Começou com o vinho, mas agora a queda no consumo pegou em cheio as bebidas de maior teor alcoólico – e as multinacionais do setor não sabem o que fazer com os estoques encalhados.

“O acúmulo é sem precedentes,” disse ao Financial Times o analista Trevor Stirling, da Bernstein.

Na Diageo – fabricante de marcas como Johnnie Walker, Smirnoff, Tanqueray e Don Julio – o total de bebida estocada como percentual das vendas anuais subiu de 34% no final de 2022 para 43% ao final de 2025.

Na francesa Rémy, de conhaques, as reservas de bebidas nos tonéis de envelhecimento somam € 1,8 bilhão – número que equivale ao dobro das vendas anuais.

O fim da pandemia levou a um pequeno boom nas vendas de bebidas alcóolicas. Parte do desequilíbrio atual entre oferta e demanda é, portanto, ressaca dos excessos daquele período. Pesou também o aumento no custo de vida, reduzindo a folga no orçamento para a compra de bebidas mais sofisticadas.

Mas não é só isso.

Ano após ano, os números internacionais vêm mostrando uma tendência de redução no consumo de bebidas alcoólicas nos países ricos – particularmente entre os mais jovens – bem como mudanças de hábitos em favor de práticas mais saudáveis.

Uma pesquisa do Gallup publicada no ano passado mostrou que o percentual de americanos adultos que consomem álcool caiu para 54% – o menor índice desde 1939, quando o levantamento anual começou a ser feito. No grupo de pessoas entre 18 e 34 anos, o percentual é ainda menor: 50%.

Ainda segundo a pesquisa, pela primeira vez a maioria dos americanos – 53% dos ouvidos – diz que beber moderadamente faz mal à saúde, praticamente o dobro do verificado dez anos atrás. Apenas 6% disseram que faz bem.

Um estudo da OCDE mostrou que o alcoolismo continua a ser um problema sério de saúde pública em muitos dos países associados. Mas o consumo vem caindo ao longo da última década.

Mais recentemente, a indústria da bebida tem sentido os impactos da guerra tarifária de Trump e das drogas GLP-1, que reduzem não só o apetite mas também a vontade de beber.

As multinacionais vinham enfrentando essas tendências de queda no consumo investindo na diversificação de marcas e na promoção das vendas em mercados emergentes. Tentam criar ainda novas modas e tendências – drinks com Campari, single malts exclusivos e tequilas premium anunciadas por celebridades de Hollywood. São estratégias de marketing que funcionam apenas por um tempo.

A frustração com o consumo na China tem atingido diversas empresas do setor. Recentemente, por exemplo, o país ordenou um basta à gastança das autoridades com bebidas de luxo e impôs uma tarifa de 34,9% aos conhaques europeus.

A Diageo acaba de revisar para baixo sua estimativa de vendas e citou, entre outros fatores, as “políticas anti-extravagância” dos chineses. Mas a gigante britânica também sente o tombo na demanda americana e de muitos mercados emergentes. A ação negocia na mínima de 11 anos.

A história não é diferente para a italiana Campari, nem para as francesas Pernod Ricard e Rémy Cointreau, ou ainda para a australiana Treasury Wine Estates: os papéis de todas estão no patamar mais baixo da última década.