária de alguém sem ter a custódia,” disse Daniel.

Por enquanto, o Banco Central deu a licença de iniciador de pagamentos para apenas três empresas — incluindo o Whatsapp. A Cumbuca já entrou com o pedido e espera receber a licença no segundo semestre. 

Até agora, a empresa estava operando em beta com um grupo de 100 famílias, que estão deixando a custódia de seu dinheiro com a fintech. O lançamento oficial aconteceu hoje, mas ainda com o modelo de custódia.

“O que fazemos hoje é abrir duas contas e o usuário dá o permissionamento entre elas. No futuro, o usuário vai pagar uma conta de luz de R$ 300, por exemplo, e a gente vai puxar R$ 150 de uma conta e R$ 150 de outra, sem o usuário ter que deixar a custódia com a gente,” disse o fundador. 

A Cumbuca funciona num modelo de assinaturas e vai cobrar R$ 19,90 por mês por cada grupo de usuários. 

A gestão da conta conjunta é só o início da história. A visão de longo prazo da Cumbuca é se tornar o app da família, ajudando não apenas a dividir os gastos e organizar as finanças, mas tudo que envolva decisões da casa.

“Pode ter tudo: podemos organizar o pedido do mercado, do pet, a poupança coletiva, a viagem da família e até o calendário dos pais,” disse ele. “Nos EUA, tem um app que junta o calendário do pai, da mãe e do filho e já mostra quem é melhor para levar o filho para a natação naquele dia e horário específico.”

A Cumbuca é o segundo negócio de Daniel, que programa desde criança. Com 14 anos, ele criou um aplicativo que atualizava a agenda telefônica do usuário, adicionando o número 9 na frente. 

O app resolveu o problema de muita gente que ia ter que atualizar a agenda manualmente — e rendeu a Daniel US$ 20 mil com os downloads da App Store.

Foi esse dinheiro que financiou os primeiros meses da Cumbuca, antes dela entrar no YC.