Howard Marks fez sua carreira comprando ativos na bacia das almas, e está acostumado com crises agudas que se resolvem logo.

Mas numa teleconferência com investidores da XP hoje à noite, o fundador da Oaktree disse que dessa vez é diferente: 

“Em todas as crises anteriores, as pessoas voltaram ao normal depois de um certo período de tempo, mas temo que com essa seja diferente: ou os empregos vão desaparecer porque algumas empresas ficam fracas, ou as pessoas não conseguirão sair para transacionar.”

Outra preocupação dele: “O governo está distribuindo dinheiro para substituir os salários e as receitas das empresas, mas nós precisamos do que as empresas produzem… Precisamos que as fábricas estejam operacionais para termos o que precisamos para nossas vidas. Não é suficiente dar dinheiro às pessoas.”

Segundo ele, essa ‘chuva de dinheiro’ que os governos estão injetando na economia pode ter consequências sérias. 

“Ninguém sabe a resposta disso, porque é algo que nunca vimos antes. Mas minha preocupação é que um período de ‘chuva de dinheiro’ leve a um período de hiperinflação e baixo valor do dólar. Quando há um choque de oferta e uma ‘chuva de dinheiro’ como a que vemos agora, há uma possibilidade de um aumento grande na inflação.”

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Marks, que começou a investir o capital da Oaktree nas primeiras semanas de março, vê oportunidades nos setores de petróleo e cruzeiros:

“Quando a atividade do mundo contrai, as pessoas consomem menos petróleo, o que contribui para a queda de preço, além da guerra de preços da Arábia Saudita com a Rússia. Então os investidores querem sair de qualquer dívida relacionada a petróleo e isso pode criar boas oportunidades para nós. Outra área é a de cruzeiros, que tiveram experiências muito ruins nessa crise e já tem gente falando que ninguém nunca mais vai fazer cruzeiro na vida…”

A entrevista completa está no Youtube da XP.

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A crise chegou para todos, mas não congelou a Klabin, que anunciou a aquisição dos ativos de papel para embalagens e ondulados da International Paper no Brasil, consolidando um dos segmentos mais fragmentados do mercado. 

A compra adiciona os 6,6% de market share da IP aos quase 18% que a Klabin tem no mercado.  A unit da companhia subiu 5% na B3.

Apesar dos ativos da IP já estarem à venda há algum tempo, o timing e o valuation surpreenderam o mercado. A Klabin vai pagar R$ 330 milhões, um múltiplo de 4 vezes o EV/EBITDA pós-sinergias, enquanto a empresa negocia a 9,1x na Bolsa. 

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O governo chinês voltou atrás e anunciou hoje que vai fechar novamente todos os pontos turísticos e proibir qualquer tipo de aglomeração em Shanghai. 

A medida engloba 25 atrações turísticas em espaços fechados e 37 em áreas externas, entre elas o observatório da Torre de Shanghai, o segundo maior prédio do mundo e que havia reaberto as portas há apenas duas semanas. 

A leitura geral foi de que a medida demonstra preocupação com uma possível segunda onda de infecções.  A China, que antes criticava países por fecharem fronteiras, agora só aceita a entrada no país de cidadãos ou detentores de green card.  A medida foi decretada quarta passada e entrou em vigor no sábado.

Segundo Rodrigo Zeidan, economista brasileiro que mora em Shanghai, algumas empresas dividiram suas equipes em dois times e estão escalonando o trabalho presencial em dois dias da semana.

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Nestes tempos de guerra, diversas fabricantes têm adaptado suas instalações para a produção de respiradores.

Nos Estados Unidos, GM, Tesla, Toyota e Ford já começaram a produção, tentando suprir um déficit que só tende a crescer conforme aumentam os casos confirmados. Na Europa, o governo britânico vai começar nesta semana o ‘Ventilator Challenge’, um movimento para impulsionar a produção de respiradores e que já conta com o apoio do parque industrial da Airbus, Rolls-Royce e Siemens. 

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No Brasil, a WEG seguiu o exemplo: a fabricantes de motores industriais disse hoje que vai usar suas fábricas em Santa Catarina para produzir 50 respiradores por dia em parceria com Lentsung, uma das maiores fabricantes do produto no País. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil tem 65 mil respiradores, cerca de três aparelhos para cada 10 mil habitantes. É de perder o fôlego…

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Em meio à corrida de empresas por caixa, os maiores bancos dos Estados Unidos estão começando a desencorajar mesmo as companhias investment grade a sacar suas linhas pré-existentes.

Segundo a Bloomberg, a questão não é tanto de falta de liquidez, mas de rentabilidade. Abertas durante o bull market, muitas dessas linhas têm uma rentabilidade muito baixa para os bancões e, em alguns casos, até negativa funcionando mais como uma forma de fomentar relacionamentos.

Mas o temor de liquidez existe sim. Bancos como JP Morgan, Bank of America, Citi e Wells Fargo podem ter dificuldade se todas as empresas sacarem as linhas ao mesmo tempo.

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A Restaurant Brands International, dona do Burger King e da Popeyes Louisiana Kitchen, disse hoje que espera um impacto  “material” em seu negócio dado o fechamento das lojas, cuja duração ninguém consegue estimar.

O CEO Daniel Schwartz disse que a companhia terminou o ano com cerca de US$ 1,5 bilhão em caixa e recentemente sacou uma linha de crédito de US$ 1 bi. Os US$ 2,5 bilhões em caixa dão flexibilidade, mas o estrago vai ser grande.

No Brasil, o Burger King caiu 5% em meio a um mercado em alta.

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Em meio à crise, a Anheuser-Busch Inbev conseguiu vender € 4,5 bilhões em títulos de dívida no mercado, emitindo bonds com vencimento em 2027, 2032 e 2040. As taxas foram 2,1%, 2,87% e 3,7%, respectivamente.

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O único bull market que resta talvez seja a pornografia.

A assinatura de sites pornográficos, aplicativos de jogos, cursos online e streaming disparou no País nas últimas semanas.

Sites como Brasileirinhas, Sexlog e Netcartas viram suas assinaturas aumentar em quase 40% em março sobre o mês anterior, segundo dados da Vindi, uma fintech que processa pagamentos recorrentes. Antes, as assinaturas cresciam a uma média de 8% ao mês.