Quando ministrava o curso de ‘economia do meio ambiente’ na Fundação Getúlio Vargas, Gesner Oliveira deu de cara com um problema típico de países subdesenvolvidos: para dar as aulas, era obrigado a usar livros-texto estrangeiros — que, naturalmente, não dialogavam com a realidade brasileira.

Na falta de uma bibliografia local, Gesner decidiu criar sua própria. 

Cinco anos depois, nascia “Nem negacionismo nem apocalipse” (292 páginas, Editora Bei, R$ 75), lançado no mês passado e escrito em parceria com Artur Villela Ferreira, que foi aluno de Gesner no curso e hoje é seu colega na consultoria GO Associados.

O objetivo do livro é ir além da sala de aula. 

“Tem um monte de tomadores de decisão que estão sendo colocados quase à força diante do tema do meio ambiente,” Gesner disse ao Brazil Journal. “Queremos que o livro seja uma espécie de guia para esses empresários, investidores e até órgãos governamentais.”

Na primeira parte do livro, os autores apresentam conceitos ligados à economia do meio ambiente, desde ‘o que é sustentabilidade’ até finanças comportamentais e defesa da concorrência. Na segunda, falam das tendências do meio ambiente com um recorte específico para cada setor da economia, do elétrico até a agricultura e os transportes. 

Gesner e Artur conversaram com o Brazil Journal sobre a agenda de sustentabilidade no Brasil. 

Uma das discussões que o livro traz é sobre como conciliar o desenvolvimento econômico com a preservação do meio ambiente. Como conciliar duas agendas que às vezes parecem até contraditórias?

Nossa tese é que o meio ambiente é o maior diferencial competitivo que o Brasil tem. O caminho para o desenvolvimento do Brasil é ser uma potência ambiental. O Brasil não é um país de software, de hardware, de indústria. O que o Brasil pode ser comparado com as grandes economias é um país sustentável.

Então, nossa tese é que o Brasil não deveria falar: ‘eu vou ser carbono neutro em 2060 junto com a China’. A forma mais razoável do Brasil se tornar uma potência ambiental é dizer que vai ser carbono neutro 20 anos antes de todo mundo, em 2035, 2040. E a partir de agora tudo que você comprar do Brasil tem uma pegada ambiental zero ou negativa. 

Falar: ‘China, pra você cumprir sua própria meta de neutralidade, você tem duas opções, pode comprar soja dos EUA ou do Brasil. A soja dos EUA tem uma pegada ambiental maior que a do Brasil. Então, se você comprar de lá, você vai ter que acelerar sua transição de eletricidade. Se você comprar do Brasil, sobra dinheiro para investir em outros setores.’

Então, na visão de vocês, o Brasil só vai conseguir ter desenvolvimento se preservar o meio ambiente?

O meio ambiente é onde o Brasil tem mais capacidade de gerar valor. Na economia chamamos isso de vantagem comparativa. E, neste caso, é uma vantagem quase que absoluta. Nenhum outro país tem o  potencial que temos. 

Algumas pessoas falam que o Brasil já é uma potência ambiental, mas isso ainda não é realidade, porque toda essa pujança ambiental brasileira não se reflete em renda e bem-estar. As emissões por unidade de PIB do Brasil são iguais às da Alemanha. Você tem uma matriz energética limpa, mas você não está ganhando dinheiro com isso. Você tem um monte de Amazônia preservada, mas você não está ganhando dinheiro com isso. Isso não está se refletindo em renda e bem-estar. 

Fazemos um paralelo às vezes com o petróleo. Nos anos 90, o Brasil não era um país relevante na indústria petroquímica. Já tinha o potencial, o pré-sal já existia, mas não tinha tecnologia para usar. É a mesma coisa hoje na área ambiental. O Brasil tem o potencial ambiental, mas não tem tecnologia (algumas técnicas, outras financeiras, outras sociais) para aproveitar esse potencial. 

Como vocês enxergam a agenda ambiental no Brasil de hoje. O País retrocedeu nos últimos anos, com os negacionistas ganhando mais espaço no debate público? 

Isso é inegável. Independente de posição política e partidária, é inegável que houve um retrocesso, pelo simples fato de que, se você olhar em 2020, o PIB do Brasil decresceu e as emissões de carbono aumentaram. 

Isso é uma façanha que poucos países em poucos momentos da história conseguiram: poluir mais mesmo com queda do PIB! 

Normalmente, a desculpa do aumento da poluição vem associada à diminuição da pobreza. Você precisa poluir para gerar renda. Isso já é cada vez menos verdade. Já houve anos em que o PIB global cresceu e a pegada ambiental diminuiu, o que mostra que há caminhos para crescer e gerar valor sem danificar o meio ambiente. 

Mas o Brasil conseguiu essa façanha: empobrecer e causar mais dano ambiental é coisa de profissional.

Como o Brasil conseguiu isso?

Ano passado, todo mundo desligou fábrica, transporte e eletricidade diminuíram, tudo reduziu… só que o Brasil aumentou o desmatamento, que é uma atividade que não gera valor. E, além de não gerar valor, ela destrói a possibilidade de se gerar valor. 

O fracasso geral das concessões florestais aconteceu em parte porque 80% do mercado de madeira do Brasil é informal, é ilegal. Como esperar que um concessionário faça a gestão de uma floresta pública se ele vai ter que colocar produtos que competem no mercado com o produto ilegal?

Para o Brasil melhorar seu desenvolvimento ambiental, o caminho principal então é reduzir o desmatamento… ter tolerância zero com desmatamento?

Certamente. O Brasil tem outros desafios. A matriz de transporte no Brasil é ruim do ponto de vista ambiental. Dos maiores países do mundo, o Brasil é o único que transporta mais de metade da carga por rodovia, que é ineficiente economicamente e também ambientalmente. Outro desafio grande no Brasil é o saneamento, mas agora parece que, depois de três tentativas, o marco começou a destravar. 

Como vocês têm visto os avanços do ESG entre os investidores brasileiros? O tema realmente tem avançado ou fica mais no discurso?

O discurso sempre anda mais rápido que a prática. E no Brasil, mesmo o discurso começou a andar depois de outros países. Mas a gente já vê efeitos práticos. Tem fundos estrangeiros se desfazendo de posições em empresas brasileiras por problemas ambientais. Você vê gestão ativa de fundos estrangeiros, principalmente os fundos nórdicos, pedindo reunião com o governo para considerar investir mais no Brasil ou não. 

Tivemos uma reunião semana passada com um escritório de advocacia que estava tentando fazer o primeiro registro de uma CPR (cédula de produto rural) brasileira numa Bolsa estrangeira. Eles queriam fazer uma ‘CPR verde’ e foram lá em Luxemburgo, que é o país campeão de ‘green bonds’ na Europa. Eles bateram em quatro bancos. Um dos bancos não quis nem saber quem era o emissor da CPR porque, por compliance, eles não trabalhavam com Brasil, dado o nosso problema ambiental.